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quinta-feira, 11 de agosto de 2016
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As Bahias e a Cozinha Mineira - Mulher

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Gênero: MPB / Rock / Blues
País: Brasil
Ano: 2015

Comentário: Tirando a poeira do teclado, aqui estou, depois da metade desse conturbado ano de 2016, me colocando novamente a serviço desse blog que eu não consigo deixar de amar. Bem, então vamos lá, pra não perdermos o fio da meada e etc. As Bahias e a Cozinha Mineira veio até mim pela indicação de um amigo, aliás, Gilson, muito obrigado.

Mulher, primeiro registro do grupo carrega uma infinidade de referências que eu amo: passa pela catarse que é o Johnny Hooker, a força de Gal Costa, o encanto que é a Amy, a musicalidade regional nordestina, tropicália, brasilidade e afins, Assucena Assucena e Raquel Virgínia conseguem com seus vocais transmitirem tamanha visceralidade e entrega que me fizeram tirar a bunda da cadeira e vir escrever um pouco desse álbum aqui, mesmo que eu esteja enferrujado para isso.

A sonoridade da banda tem muito dos ritmos musicais nordestinos, destaque para Esperança no Cafundó um xote lindo demais, bem ritmado, que dá vontade de sair dançando por ai -  que ainda conta com uma sanfona e um vocal bem tristonhos lá do meio pro fim, caindo para um ritmo bem balançado, que nasce de ótimas cordas e se encaminham prum final bem melódico e que se une a uma guitarra um tanto experimental da faixa seguinte, Lavadeira Água, que apresenta uma percussão advinda do maracatu, aliás, configurando numa ótima passagem do álbum, vale ressaltar.

A música que abre o álbum Apologia ás Virgens Mães é uma das músicas mais belas que ouvi esse ano, seja em ritmo ou poesia. Não consigo descrever em palavras o que essa música me causa, mas ela me entorpece de uma maneira, acalenta, acalma, mas também revolta, inquieta: arrisco-me a dizer que foi a melhor escolha da banda em iniciar o álbum com ela: é forte, mostra variedade musical, uma letra bem construída, apresenta lindas referências e o melhor, já encanta a primeira ouvida, pelo menos para mim funcionou.

Sendo nós, do país que mais mata travestis e transexuais, Mulher se coloca como local de destaque no enfrentamento desse número horrível, já que a banda conta duas mulheres trans nos vocais, o álbum se faz resistência poética diante do mundo em que vivemos. Tendo em suas letras um forte teor político e feminista em suas composições, revelando nas camadas de seus textos as chagas de ser mulher hoje no Brasil. O álbum vai do carnaval ao político sem nunca perder o tom, sem nunca perder sua estética.

Destaco ainda no álbum a melódica Uma Canção Para Você - Jaqueta Amarela, a dolorida Melancolia (o início instrumental da música é, puta merda, uma das coisas mais lindas e doloridas do álbum), a experimental e já citada Lavadeira Água e a essencial Apologia ás Virgens Mães.



Tracklist:
01.Apologia às Virgens Mães
02.Josefa Maria
03.Lata d'água na cabeça
04.Esperança no Cafundó
05.Lavadeira Água
06.Ó Lua
07.Comida Forte
08.Foi
09.Uma canção pra você
10.Melancolia
11.Mãe Menininha do Gantois
12.Fumaça
13.Reticências

Ouça: Spotify

terça-feira, 5 de janeiro de 2016
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Os Melhores Discos de 2015 por Lucas

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Pois bem, mais um ano se foi e dele ficam só as estórias - e são justamente elas que proponho remontar aqui nesse TOP 10, em sua maioria narrativas melancólicas, cada qual a sua maneira, fantasiada ao seu modo, escondidas por detrás de sonoridades e gêneros musicais. Não importa. Cada álbum escolhido para essa pessoal e singela lista tenta contar uma história, a sua maneira, com sua linguagem e estéticas próprias. Desde a neo psicodelia até o blues, o indie, o rap, o samba, a MPB: macumbas por amores malditos, e intimidades reveladas em forma de canção, nada aqui escapa da boa e velha narrativa. Reconstruída e musicada. Enfim, aqui estão as 10 narrativas que me prenderam em sua magia no ano passado. 

domingo, 20 de dezembro de 2015
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BANDAS AMIGAS #9 - Federico Puppi e Fernando Leitzke

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 Federico Puppi



Depois de anos de espera, amadurecimento, esquecimento e descobertas, nasce o meu primeiro disco autoral e inédito”. É assim que o violoncelista e compositor italiano Federico Puppi anuncia “O Canto da Madeira” (independente, financiado via crowdfunding), instrumental de verve pop. O álbum pode ser baixado gratuitamente no site oficial do músico (www.federicopuppi.com) e está disponível para audição nas plataformas digitais. A cantora e compositora Maria Gadú participa de duas faixas.

Disco e apresentações são fruto de uma mistura sonora vibrante e contemporânea: um violoncelo alemão de 150 anos + melodias pop + ritmos brasileiros + flertes com o rock, o jazz e o eletrônico. Ao todo, o disco traz 10 canções instrumentais, cantadas pelas cordas graves do violoncelo no lugar tradicional da voz. O conceito deu nome ao álbum e norteia a obra de Puppi, que estuda o instrumento desde os 4 anos com uma certeza rara de que escolheu e foi escolhido pela música. “Brinco dizendo que é esse violoncelo cheio de histórias quem me toca”.

A vontade de gravar um disco para chamar de seu é antiga, mas, como uma massa que leva um certo tempo para crescer, “O Canto da Madeira” acaba de sair do forno – e chega num ótimo momento na carreira de Federico Puppi. Já estabelecido no Rio de Janeiro, onde mora desde 2012, quando, fugindo da crise europeia, baixou por aqui com o cello nas costas, o ragazzo está em destaque na cena, tocando com o estupendo Caio Prado, além de pertencer à banda fixa e estelar de Maria Gadú. Juntos, produziram o recente “Guelã” (Som Livre), indicado ao Grammy Latino como melhor álbum de MPB.

