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sábado, 31 de outubro de 2015
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Drops de bacon #15: Sambas estranhos e afro-ruídos: 3 discos/pt.01

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Este é o primeiro de uma sequência de sei-lá-quantos posts que pretendo escrever para apresentar sempre discos que tenham uma forte relação com a cultura e religiões afro, mas que fuja, ou pelo menos não se enquadre totalmente na ampla categoria que é a denominada Música Popular Brasileira (MPB), seja por conter um som muito desconstruído/experimental, por trazer de volta elementos tão rústicos que perderam a simpatia das comunidades brasileiras ao longo dos anos e da modernização, chegando a causar certa estranheza em dias atuais, ou ainda claramente fazer referências a ingredientes religiosos que são postergados ou mesmo discriminados num país onde o próprio negro virou cristão.

Desta forma, pretendo aqui adotar o termo Música Torta Brasileira (MTB), — assim como nosso parceiro Fernando Augusto Lopes em seu texto para o Floga-se — especificamente associado à cultura negra (e ao samba, que com alegria e bom humor chamo de samba torto, estranho, manco, macumbeiro, etc), para designar estas estranhezas que tantos artistas vem produzindo durante décadas de música brasileira. No entanto, não se apeguem tanto a isso. Assim como a MPB pode garantir inúmeras experiências, boas e incômodas, solenes e brutais, a MTB será apenas um tipo de temática, mas não um gênero musical rigoroso.





Juçara Marçal & Cadu Tenório – Anganga
Ano: 2015
Gênero: Afro-noise
Selo: Sinewave / QTV 
Arte: Cadu Tenório
Streaming: BandCamp
Download: SineWave

Uma das grandes surpresas de 2015 foi a união de dois “recentes” grandes nomes da música torta brasileira, cenário esse que fervilha ao nível underground mas que tem chamado atenção mesmo até de alguns grandes portais. Se de um lado Juçara Marçal é endeusada por sua interpretação vocal ímpar, já bastante notável desde a época com as mulheres do Vésper e com o grupo A BARCA, e por uma carreira que vem sendo tomada cada vez mais de samba estranho — principalmente pelas parcerias com Kiko Dinucci e Thiago França —, do outro Cadu Tenório é um respeitável compositor de música perturbadora e desconcertante, obviamente admirado por um nicho específico, mas demonstrando que bebe de várias fontes musicais diferentes e, ao compor, nos ambienta em meio aos cascalhos e ao aço, ao tempo frio e metálico.
Assim como em Sobre A Máquina, VICTIM! ou Ceticências, Anganga soa quebrado e desgraçado, mas com um plus mítico e, de certa forma aterrorizante para ouvidos não acostumados criados num país predominantemente cristão, onde o diferente ainda causa estranheza e mesmo, infelizmente, repulsa. Neste caso porém, é justificável, já que Cadu e Juçara não estão nos entregando uma música de ninar. O disco consiste no atrevimento da dupla em desconstruir e reinterpretar cantos de trabalho, chamados de vissungos, entoados pelos negros nos garimpos em Minas Gerais e cantos do Congado Mineiro, anteriormente recolhidos e transcritos pelo filósofo e linguista mineiro Aires da Mata Machado Filho, em 1920, e interpretados primeiro por Clementina de Jesus, Geraldo Filme e Tia Doca da Portela na obra O Canto dos Escravos, de 1982.
Foto: Divulgação
De acordo com a descrição na Sinewave, “Anganga é a entidade suprema do povo banto (“Anganga Nzambi”). A palavra consta do canto do congado “Grande Anganga Muquixe”, cujos versos indicam reverência àquele cuja “gunga não bambeia”, o mestre, o mais velho. Trata-se de uma expressão que diz respeito à reverência ao passado.”.

O disco ainda conta com duas composições próprias de Cadu Tenório, “Eká” e “Taio”, também com colaboração de Juçara Marçal. O resultado é um afro-noise sufocante, murmurador, agonizante e estranhamente belo que parece implorar por liberdade.

