Gênero: Hip Hop
País: Brasil
Ano: 2014
Comentário: Veio de surpresa na
madrugada do dia 24, o disco que até então havia tido seu lançamento
oficial anunciado para o dia 20 de dezembro, foi disponibilizado no
Itunes, Googleplay e Youtube pela própria banda. Imediatamente todos
pararam o que estavam fazendo para ouvir o primeiro disco do Racionais
após 12 anos desde "Nada Como um Dia Após o Outro", o disco duplo que
por muitos é considerado a obra prima de sua discografia e do rap
nacional, que registra hinos como "Vida Loka parte 1", "Vida Loka parte
2", "Eu sou 157" e "Da Ponte pra Cá".
Falar da importãncia do Racionais para a música brasileira é chover no
molhado, mais do que um grupo de rap, Mano Brown, Ice Blue, Edi Rock e
KL Jay se tornaram uma verdadeira entidade musical, e independente do
tempo que se passou, a minha maior curiosidade em ver o que Mano Brown e
companhia mostraria, seria para ver como eles se adaptariam ao momento
em que o rap vive atualmente. Nunca a produção nacional esteve tão
popular, se nos anos 90 o rap era quase que exclusivamente a trilha
sonora da periferia com composições extremamente densas e pesadas
produzidas por gente como Sabotage, e grupos como Facção Central, Faces
da Morte, RZO e o próprio Racionais, hoje em dia o rap é capitaneado
pelos inofensivos Criolo, Emicida e Projota, queridinhos do mainstream.
E não que fazer parte do mainstream seja o problema, mas Emicida da
incrível mixtape de estreia veio em constante decaída, Criolo tem a
benção de ter Daniel Ganjaman por trás, mas sua personalidde messianica
é cansativa, e Projota, bom, não tem muita diferença pro sertanejo
universitário. O rap precisava que os caras mais hardcore do Brasil
dessem as caras novamente, para o bem ou para o mal.
A surpresa veio de cara com a duração das faixas, das cinco primeiras
músicas do disco, a maior dura apenas 1:16, mas logo se percebe que elas
se juntam e formam uma unica composição. "Somos o que somos, Cores e
Valores" anuncia Mano Brown com o pitch da voz baixissimo, que dá o tom
da produção do álbum. Esqueça o Racionais de sempre, das músicas longas,
das histórias rimadas em cima de batidas repetitivas e hipnóticas. A
produção de Cores & Valores é montada completamente em cima de
batidas de Trap, se aproxima em muito do chamado Memphis Rap, orientação
do rap mais dark e sinistra, com graves pesados e flow veloz, e fizeram
um trampo completamente impecável nesse sentido. Samples de jornais
anunciando desesperadamente o caos que se formou na apresentação do
grupo na Virada Cultural de 2007 onde a Praça da Sé virou cenário de
guerra entre policia e publico dão o tom de horrorcore da faixa, de
longe a mais pesada e agressiva do disco. Para quebrar o clima de
desespero e caos, em seguida vem "O mau e o bem", com seus quase 5
minutos é a faixa mais longa do disco, e calcada no Soul nos entrega um
clima mais melancólico que se diferencia da pegada de todo o álbum. Em
"Quanto vale o show?" o Racionais nos entrega até samples do tema de
Rocky e Silvio Santos repetitivamente te questionando "Quanto vale?", li
em algum lugar da internet um comentário que resume a faixa
perfeitamente "É o som que o Emicida sempre sonhou em fazer", ela remete
em muito a ótima "Triunfo", a música responsável por catapultar Emicida,
mas com a capacidade que só o Racionais consegue empregar.
O que temos em Cores & Valores é um Racionais reinventado, seguindo
as tendências mais recentes do rap atual, e buscando uma influência lá
de fora que realmente combina com tudo que eles sempre produziram, o
clima de tensão, denso e sombrio do Memphis Rap combina muito com toda a
trajetória do Racionais, mas isso é mais notável pra quem realmente
acompanha o que acontece no cenário, só que e o resto de toda a fanbase?
A galera que só ouve o rap nacional aparentemente não gostou muito dessa
mudança. Eu particularmente adorei o que ouvi, mas vejo um ponto em
especial que o Racionais saiu perdendo. Além de Mano Brown diminuir seu
protagonismo, todas as músicas são divididas igualmente entre ele, Edi
Rock e Ice Blue, o Racionais perdeu sua maior caracteristica que é algo
que nunca vimos nada parecido por aqui. A capacidade de Brown de contar
histórias de um modo completamente único. Não entenda mal, as letras
continuam afiadas, mas não tem aquela mesma singularidade de outrora.
São novos tempos, o Racionais precisava se reinventar e eles continuam
sendo o grupo mais hardcore do Brasil que é o mais importante,
independente da sonoridade, o dedo na ferida continua lá, sem
perdoar.
Tracklist:
1. Cores & Valores
2. Somos o Que Somos
3. Cores & Valores - Preto e Amarelo
4. Trilha
5. Eu Te Disse
6. Preto Zica
7. Cores & Valores - Finado "Neguin"
8. Eu Compro
9. A Escolha Que Eu Fiz
10. A Praça
11. O Mau e o Bem
12. Você Me Deve
13. Quanto Vale o Show
14. Coração Barrabaz
15. Eu Te Proponho
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