“Sempre tive a necessidade de fazer o meu som, com as minhas músicas. Esse desejo aumentou nos últimos anos, quando vi a minha carreira de instrumentista deslanchar”. Federico Puppi encontrou o seu lugar. Vem gravando com artistas consagrados – destaque para a sua participação no disco “Magic” (2014), de Sérgio Mendes –, compositores e músicos famosos – gravou o disco “Dio&Baco”, de Suely Mesquita e Eugenio Dale, e se apresenta regularmente com o duo – já colocou o seu instrumento à serviço das contemporâneas Roberta Sá e Anna Ratto (no CD e DVD “Ao vivo”), por exemplo, e expandiu para outras formas de arte. Atualmente, está em cartaz com o espetáculo teatral “Consertam-se Imóveis”.

Faixas como “Solo come um cane” (a única com título em italiano, que significa “Sozinho como um cão”), “Touareg”, “Blue jeans” e “Dança da chuva” vieram da Itália dentro do case de Puppi. Outras três foram escritas no Brasil: “Dente de Leão”, que ele dedica à mulher, a atriz Suzana Nascimento; “Chiara”, feita para a irmã radicada em Edimburgo, e “Rua São Braz”, uma homenagem ao seu primeiro endereço carioca, em Todos os Santos. Com todo o simbolismo que pode ter, é a faixa que abre o disco.


Sobre Gadú, o violoncelista fala com intimidade e gratidão. “Nos conhecemos numa noite que eu não queria sair de casa, mas acabei indo parar num sarau no Comuna, em Botafogo. Quando estava no fim, chegaram um rapaz e uma garota. Eles quiseram tocar e os caras religaram tudo. Eram Dani Black e Maria Gadú. De repente, me vi no palco com a Maria, sem saber quem era. Fizemos uns improvisos e a noite terminou muito feliz. Dias depois, ela me ligou convidando para participar de um show em homenagem ao Cazuza. Aceitei na hora. Isso foi em setembro de 2013”, rebobina.

A partir daí, a vida seguiu outro rumo e Federico Puppi foi se aproximando dos músicos que abraçaram a ideia de fazer “O Canto da Madeira” acontecer. Conheceu Gastão Villeroy (baixo e coprodutor do disco) e Cesinha (bateria) através da Gadú e, apresentado pelo Gastão, ficou amigo do Marco Lobo (percussões). O Eugenio Dale (violão de nylon na faixa “Bebum”) também veio por intermédio do Gastão, sócio no estúdio Pacto com Baco, onde parte do trabalho foi gravado. Fernando Caneca (guitarra e violão de nylon) já tocava com a Gadú e logo ficaram amigos. Quando menos esperava, estava formada a banda que você ouvirá neste lançamento, que já pode ser considerado um dos melhores álbuns do ano!


Fernando Leitzke



O pianista gaúcho Fernando Leitzke (pronuncia-se “Laitisque”) gravou este ano o álbum instrumental “Rios que navego” com apoio financeiro de mais de 200 amigos e admiradores. Fez o primeiro show de lançamento na Casa do Choro e está trabalhando para continuar levando esse repertório para os ouvidos brasileiros. Radicado no Rio de Janeiro há seis anos, Fernando toca há 12 anos e acredita que esse seja um “disco de fronteiras” por aproximar a sonoridade do Rio e de Porto Alegre, em sambas, candombes, choros, um bolero e uma valsa.

“Gravei este disco porque senti a necessidade de mostrar o meu trabalho mais a fundo, não só como acompanhador, mas também como arranjador e solista. As composições sempre chegaram de um forma muito natural, mas refletem momentos como liberdade e tristeza. Escrevi as cinco autorais no Rio, em apartamentos onde morei no Flamengo e na Tijuca”, conta o músico, que entremeou os seus temas (“Chaleira quente” e “Pequena folha” são dois deles) com obras reconhecidas de Pixinguinha (“Mundo melhor”, sem a letra de Vinicius de Moraes), Tom Jobim (“Descendo o morro”, também sem os versos de Billy Blanco) e Radamés Gnattali (“Vou andar por aí”).



Esses três compositores representam o que há de melhor na música brasileira e também foram, de certa forma, responsáveis pela vinda do pianista à cidade onde moraram e produziram. O nome “Rios que navego” resume essas influências. Já Rubén Gonzales, pianista cubano, é uma grande referência no modo de tocar, um exemplo de piano forte com alma. E Rubén Rada, ele conheceu através de outros músicos gaúchos e se encantou pelo seu repertório de candombes, ritmo tradicional no Uruguai. Nos choros autorais “Segunda” e “Radamesiando”, Fernando homenageia, respectivamente, Cristóvão Bastos e, de novo, o mestre Radamés, a maior inspiração para os pianistas de música brasileira. 

domingo, 13 de dezembro de 2015
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BANDAS AMIGAS #8 - Pedro Dias Carneiro

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Pedro Dias Carneiro
Vovô Bebê


Pedro Dias Carneiro é compositor, arranjador e produtor musical. Nascido no Rio de Janeiro, hoje passa boa parte do seu tempo na estrada entre sua cidade natal, onde assumiu no último ano o antigo estúdio 304, e Belo Horizonte, trabalhando como assistente e aprendiz do produtor musical Chico Neves. Com a sua banda carioca, "Dos Cafundós", fundada em 2002, lançou o elogiado disco "Capitão Coração” pelo selo inglês Far Out.

As suas letras intensas e a sua música disforme recriam o lugar previsível da canção brasileira. E as suas criaturas-canções falam sobre a vida cotidiana do mundo e, ao mesmo tempo, inventam imagens quase cinematográficas, deslocando os seus personagens do comum ao absurdo com a intimidade de quem transita, em sua própria vida, entre esses dois lugares.

“Vovô Bebê” (independente) é o primeiro álbum do compositor, que estará disponível para download gratuito a partir do dia 14 de dezembro, no site www.vovobebe.com.

Concebido por Pedro e Chico Neves entre 2009 e 2014, “Vovô Bebê” é um apanhado afetivo de canções registradas entre a casa de Pedro, no Rio de Janeiro, e os estúdios de Chico, no Rio e em Belo Horizonte, onde o produtor vive há três anos. A arte do disco, caprichada, detalhista e com pedaços de fotos antigas impressas, foi feita pelos designers Felipe Bardy e Guga Liuzzi. Acompanha, ainda, um livreto biográfico do artista. Os instrumentos são, em sua maioria, tocados por Pedro e Chico, com participações especialíssimas de Guinga (violão), Conrado Kempers (violino e dilruba), Marcelo Caldi (acordeon) e Pedro Braga (piano).