A mixagem e masterização recebem os cuidados de Emygdio Costa (Fábrica, Sobre A Máquina), velho companheiro de Tenório.





Virgínia Rodrigues - Mama Kalunga
Ano: 2015
Gênero: Samba Torto / Samba Macumba
Selo: Independente (Dist. Tratore)
Arte: Cláudio Bispo (escultura) / Sora Maia (foto)
Streaming: Spotify

Mama Kalunga é o quinto disco de Virgínia Rodrigues lançado sete anos após Recomeço, disco de 2008, e, contando com várias participações, destaca-se por sua solenidade ao narrar a presença negra no mundo, e especialmente no Brasil, com músicas que vão de “sambas eruditos” a composições em tons ritualísticos. Tais participações fazem parte da estrutura primordial do disco, pois Virgínia aqui não compõe, “apenas” interpreta — de corpo e alma.
Aliás, é desmerecer o trabalho alheio dizer que os nomes presentes no disco foram “meras” participações. O repertório, a começar por Tiganá Santana (e também produtor ao lado de Sebastian Notini), corresponde a maioria das faixas: “Mama Kalunga”, “Mukongo”, “Mon`ami”, “Yaya Zumba” (com frases pela voz da atriz Ruth de Souza) e “Dembwa (10 de Agosto)”, composições em sua maioria interpretadas nas línguas africanas kikongo e quimbundo por Virgínia e que fazem a frase “sujo de barro e espírito” — de Tiganá, em apresentação do disco — ter total sentido. Seguindo, Paulinho da Viola é evidenciado com “Nos Horizontes do Mundo”, composição de 1978 e que já fora experimentada por cordas vocais feminina com Leila Pinheiro, em 2005. Gilson Nascimento é responsável pela música que abre o disco, “Ao senhor do fogo azul”, dirigida a Nkosi/Ogum — o guerreiro, o lutador, o forjador, o senhor do ferro — orixás de grupos étnicos diferentes, mas mitologicamente semelhantes. Por outro lado, “Vá Cuidar de Sua Vida”, de Geraldo Filme se afasta da mitologia e, de forma racional, nos entrega uma letra provocativa (vale muito ouvir a versão de Itamar Assunção, presente no disco Pretobrás (1998)), travestida de um ritmo razoavelmente bem humorado e com trechos como “Vá cuidar da sua vida. Diz o dito popular. Quem cuida da vida alheia. Da sua não pode cuidar” e "Negro jogando pernada. Negro jogando rasteira. Todo mundo condenava. Uma simples brincadeira. E o negro deixou de tudo. Acreditou na besteira. Hoje só tem gente branca. Na escola de capoeira".
Foto: Sora Maia
O maestro, compositor e arranjador Abigail Moura, criador da Orquestra Afro-Brasileira, apresenta em “Babalaô / Amor de Escravo” uma canção leve, compassada e bela. As duplas Roberto Mendes e Nizaldo Costa, com “Teus Olhos em Mim”, e Moacir Santos e Nei Lopes, com “Sou Eu” (e participação de Tiganá Santa), além de “Luandê”, de Ederaldo Gentil (do disco Pequenino (1976)), trazem romantismo a Mama Kalunga ao mesmo tempo em que mantêm a estética afro que o disco se propôs desde o início. Por fim, “Cântico Tradicional Afrocubano / Belén Cochambre”, de domínio público, é a experiência máxima do disco no quesito “música raiz” que se pode ter, mesmo com meros 2 minutos e 28 segundos, onde Rodrigues segue acompanhada da cantora peruana Susana Baca, ex-Presidente da Comissão de Cultura da Organização dos Estados Americanos (2011 — 2013).

Enfim, um álbum rico, cheio de sentimentos e elementos, heranças da África e povo negro brasileiro e que incluem algumas interpretações nas línguas africanas kikongo e quimbundo de forma honesta. A imersão é garantida.