"Nenhuma das músicas tem bateria e a percussão aparece em duas ou três faixas", diz o jovem artista. Pode-se dizer que a sonoridade do disco foi praticamente concebida durante as gravações. Todas as canções são da autoria de Pedro, com exceção de "Saudade do Cordão", parceria dele com Guinga. O repertório é autoral inédito e marca a estreia do músico de 30 anos, que compõe desde os 10 anos. O disco traz 10 faixas, cinco para cada lado: A e B.


A tradição e o experimentalismo andam juntos na personalidade musical do compositor, que faz uma música paradoxal: às vezes simples, às vezes complexa, às vezes leve e, outras, densa. É, com certeza, um disco original, repleto de dor e beleza, agressividade e acalanto. Difícil enquadrá-lo num gênero ou categoria, já que ele transita por vários lugares, com muitas cenas e informações. Há um jovem, um bebê e um senhor ali. Há também um mundo a ser descoberto: A caverna do Pedro Dias Carneiro.

Para o produtor e amigo Chico Neves, o jovem Pedro Dias Carneiro é uma figura ímpar, que surpreende a cada composição. "Ele tem uma maneira de pensar a música muito peculiar, instigante e inteligente. Escreve as letras de uma forma brilhante! Este trabalho foi desafio dos bons, longo caminho trilhado até chegar na forma, no conceito, desta joia rara que se tornou o primeiro disco do Pedro. Muito talento para uma pessoa só, que às vezes se perde e se dá um nó!".



sábado, 3 de outubro de 2015
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Elza Soares - A Mulher Do Fim Do Mundo

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Gênero: Samba / Samba-rock / Rap / Jazz / Vanguarda Paulista
País: Brasil
Ano: 2015

Comentário: É extremamente difícil saber como eu vou começar essa resenha. Mas comecemos, mesmo sem saber de onde, mesmo sem saber como. Na primeira faixa já temos um poema musicado do Oswald de Andrade, Coração do Mar, na voz rouca, potente, sofrida, visceral dessa rainha que é Elza Soares.

Tenho para mim que a abertura do álbum com Coração do Mar e Mulher Do Fim Do Mundo, a faixa-título, resumem muito bem o conceito que o álbum quer passar. Esse samba que é choro, que arrebata, sofrido, estranho, cheio de barulhos sujos, vanguardista - que depois de setenta anos de carreira, desabrochou em um primeiro álbum de inéditas. E inserida nesse universo de apocalíptico e apoteótico, Elza canta até o fim a negritude, a força da mulher, o sexo e a dor.

Maria da Vila Matilde funciona como uma espécie de retrato para várias mulheres que cansaram de serem tratadas como maltrapilhos pelos seus companheiros. Ela ameaça jogar água fervendo, soltar os cachorros e promete - ele vai se arrepender de levantar a mão pra ela, ah se vai. A faixa é um samba de ritmo estranho, que se apropria da falta de compassos, de cordas soturnas, de uma pequena referência ao partido alto, que logo se quebra para voltar a sua excentricidade habitual. Ah, e que faixa, não consigo passar por ela e ouvir uma vez só, por sinal.

O álbum foi todo composto, ritmado e musicado pelos excelentes artistas da cena de vanguarda paulista, responsáveis também por álbuns que também já nasceram clássicos, como o Encarnado, da Juçara Marçal lançado no ano passado, como Kiko Dinucci, Marcelo Cabral, Rodrigo Campos, Felipe Roseno e etc. A produção ficou por conta do bateirista Guilherme Kastrup - e com cada música pensada especialmente para os temas e a voz da Elza, não seria difícil de prever a sensação que esse álbum seria. A Mulher Do Fim Do Mundo é uma explosão de dor, martírio, erotismo, brasilidade, samba, rock, experimentações. É difícil rotular esse álbum dentro de uma caixa, e quando isso acontece com um trabalho, é quase certo de que ele está no caminho certo. E esse álbum é isso: é um percurso em um caminho tortuoso e difícil, mas com toda a certeza, certeiro.

Elza não tem medo de palavrão, não tem medo de abrir feridas, de se fazer erótica - e é justamente isso que faz em Pra Fuder, um samba muito bem marcado, de percussão gradual, de metais entrelaçados a tudo de vocal visceral, synth e etc. O swing que a faixa apresenta é latente e sedutora, principalmente pela entrega da voz da Elza, que sabe onde ir nos momentos certos, sabe diminuir e aumentar sua intensidade, dosar e entregar o deu desejo.

É difícil não se alongar nas discussões sociais, musicais e culturais que esse álbum carrega. Pra mim ele funciona como a comprovação de que a cultura e a música nacional vão bem, obrigado. Os temas são atuais, vão do rap de Firmeza?!, o acústico de Solto, com a voz da Elza em evidência, até a musicalidade de um poema modernista! E todos estão juntos nessa miscelânea de mundo prestes a acabar, de choro que não é nada além de carnaval, de dança, de soturnidade, de uma mulher curando suas próprias feridas após ter enterrado um filho - sentimos a agonia e a libertação que esse trabalho exala e oh, só podemos agradecer pelo registro, por podermos ser retirados nessa contradança que a Elza nos convida a fazer.

A Mulher Do Fim Do Mundo é também uma Menina que Dança - é o multiculturalismo brasileiro reafirmando suas raízes, reafirmando sua negritude, usando aqui como exemplo as batidas da faixa O Canal, sua identidade; sua voz. No fim desse mundo que não ainda não acabou só me sobra um vazio dentro do peito - assim como o vazio que o álbum também apresenta - e a sensação de que os deuses estão errados: a humanidade não é imagem e semelhança, é carnaval.




Tracklist:
01. Coração Do Mar
02. Mulher Do Fim Do Mundo
03. Maria Da Vila Matilde
04. Luz Vermelha
05. Pra Fuder
06. Benedita
07. Firmeza?!
08. Dança
09. O Canal
10. Solto
11. Comigo

Download: Site Oficial

segunda-feira, 21 de setembro de 2015
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Johnny Hooker - Eu Vou Fazer Uma Macumba Pra Te Amarrar, Maldito!

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Gênero: MPB / Glam Rock
País: Brasil
Ano: 2015

Comentário: O Johnny é uma catarse. Evocando a filosofia aristotélica, encontramos o conceito de catarse como “purificação das almas por meio de uma descarga emocional provocada por um drama” e logo na primeira faixa, a que dá nome ao álbum, Eu Vou Fazer Uma Macumba Pra Te Amarrar, Maldito!, a gente percebe essa catarse atrelada na poética do cara.

Aliás, esse resenha é dedicada a Ariels porque esse álbum é verdadeiramente dela (a gente dividiu e estamos a procura de um álbum pra mim).

“É, talvez algum dia / Eu vou te encontrar / E só se eu te implorar / Conte mentiras pra me fazer sonhar”, o drama está intrincado na letra tal qual na sonoridade com os metais advindos de uma novela mexicana – e não pensem que é uma ofensa, longe disso, as novelas mexicanas são permeadas com todo o drama visceral que o Johnny apresenta na faixa, toda a macumba pra amarrar seu amor maldito, assim, libertando-se do sofrimento que é aquele amor por meio da percussão bem ritmada e do vocal quase gritado mais pro final da faixa: como já disse, catártico.

Em Volta, Johnny mantém a sonoridade bem atrelada aos metais, algo bem latino, kitsch, quase brega – mas funciona. Funciona porque as letras pedem esse drama excessivo, pedem essa esse erotismo que ele coloca em suas interpretações; essa tragédia bem ritmada e fluida, não caricata, mas real, pulsante, falando tudo o que precisa ao mesmo tempo e sem se tornar uma cacofonia irritante: o drama mantém cada coisa em seu lugar.

O álbum dói. Alma Sebosa, que fora trilha sonora de uma novela das sete da Globo, mantém a mesma pegada que as anteriores, só que na faixa há algo bem mais mariachi, os metais em maior evidência em um ritmo mais rápido, bem ornamentados com a percussão dançante. Vale também ressaltar a ótima versão de Alma Sebosa em espanhol que joga ao quadrado todas as referências sonoras presentes na versão em português. É uma faixa com uma característica que é bem recorrente no álbum, até, mas não falha, em momento algum. Nem cansa, longe disso, porque no decorrer da mesma temos uma guitarra que vem se juntar com toda a potência que o álbum apresenta – e se mantém assim em quase toda sua extensão.

Algo que quero deixar frisado aqui é a poesia das letras. Nas quatro primeiras faixas, com Chega de Lágrimas se afastando um pouco das linhas dos metais presentes até então, há reinvenções de amores descontentes; perdas, danos, ganhos, acertos e erros. O que me atrai no álbum é o medo de não se esconder, as composições são altamente doídas e existenciais, relatam casos amorosos das mais variadas formas, resfolegam na lama, não se salvam de maneira alguma - as composições não têm medo de se tornarem piegas ou caírem no brega mais do mesmo, no brega farofa que a gente tanto amo, elas realmente viram poesias embaladas por uma sonoridade que só as faz crescer.

Amor Marginal ganhou uma gravação um pouco menos soturna do que a do álbum anterior, mas ainda assim agrada. É ela que, para mim, funciona como o ponto de ruptura de tudo que vinha anteriormente acontecendo no álbum. Ela é mais lenta, mais sofrida, tem uma pitada de ultrarromantismo, funcionando também muito bem com a faixa seguinte, Segunda Chance, que começa num voz e violão incrível.

Aliás, falando ainda de Amor Marginal, ontem fora lançado o belíssimo clipe da faixa. Uma incrível interpretação do Luiz Miranda com um texto original do Johnny funcionando como prólogo e, posteriormente, epílogo do mesmo. O clipe fora inspirado no ótimo filme de Javier Fuentes-León, Contracorrente, de 2009, que também narra o relacionamento de um homem casado com um “morador” do mar. O filme é belíssimo, vale a pena à procura e funcionou muito bem a vibe do mesmo com a música do Johnny – a atuação do Johnny, o cenário e o figurino são incríveis, você fica criando a narrativa daquele casal, daquela trilha mentalmente e tudo só se torna mais poético, mais catarse, por favor.

Finalizando a resenha tem a sensacional Você Ainda Pensa?. Letra e sonoridade estupendas, de uma dor fodida, de um amor real, de uma vida real, de um casal real. Sei lá, não consigo ver o Johnny longe de toda essa tragédia, desse buraco que ele não faz questão nenhuma de sair, ao contrário, ele te carrega pra ele, te faz sentir aquilo tudo, te faz sentir mal estar – te faz sentir bem com o teu próprio mal estar e para mim isso é o ponto máximo do álbum.

A catarse se faz presente nessa tragédia feita para ilustrar diversas faces de um amor maldito.


Tracklist:
01. Eu Vou Fazer uma Macumba Pra Te Amarrar, Maldito!
02. Volta
03. Alma Sebosa
04. Chega de Lágrimas
05. Amor Marginal
06. Segunda Chance
07. Boyzinho
08. Boato
09. Você Ainda Pensa?
10. Desbunde Geral
11. Alma Sebosa (Versão em Espanhol) 
 
Ouça: Spotify

 
quarta-feira, 8 de julho de 2015
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Esteban - Saca La Muerte de Tu Vida

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Gênero
: Pop Rock / Rock Platino
País: Brasil
Ano: 2015

Comentário:O Tavares sempre afirmou que o que fazia em seu novo projeto era um “rock platino”, algo com muito violão, acordeom, piano e aquela melancolia tanto vocal como nos temas das canções. Em Saca La Muerte de Tu Vida, temos essa combinação magistralmente bem apresentada desde a concepção do álbum até a apresentação do mesmo.

Saca La Muerte de Tu Vida parece captar muito bem a essência gaúcha nostálgica/melancólica do Tavares. Já em “Janeiro”, música que inicia em um ótimo duo de piano e voz, podemos ver todo o resumo do gênero que ele se dispôs a fazer com o Esteban impregnado na letra e melodia. Aliás, é uma das mais belas poesias do álbum: “Teria paz se não tivesse sangue / Se o coração não conseguisse trabalhar / Esqueceria tudo do começo / E viveria toda a vida sem pensar / Não tomaria tantos comprimidos / Apagaria o que me dessem pra fumar”, só esse trecho já evidencia um narrador modelo por detrás da persona do cantor – a música tem o tom de intimidade que o álbum procura, além de ter forte presença de elementos do platino, um acordeom em uma brincadeira de evidenciar/esconder por detrás da bateria e do piano – é realmente a melhor faixa para apresentar o projeto a desconhecidos e já causa arrebatamento os que acompanham o trabalho do cara.