Juçara Marçal e Kiko Dinucci - Padê
Ano: 2008
Gênero: Samba Torto / Samba Macumba
Selo: Tratore / Selo Cooperativa
Arte: ?
Streaming: Spotify
Download: Kiko Dinucci.com.br

Provavelmente as bases teatrais de Juçara não foram em vão e a Companhia Coral parecem ter sido, de grande forma, responsáveis pela desenvoltura com a qual a cantora encara e domina o samba torto, mas ainda dançável e possível arriscar alguns passos, presente em Padê, primeiro trabalho junto do músico e já praticamente um ser onipresente Kiko Dinucci. Este por sua vez basta qualquer pesquisa ao “oráculo” para entender as dimensões de seu trabalho como músico e alimentador cultural, encabeçando ou se vinculando a vários projetos como Bando AfroMacarrônico, Duo Viola, Passo Torto, Metá Metá ou mesmo sozinho, como em Na Boca Dos Outros (2009). Aliás, seria mesmo injusto não citar outras notórias participações de ambos. Sendo sucinto: “Fio de Prumo (Padê Onã)” (Juçara), do álbum Convoque Seu Buda (2014) de Criolo; “Samba Do Fim Do Mundo” (Juçara e Fabiana Cozza), do álbum O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui (2013) de Emicida; A Mulher Do Fim Do Mundo (2015) (Dinucci e vários), o mais recente disco de Elza Soares; “Retrato na Praça da Sé” (Dinucci), do álbum Vira Lata na Via Lactea (2014) de Tom Zé; RÁ! (2015) (Com a trupe Thiago França, Kiko Dinucci Juçara Marçal e outros), novo trabalho do rapper Rodrigo Ogi e por aí vai.

Padê — segundo dicionário Michaelis: “Cerimônia em honra a Exu, e que antecede as festas do candomblé”, “Homenagem a Exu, antes de qualquer cerimônia do candomblé, para que ele não estrague a festa” e ainda “desjejum que se oferece ao Exu, antes do início das cerimônias nos candomblés; é constituído de pipoca com azeite de dendê, seu alimento preferido” —, já com seus sete anos de idade, segue uma linha mais próxima do samba manco e macumbeiro ouvido em "pastiche nagô" (2008), não chega a ser metalizado como as músicas de Metá Metá (embora seja uma evolução — e por evolução entendam simplesmente como “mudança”, não “melhoria” ou “piora”) ou como o disco de Vicente Barreto, Cambaco (2015) (Kinucci também está aqui). Tão pouco chega a ser tão Encarnado (2014) (vale ressaltar que este disco figurou a maioria das listas no nosso #Top2014), mas é possível ouvir tudo junto, incluindo um Passo Torto para nenhuma entidade botar defeito.
Foto: Bruno Poletti/Folhapress
De acordo com o texto de nosso editor Bruno Lucas “(...)desde o seu título o álbum se oferece como um registro espiritual nas bases das religiões africanas em solo brasileiro(...)”, portanto Padê é audição obrigatória para quem se interessa pelas raízes culturais e religiosas de nosso povo enquanto degusta uma maravilhosa obra de arte.
Para informações complementares quanto aos elementos sonoros e culturais presentes no disco, além de uma segunda visão sobre o mesmo, Bruno Lucas já deu conta do recado em seu ótimo post (clique).



Links interessantes:

PENSE OU DANCE: MÚSICA TORTA BRASILEIRA, post do nosso parceiro Fernando Augusto Lopes, ser pensante por trás do Floga-se.

O Povo Brasileiro, documentário de Darcy Ribeiro.
quinta-feira, 1 de outubro de 2015
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Drops de bacon #14 - 3 discos nacionais lançados em 2015

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“10”, Valsa Binária (Independente)