Pra Ser” coloca o álbum um pouco mais pra cima, embora as letras introspectivas e de arrependimento continuem bem presentes na faixa. Aqui o som do acordeom é um espetáculo a parte, está muito bem inserido por detrás da polifonia sonora dos elementos platinos que o Tavares faz questão de mesclar muito bem, obrigado. E no finzinho a bateria é realmente um fator importante na sonoridade.

Cigarros e Capitais” tem uma musicalidade muito peculiar dentro da estética sonora do álbum. Uma bateria mais ritmada, lembrando muito “Pianinho”, de seu álbum anterior, embora aqui a condução seja do acordeom e bateria. Na quinta faixa, “Tango”, temos uma das melhores surpresas do álbum. Eu particularmente gosto muito da latinidade que escorre nas criações do Tavares, até mesmo na promoção do Saca La Muerte  em seu instagram havia um quê de mistério latino por detrás das imagens que ele postava – fora uma divulgação bacana, com uma estética forte, tanto quanto o álbum. E o coral de “Tango” é uma das coisas mais belas feitas por ele, um primor.

Martes” é outra das músicas marcantes do álbum – um vocal em espanhol, a sonoridade platina fazendo-se presente desde o primeiro segundo. De longe é uma das minhas favoritas do álbum, funciona muito bem se ouvida logo depois de “Janeiro”, formam um duo excelente, coeso, inserido dentro da estética que o Tavares busca. Embora possamos aqui tecer críticas às repetições que metade do álbum apresenta ele é coerente por se manter em seu estilo, e bem, temos sim variações. Temos um pouco do tango infiltrado nas canções, do pop rock de fácil aceitação – embora em menor quantidade nesse aqui se compararmos com o “Adios Esteban!” -  flutuando por entre as faixas, uma ótima música instrumental funcionando como uma linda pausa do vocal do Tavares retomado logo em seguida em mais uma das faixas bem pessoais, a temática latina principalmente Uruguaia e Argentina entre as criações, um pouco de experimentalismos com algumas distorções e batidas eletrônicas em “O Que Não Vem”, etc.

Me Sinto Humano” tem um pouco do rockabilly  na essência de sua introdução e batida, embora possa ser só reminiscência da minha cabeça que associa o Tavares a um ícone tatuado latino americano de cigarro pendente, topete e jaqueta de couro, logo, um rockabilly com tango e acordeom – o que nem é tão improvável assim.

Considero o Tavares um dos compositores e intérpretes mais dignos de uns tempos para cá, lógico que todo o estigma criado em torno da Fresno, banda que o lançara a nível nacional, faz com que se criem indevidos muros de preconceitos com a música que o cara cria. Não considero a Fresno nem a pior ou a melhor banda do mundo, mas respeito à história da banda e o que eles foram capazes de criar – e é só repararmos o repertório, sonoridade e conceito criado por Tavares em seus álbuns que vemos que existem muitas coisas infundadas nessa chateação de ter de odiar tudo de cara. Saca La Muerte de Tu Vida se apresenta, para mim, como um dos mais coerentes registros nacionais desse ano: um punhado de morte em sua melhor concepção dentro de vidas (e álbuns) um tanto vazios.





Tracklist:
01. Janeiro
02. Pra ser
03. Chacarera da Saudade
04. Cigarros e Capitais
05. Tango Novo (Nada Impede a Onda de Passar)
06. As Terças Podem Se Inverter
07. Martes
08. O Que Não Vem
09. Me sinto humano
10. Se
11. Carta aos desinteressados
12. Maria
13. Chacarera 2 (Feat. Pirisca Grecco)


Ouça: Spotify

segunda-feira, 2 de março de 2015
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Sia - 1000 Forms Of Fear

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Gênero: Dance Pop / Pop / Rock / Jazz 
País: USA
Ano: 2014

Comentário: Reconheço que não conhecia muito da Sia até me encontrar com “1000 Forms Of Fear” e me encantar com o álbum e a artista pro detrás da criação. Mesmo já sendo uma artista que faz parte há algum tempo da cena pop estadunidense, Sia atuava mais como compositora para diversas artistas já aclamadas pelo público e crítica, participando até do último álbum da Beyoncé, na faixa “Pretty Hurts”. Ah, ela é a voz por detrás de “Titanium” do David Guetta.

Bem, como já demorei tempo demais para voltar com as resenhas não vamos nos alongar demais por aqui, vamos ao que importa. “Chandelier” abre o álbum com um dance pop ao estilo Sia. A faixa também foi, muito bem escolhida, aliás, para ser o primeiro single do álbum. Um vocal forte, um apelo dançante, um clipe inovador e estava criado um burburinho por detrás da figura da Sia. A música conta também com uma letra de certa forma grudenta, mas não enjoativa e muito bem inserida na estética do álbum, fazendo um par excelente com a faixa seguinte, até, “Big Grils Cry”, música crescente que explode no refrão e retorna ao estilo balada já explorado pelo pop, embora aqui vemos um controle do vocal que transmite muito bem o ideal do álbum.

Sou suspeito para falar da Sia. A forma que ela achou para divulgar seu álbum sem ser ela a personificação do mesmo me faz refletir demais sobre propriedade artística. É inegável que vem dela todo o processo criativo e esforço em trazer o “100 Forms Of Fear” à tona, mas o rosto que carregam o álbum não é o dela. Aliás, o que carrega o álbum é um corte de cabelo: o loiro e curto blondie bob, presente na apresentação de Lena Dunham (roteirista da ótima série “Girls”) no Late Night with Seth Meyers ou no próprio incrível clipe de “Chandelier” com a Maddie Ziegler, participante do Dance Moms.

Saindo da melancólia “Eye Of The Needle” caímos na animação de “Hostage”, que conta com a presença de algumas referências a um rock mais clássico. A faixa seguinte “Straight For The Knife” remete-me a um ar criado pela Lana Del Rey em seus álbuns, mas ainda assim não deixa de ser autoral, mesma que as comparações funcionem – é uma faixa lenta que carrega algo do dream pop orgulhosamente levantado pela Lana, mas que na sequência artística de “1000 Forms Of Fear” funciona muito bem.

“Free The Animal” é um sufocante grito de liberdade. É contagiante, extremamente sonora para o álbum, visceral, até. É sobre amores ferozes que decapitam e libertam – é sobre matar alguém com o seu amor e morrer por ele, se preciso ver, é mais uma das mil formas do medo; da fera que a Sia não faz questão nenhuma de exorcizar.

Quero me remeter por último a “Elastic Heart”, segundo single do álbum. Antes de tudo – tirem um tempo da vida de vocês para apertarem o play no vídeo dessa singela resenha e tirarem suas conclusões sobre o que a Sia é capaz de criar não só como compositora e cantora, mas, principalmente como artista. Até agora, para mim é a junção perfeita do ano de áudio e visual para a criação de uma imagética musical. A já citada Maddie e o Shia Labeouf (acho que ele dispensa apresentações, mas é o menino do “Transformers” que cresceu e virou o carinha de “Ninfomaníaca”) dançam a música em um balé contemporâneo que carrega os versos da canção em cada passo. O clipe resume a música, perfeitamente, assim como a música resume o álbum, é o ápice das mil formas de uma fera, de uma estética, do quanto um álbum pode machucar, curar e emocionar.

Sia não nos apresenta a sua figura nesse álbum, mas sim ao seu coração elástico e sua lâmina afiada – ela pode nos machucar e ser machucada, para ela não importa, tanto faz causar medo ou sentir medo. A nós cabe somente esperar se ela será a bela ou as nossas próprias feras. A forma ideal do medo somos nós que escolhemos.


Tracklist:
01. Chandelier
02. Big Girls Cry
03. Burn the Pages
04. Eye of the Needle
05. Hostage
06. Straight for the Knife
07. Fair Game
08. Elastic Heart
09. Free the Animal
10. Fire Meet Gasoline
11. Cellophane
12. Dressed in Black

Ouça: Spotify

terça-feira, 30 de dezembro de 2014
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Os Melhores Discos de 2014 por Lucas

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Não posso dizer que ouvi muitos álbuns lançados esse ano, ouvi, no máximo, alguns, assim, meio sem saber o quanto ouviu e porque ouviu.  Só ouvi. E alguns desses álbuns vem preencher esse top. Ele foi totalmente moldado no meu juízo de valor (ou seja: acho tudo muito bom - e isso não necessariamente quer dizer,  que você, que está lendo, ache) e também que eles sejam necessariamente os melhores quinze álbuns do ano: porém, para mim foram. Resumindo: minha lista é totalmente subjetiva, alguns ouvi mais, outro menos, uns ouvi assim que lançaram, outros ouvi meses depois, uma semana atrás. Não importa. Estão aqui "Os Melhores Discos de 2014 por Lucas" (eu queria ter colocado um título legal e sem sentido, mas antes de qualquer coisa devemos obedecer um padrão, verdade)
quarta-feira, 10 de dezembro de 2014
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Damien Rice - My Favourite Faded Fantasy

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Gênero: Folk
País: EUA / Canadá
Ano: 2014

Comentário:  Eu já ouvi tantas vezes esse álbum desde que o mesmo fora lançado – incontáveis, acho, mas mesmo assim não me sinto preparado para resenhá-lo e acho que eu nunca estarei, tendo em vista o que esse álbum representa para mim: oito anos de espera. Malditos oito anos esperando oito músicas. Uma por ano. Chega a ser cruel.

O álbum começa na natural letargia do Damien Rice na música título “My Favourite Faded Fantasy”: aquele vocal sonolento e arrastado, que já aos 1:15 de música torna-se repetitivo propositalmente, como se nos preparasse para a sua subida, que não vem tão cedo, só chega quando chega os metais, como se estivessem em perfeita harmonia. O intrigante é que eu adquiri uma espécia de obsessão por essa faixa, talvez seja essa a intenção do Damien, se nos colocar em sua fantasia inebriante, etérea e desbotada – sua fantasia favorita.

A letra dela, em especial, me cativa deveras. O “it all could be” em espécie de anáfora funcionam muito para essa construção simbólica que ele pretende imprimir em seu álbum. Vemos verdadeiramente na faixa o quanto o Damien pode ser contido, obsessivo e explosivo, vemos isso em suas nuances vocais, instrumentais e letra. “My Favourite Faded Fantasy” reúne o melhor do que o Damien fez em sua carreira em uma faixa tão emblemática, só para exemplificar posso citar aqui “Accidental Babies”, “Cold Water” e “Cheers Darlin'”, músicas que vão, de uma maneira ou de outra, ao encontro da que inaugura esse novo registro.

"It Takes A Lot To Know A Man" é de longe, uma das melhores do álbum. É uma faixa de 9min32seg com um instrumental incrível. O vocal do Damien aqui se revela bastante soturno a partir dos quatro minutos de faixa, quando o ritmo da música dá uma quebrada. Eu particularmente vejo esse recurso vindo reforçar essa soturnidade dessa fantasia mortiça que ele nos apresenta e nos brinda, em especial nessas duas primeiras faixas – a primeira funcionando, como já dito, como uma espécie de dualismos bastante visíveis, para mim, e essa dialogando com o lado mais sombrio e triste que ele poderia oferecer. Para finalizar: as cordas apresentadas no fim da canção vem anunciar a angústia que flerta com toda a letra, mas que anteriormente não tinham ficado em evidência.

O álbum em si torna-se repetitivo, se comparado aos anteriores. A diferença de “My Favourite Faded Fantasy” para os seus anteriores está nos detalhes – as letras menos esperançosas, como em “Colour Me In”, uma decadência mais perceptível, as cordas mais marcadas e mais lentas, ocupando espaços em branco, deixados pelo vocal e também harmonizando bastante com ele, como em “The Box”, violão um tanto quanto rebelde para a faixa e violinos suaves, uma das faixas mais angustiantes e crescentes do álbum: para mim uma das melhores.

"The Greatest Bastard" vem com um vocal bem delicado e quase falado do Damien sobre o quão canalha ele se fez perante um amor que não o quer – ou não pode – o esquecer. Em “We learn that lovers love to sing / And that losers love to cling / Didn't we?” ele consegue resumir a narrativa da música, por assim dizer. Repensando a faixa anterior, “The Greatest Bastard” parece respondê-la, ou tentar. Tentar colocar mais indagações, seria o certo, sobre como compreender o amor de um homem e de uma mulher e o que ambos podem fazer com esse poder tão destrutivo em mãos.