Formado pelo quarteto Danilo Derick (guitarra, teclados e variados), Leo Moraes (guitarra e voz), Rodrigo Valente (bateria) e Salomão Terra (baixo), em “10” os mineiros da Valsa Binária apostam numa continuidade natural do primeiro disco lançado em 2011 (disponível também para download gratuito no Bandcamp da banda). Autoproduzido, “10” é composto por 10 faixas que promovem a junção, em plena harmonia, de canções alegres e bem humoradas com melodias introspectivas. Já na abertura o ouvinte é convidado à dança na ótima “Receita”, canção que ironiza as necessidades femininas modernas. O clima jovial é mantido na jovem guardista “Vou Correndo” e na esteticamente folk “A esquina” (única faixa cantada por Danilo). Em contraponto, faixas como “Céu de Abril” e “Dona de si” (conduzida por belo arranjo ao piano) respondem pela porção delicada do álbum. Já em “Melhor Que Sou” e “Quis”, o encontro promovido é entre a dramaticidade com a urgência, conduzida por arranjos atmosféricos e soturnos. A valsa circense “O Palhaço” encerra de modo agridoce o disco que é altamente indicado para os que gostam da sonoridade pop com ares descompromissados.
Nota: 8
Ouça e faça download gratuito em: http://www.valsabinaria.com.br/
Preço: a banda optou pelo formato pague o quanto quiser + frete. O pedido do CD pode ser feito diretamente com o grupo através do e-mail producao@valsabinaria.com.br.

“Piacó”, Iconili (Indepedente)

Formado em 2006, o combo instrumental mineiro Iconili atinge o ápice de sua criatividade em “Piacó”, seu segundo disco, lançado em março de 2015. Sem impor limites a sua já peculiar sonoridade, o álbum (composto por 11 faixas) segue a fórmula afrobeat testada no debute, “Tupi Novo Mundo”, de 2013, mas com abertura para novas sonoridades. Essa proposta já é percebida em “Jorge Botafogo”, faixa de abertura do novo trabalho, onde o clima jazzístico dá o tom. O experimentalismo e a fusão com o carimbó conduzem a faixa título como também a pulsante “Gentil”. Sem deixar a energia cair, a atmosfera dançante é quase interrupta no disco. Afinal é basicamente impossível ficar impassível a faixas como “Nêgo Preto” (conduzida por guitarras em ode a disco music), “Preta de Tataqui” e “Mr. Ok”, canção que promove o encontro de ritmos brasileiros e africanos. Em tempos de alta cozinha, como autênticos chefes culinários, os mineiros do Iconili criaram em “Piacó” um prato bem elaborado, composto por ingredientes diversos que soam saborosos a cada audição. Um dos discos essenciais do ano até agora.
Nota: 10
Ouça e faça download gratuito em: http://www.iconili.com.br/
Preço do CD: R$ 21,00 (compre na loja virtual do grupo em http://loja.iconili.com.br/)

“Garnizé”, Dibigobe (Independente)

Em seu segundo álbum, a turma mineira da Dibigobe trafega pelo caminho da ousadia. Tendo como mote central uma homenagem semi-instrumental ao sambista Ataulfo Alves, o grupo não se rende as armadilhas da mera reprodução dos arranjos originais, pois aposta alto na pessoalidade e a na criatividade ao longo de oito faixas de “Garnizé”. Gravado em Mineapollis (EUA) com produção de Zachary Hollander (que já trabalhou com Explosions in the sky e The Polyphonic Spree), “Garnizé” recria de maneira desconcertante clássicos do compositor de Miraí, MG. Faixas como “Tempos de Criança” (que ganha ares de post-rock carregado de batidas eletrônicas), “Laranja Madura” (relida com elementos do rock e jazz), a desacelerada e bela “Mulata Assanhada”, os ares carnavalescos de “Você Passa, Eu Acho Graça” e a releitura gipsy (ritmo popular nos EUA nos anos 20) para “Aí Que Saudades da Amélia”, que conta com a participação do clarinetista Pat O’Keffe, destacam-se. Mas o climax concentra-se em “Na Cadência do Samba”, única faixa com vocais, onde a presença da icônica cantora mineira Dona Jandira abrilhanta a canção. O resultado final é tão acima da média que deixaria o finado ícone da música popular brasileira orgulhoso.
Nota: 10
Ouça em: https://soundcloud.com/dibigode/sets/garnize
Preço: R$ 50 (vinil). Pode ser adquirido no site www.amusicaquevemdeminas.com.br
Publicado originalmente em Scream & Yell.
segunda-feira, 23 de março de 2015
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Drops de bacon #13 - Cinco discos nacionais lançados em 2015

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Após longo hiato a seção drops de bacon está de volta! 