O álbum encerra-se com “Long Long Way”, faixa que começa bastante onírica bastante do tempo em seus seis minutos. Bem, não terei um parecer definitivo, de fato do álbum, creio que o Damien sempre foi capaz de colocar-se através de várias camadas de suas letras e sua sonoridade – até em suas músicas mais óbvias, como “Cheers Darlin” notamos histórias permeadas por histórias. Contudo, não sei julgar de fato o que esse álbum me passa – sei que gosto, até pela repetição do que esperar do Damien e das pequenas inconstâncias dessa fantasia que, aparentemente, desbotou. Vale o esforço de ouvir por álbum com ouvidos além da melancolia – para alguns até forçada – que ele traz.



Tracklist:

01. My Favourite Faded Fantasy
02. It Takes a Lot to Know a Man
03. The Greatest Bastard
04. I Don't Want to Change You
05. Colour Me In
06. The Box
07. Trusty and True
08. Long Long Way

Ouça:

sábado, 11 de outubro de 2014
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You+Me - Rose Ave

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Gênero: Acoustic / Folk
País: EUA
Ano: 20014

Comentário:  O que falar desse álbum que baixei há poucas horas e já considero pacas? Antes de tudo. Estou de volta pessoal, ainda permaneço aqui firme e forte, seguindo sem tempo, porém, deixando de estudar (o que não é grande mérito, mas vá lá) para permanecer aqui postando pra vocês. Então, oi.

Pois bem, vamos aos fatos. O Dallas Green (o cara do City And Colour, que teve seu álbum, Little Hell, muito bem resenhado aqui). lançou um novo álbum. Então, regresso a caminhos já percorridos trazendo novamente o Green para o blog – em uma linda, suave e melódica parceria com a Pink nesse registro.

Atentando-me a detalhes, vamos primeiro a voz da Pink, já citando o ótimo duo que ambos fazem em “Love Gone Wrong”. É de se espantar, até, que uma artista comercialmente conhecida pelas suas performances explosivas consiga, aqui, se metamorfosear em uma delicadeza absurda, em uma melancolia que me parece ser intrínseca ao Dallas Green e que consegue a contagiá-la. A faixa, em sua maioria é voz e violão, no refrão somente que ganha uma percussão bem pontual, mas que fica por detrás dos níveis das cordas bem ritmadas.

Em “From A Closet in Norway (Oslo Blues)” vemos também essa suavidade que vivera escondida na Pink. O vocal do Green nessa faixa funciona como um complemento ideal para que ela se sobressaia – e quando os dois cantam juntos, conseguem transmitir toda essa nostalgia/melancolia/adjetivo triste que o Green me passa nesses seus últimos projetos. De chorar, quase isso.

Capsized”, primeira faixa do álbum, inicia o mesmo em um ritmo menos letárgico do que o resto do registro, trazendo elementos do country e deixando a extensão vocal da Pink se sobressair. Uma percussão bastante marcada inicia a faixa, junto com o vocal do Dallas Green em toda sua potência, seguida pela da Pink, de longe, uma das melhores faixas do álbum.

Bem, bem, única ressalva aqui: em uma “única ouvida” o álbum parece-me pouco variável e repetitivo, mas apresenta coesão entre as faixas e as transições das mesmas. É um álbum que, surpreendentemente, me agradou a ponto de me impulsionar a escrever essa resenha. E surpresa: a união de Dallas Green e Pink (Alecia Moore, de nascença) gerou um ótimo rebento, fazendo-me esperar, ansioso, novos trabalhos dessa parceria.

[Site]


Tracklist:
01. Capsized
02. From a Closet In Norway (Oslo Blues)
03. Gently
04. Love Gone Wrong
05. You and Me
06. Unbeliever
07. Second Guess
08. Break the Cycle
09. Open Door
10.No Ordinary Love

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domingo, 24 de agosto de 2014
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Juçara Marçal e Kiko Dinucci - Padê

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Gênero: MPB / Macumba
País: Brasil
Ano: 2008

Comentário:  Ultimamente, aqui no blog, tenho tentado postar algo que vá de encontro com músicas mais tradicionais, de raiz, que tenham uma ligação com uma certa resistência dentro de determinada cultura. Pois bem, creio que dentro dessa minha visão, “Padê”, se insere como um registro nacional que vai de encontro a esse pensamento.

“Padê”, álbum da Juçara Marçal e do Kiko Dinucci, ambos integrantes do Metá Metá, tem seu significado em uma comida ou oferenda oferecida nos rituais de candomblé para os exus e pombogiras, ou seja, desde o seu título o álbum se oferece como um registro espiritual nas bases das religiões africanas em solo brasileiro – sendo a umbanda uma religião desenvolvida aqui no Brasil e surgida até muito próxima de um local onde eu estudara.


Não sei se preciso me fiar a apresentar faixa por faixa do álbum, mas creio que uma visão geral também funcione. O álbum tem suas raízes no candomblé, logo, no samba de raiz, bem marcado, desses feitos ainda no tempo da escravidão. Nota-se nas letras e nas batidas toda uma preocupação em trazer esse contexto, de fato. Com a maioria de suas faixas sendo originais, o álbum percorre um caminho muito bem elaborado, flertando com o samba e tradições negras advindos de diversas regiões do Brasil, logicamente com o fundo lindamente explorado da macumba brasileira, e sim, para mim macumba é um gênero musical que o Brasil deveria aprender a respeitar deveras, já que dele desdobra-se um solo gigantesco para o cenário musical contemporâneo, até.


Falando um pouco das faixas, vemos diferenças nas sonoridades, nuances, ritmos mais agressivos, presente em “Engasga Gato / Casa Barata” e outrora sonoridades bem mais ritmadas, como a segunda faixa do álbum “São Jorge”, com um tambor tipicamente de macumba – aliás esses tambores são recorrentes no álbum inteiro e “Machado de Xangô”, música em referência ao Senhor das Pedreiras, Deus da Justiça. Aliás, podemos ver no álbum também, uma espécie de referência a uma Cosmologia tão bela e tão rica, que eu pelo menos, não consigo não me espantar com os mitos e ritos advindos da África.


Aliás, como já dito, também vemos no álbum inúmeras referências ao sincretismo religioso umbandista, na própria faixa em reverência a Xangô vimos claramente essa tendência religiosa criada no tempo da escravidão e que perdura até hoje. A interseção do catolicismo com a umbanda é algo que perpassa gerações e ensinada até hoje na religião. No caso aqui, Xangô é São João Batista. (aliás os minutos finais dessa faixa são incríveis, ela vai de uma batida ritmada a um tambor pesado e rápido, ritmado e catártico, incrível, incrível e incrível!)