Destacamos neste retorno cinco discos nacionais da ala indepedente. Todos altamente recomendáveis e que foram lançados em 2015. 

“Curvas, Lados, Linhas Tortas, Sujas e Discretas”, Leonardo Marques (La Femme qui Roule)

Em sua segunda incursão solo, o mineiro Leonardo Marques (da banda Transmissor) segue apostando no formato indie folk. Salva a participação de Pedro Hamdam (baterista), “Curvas, Lados, Linhas Tortas, Sujas e Discretas” foi gravado de maneira solitária, em estúdio próprio (o Ilha do corvo), com Marques executando todos os instrumentos (piano, violão, banjo, guitarra, baixo, mellotron, optigan, chamberlin, casiotone, tonebank, guitarra barítona e percussão). Tal como em seu belo disco de estreia, “Dia e Noite No Mesmo Céu”, o multi-instrumentista segue apostando na continuidade natural de seu trabalho onde delicadas melodias servem como apoio adequado a sua frágil voz e a versos em ode a tristeza. Destacam-se neste novo trabalho, composto por nove faixas, a recriação intimista para “Um girassol da cor de seu cabelo”, do Clube da esquina (grupo já homenageado por sua banda oficial), a abertura com “Se o chão dá um nó”, a faixa título (composição coletiva com os comparsas do Transmissor), a levemente acelerada e cadenciada "Meus pés no chão" mais a singela "Brilhant blue", única faixa em inglês. Indicado para fãs do finado Elliot Smith. 

Ouça aqui

“Yours truly”, Invisível (La Femme qui Roule)


Segundo lançamento do selo belga-brasileiro neste ano, “Yours truly” é o disco de estreia dos belo-horizontinos do Invisível. Com apenas quatro meses de existência, o trio formado por André Travassos, do Câmera, Bernardo Zanetti e Lucca Noacco já debuta em disco cuja aposta musical vai de encontro folk americano tradicional, como sonoridade híbrida entre a velha guarda (Bob Dylan, Neil Young) e a contemporânea (Fleet Foxes, Bon Iver). Produzido de maneira minimalista por Leonardo Marques e a própria banda, o álbum é conduzido essencialmente por violões e banjos, fator este que garante o caráter de unidade sonora ao álbum. O estado de paz espiritual e a leveza são a chave para embalar canções sobre amizades sinceras (na curta "Friendly fire") e amores correspondidos ("Your love is a long road"). Os arranjos minuciosos também são destaque como em "Quiet unquietness" e "The Lightness Of Being", canções entrecortadas por belos arranjos ao trompete, a gaita presente na já citada "Friendly fire" e as harmonias vocais que permeiam todo o álbum. "Yours truly" representa um novo frescor sonoro na seara nacional em contraponto a tantas brasilidades por aí (sem nenhum demérito aqui).     

Ouça aqui.

"Carnaval dos bichos", Madame Rrose Sélavy (independente)


Chegando ao seu oitavo álbum de estúdio, o sexteto Madame Rrose Sélavy (nome em homenagem ao alter-ego do artista Marcel Duchamp) segue a sua sina de unir concepções distintas indo da bossa-nova a crueza do punk, perpassando pela música eletrônica com pitadas de jazz. Liderado pela dupla Rodrigo Lacerda Jr. e Tuca Lima, responsável por todas as composições, "Carnaval dos bichos" mais do que uma alusão abrasileirada a clássica obra literária de George Orwell, representa em verso e prosa a estética do faça você mesmo. Gravado de modo artesanal pela própria banda e lançado de forma independente no inicio do ano, a obra é dominada por melodias simples, vocais em dueto (conduzidos por Lacerda e Ana Moravi) e canções curtas (todas na casa dos três minutos) que servem de pano de fundo para letras em referência direta a  poesia marginal e a vanguarda paulista. A desconcertante "Frio na espinha", a irônica "Merda pela grama" e a pegajosa "Amor de plástico" são exemplos desta seara. O single "Atriz na high society", a balada "Ela foi pra Marte" e a acelerada "Coberta com açúcar" também se destacam neste ousado disco que traça um olhar divertido e multifacetado da contemporaneidade.  

Ouça aqui.

"Trovões a me atingir", Jair Naves (independente)



Cada vez mais distante dos tempos verborrágicos de liderança do grupo Ludovic, Jair Naves vai de encontro a serenidade em Trovôes a me atingir. Composto por nove faixas, o segundo e curto álbum solo prima pela linearidade musical. Por mais que suas letras ainda permanceçam em sua zona de conforto (em sua maioria em ode a tristeza quotidiana), o caráter solar sonoro predomina. As pungentes "Resvala" e "Em concreto"; a cadenciada "Incêndios", o dueto com Barbara Eugênia em "B." dueto com Barbara Eugênia mais a bucólica e a esperançosa "Prece atendida" são alguns exemplos deste novo direcionamento. De maneira tocante, Naves segue (tal como na sua estreia solo voce se sente numa cela escura planejando a sua fuga cavando o chao com as proprias unhas) utilizando a sua potente voz para falar sobre as agruras da vida de coração aberto. Um dos discos do ano desde já.

Ouça e baixe aqui.            

"Um chopp e um sundae", Rafael Castro (independente)



Em seu 11º disco Rafel Castro segue entretendo o público, num álbum que prima pela mistura de bases eletrônicas, guitarras sacanas e letras dominadas pelo humor. No disco Um chopp e um sundae Castro divide o repertório entre desconstuções magníficas de hits de outrem ("Aquela" do Raimundo, e "Víbora" da Tulipa Ruiz) e canções autorais. Nesta ala a abertura com "Ciúme" (cuja melodia é puro "Kids" do MGMT), a elétrica "Caetano Veloso" (canção como cara de hino pró-cena independente musical) e a dançante "Bicho Solto" se destacam. Despretensioso e direto, Rafael cria ao longo de 40 minutos um disco divertido, pop e sem restrições.

Baixe aqui.          

Os textos sobre os três primeiros discos (Leonardo Marques. Invisível e Madame Rrose Sélavy) foram publicados originalmente no Scream & Yell.
terça-feira, 16 de abril de 2013
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Drops de Bacon #11 - Março de 2013

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Com um pouquinho de atraso, cá está o guia de tudo que saiu de interessante no mês de Março. E se preparem, tem muita coisa, para todos os gêneros, gostos, sexualidade, religiões, tomates e marcos felicianos.

Retorno de bandas velhas, debut de bandas novas, projetos paralelos, trabalhos solos, realmente foi um mês cheio, e nem vou me alongar porque o post já está bem grande.

terça-feira, 5 de março de 2013
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Drops de Bacon #10 - Fevereiro de 2013

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Janeiro já havia sido um bom mês para a música, recheado de discos capazes de agradar fãs dos mais distintos gêneros e gostos, mas é fato que nada bombástico veio a tona. Pois é, em fevereiro a coisa já muda de figura com lançamentos de enorme peso. O carro chefe é claro, foi o novo disco do My Bloody Valentine, um dos álbuns mais aguardados de todos os tempos após longos 22 anos de espera desde seu antecessor, mas o mês não se resume só a isso, afinal, no ultimo dia do mês o retorno de David Bowie a música viu a luz do dia. Ainda temos a super banda de Thom Yorke e Flea, o Atoms for Peace, Nick Cave & The Bad Seeds com um lindo disco, Johnny Marr, o eterno guitarrista do Smiths debutando com trabalho solo, Sadistik representando o hip hop com um disco dificilmente será batido ao longo do ano, além de nomes fortes da cena indie como Phoenix, Kate Nash e Black Rebel Motorcycle Club, porradas de lendas do Death Metal como Suffocation e Soilwork, e também trabalhos mais experimentais como o novo do The Flaming Lips, e o IDM do Autechre.

Aproveitem, deixe todos os discos a serem ouvidos em dia porque Março já ta rolando.

Quem escreve e faz os uploads:

 
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