Bem, com tudo já exposto só quero deixar registrado a linda e suave voz da Juçara, que nos momentos em que precisa cresce e se sobressai. Outra questão para ser anunciada aqui, as cordas, quando aparecem em primeiro plano como em “Batuque para Ney”, se fazem muito boas, perfeitamente unidas a estética do álbum. Pois bem, pois bem, não tenho muito mais do que discorrer sobre esse incrível registro, só que por toda essa energia e vitalidade que o álbum carrega, só por isso, já deveria ser ouvido, sem entrar em méritos culturais aqui, o álbum pelo álbum, até quem não se interessa pela estética/sonoridade da macumba deveria tentar apreciar “Padê”, é uma verdadeira ode ao Brasil, de fato.




Tracklist:
01. Padê
02. São Jorge
03. Machado de Xangô
04. Atotô
05. Jatobá
06. Cabocla Jurema
07. Mar de Lágrimas
08. Engasga Gato / Casa Barata
09. Samba Estranho
10. Velha Morena
11. Imitação
12. Batuque Para Ney
13. Bate Baú / Corujá Batuqueira
14. Roda De Samba

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sábado, 9 de agosto de 2014
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Brown Bird - Fits Of Reason

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Gênero: Folk / Indie Rock / Gypsy Music
País: EUA
Ano: 2013

Comentário: Se pudesse eu resumir o "Fits Of Reason" álbum de MorganEve Swain e Dave Lamb, que na época formavam o Brown Bird teria que recorrer a teorias de filosofia da linguagem advindas de Wittgenstein, mas ficarei mesmo com o adjetivo idiossincrático, resume bem esse trabalho.

Esse álbum, ao que tudo indica, é o último sopro do trabalho de Dave Lamb, morto por conta de uma leucemia no dia cinco de abril desse ano, morte bastante lamentável, já que assim que ouvi o trabalho do Lamb em "Fits Of Reason" e li um pouco do que o cara fazia passei a admirar consideravelmente o Brown Bird.

Sem longos rodeios, vamos ao álbum: como já disse idiossincrático ao extremo. A banda apresenta as cordas bem marcadas da Morgan em várias canções, vale citar aqui a introdução de "Barren Lakes". Aliás ao lado de Lamb no Brown Bird, Morgan, cujo principal instrumento é o violino, expandiu-se para tocar violoncelo, contrabaixo, viola e baixo elétrico. Tudo isso para seguir o propósito da banda - explorar e extrapolar limites de gêneros musicais. Por conta disso que se vê tantas referências na sonoridade do álbum: ritmo advindo do Médio Oriente, Psych-rock dos anos 60 e 70, pós-metal, música cigana, música latina  e por esse trilho segue. Por conta dessas referências todas é difícil ver associação do duo com o típico folk americano, mas a presença estadunidense está lá sim, mas escondida por detrás de cordas e tambores do oriente médio e da música cigana, pode ser citada aqui "Bow for Blade", que me parece, de fato, com um bom folk americano - e esse cantado pela Morgan.

Algo que marca bastante o grupo é a forma que eles aparentam ser mais do que um duo, isso porque o Lamb além de cantar também toca percussão com os pés - o que é uma grande vantagem e ganho na sonoridade complexa e misturada da banda, além de que o vocal dele é muito bem encaixado em todos os ritmos que os dão subsídio; a voz dele molda-se sem esforço a cada um desses gêneros que apresentam.

Ultimamente é um dos álbuns que eu tenho ouvido bastante e sem me cansar porque a cada novo play você não sabe o que o espera, as referências são inúmeras - tal qual a capa do álbum. Pois bem, no encaixe da razão, o pássaro marrom soube como manter suas asas bem fortes para voar por todo um universo musical e apresentar, coerentemente, um álbum inovador, marcante e intrigante. Vida longa a idiossincrasia wittgensteiniana em forma de música!



Tracklist:
01. Seven Hells
02. Nine Eyes
03. Bow For Blade
04. Barren Lakes
05. The Messenger
06. Iblis
07. Wayward Daughter
08. Hitchens
09. Abednego
10. Threads Of Measure
11. Caves

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sexta-feira, 25 de julho de 2014
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Alice Caymmi – Alice Caymmi

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Gênero: MPB / Experimental
País: Brasil
Ano: 2012

Comentário: Já começo essa resenha dizendo que talvez, só talvez, eu não me sinta totalmente preparado para escrever sobre esse álbum. Alice Caymmi, de vinte e dois anos quando lançou esse seu debut que recebe o mesmo nome que carrega. E bem, eu só consigo pensar se esse nome fora uma benção ou um agouro na carreira da Alice – e confesso, ainda não sei.

Alice mergulha também no mar. Logo na primeira faixa “Água Marinha”, vemos que a influência do grande tema inspirador de seu avô, Dorival, se faz presente. Talvez seja uma boa herança de família ou um fardo que ela tenha de carregar. Mas Alice não se deixa naufragar em uma maré herdada – ela vai além e recebe do trabalho deveras experimental da Björk a verdadeira fonte de seu trabalho e em “Água Marinha” percebemos flertes com essa sonoridade: vocais serenos e batidas eletrônicas bastante oscilantes. Não se pode dizer que a carioca não faz para merecer o título de uma cantora, de fato, ela não pretende se colocar como uma espécia de continuadora dos trabalhos de sua família, por mais que acabe sendo, mas não vejo essa intencionalidade em seu álbum.

O álbum transcorre em um caminho próprio, enquanto as faixas complementam-se mutuamente mostram-se também um trajeto próprio e em si mesmas. Consta uma versão de "Sargaço Mar", de seu avô, versão essa bastante autoral e com um clima de melancolia contida, de mar pós-ressaca; interpretação bastante própria, assim como a décima e última faixa do álbum, "Ulravel", originalmente presente no álbum Homogenic, da já citada Björk. O “experimental” presente na classificação desse álbum explicarei agora: ouvindo mais de uma vez as faixas do álbum, como a já citada “Água Marinha” e “Revés”, para ainda permanecermos na primeira metade do álbum parecem-me distantes dessa safra da nova MPB, mesmo que diversos sites especializados, blogs e etc queiram colocá-la entre Karina Buhr e Tulipa Ruiz não vejo tal associação direta (embora eu não posse me dizer assíduo ouvinte de ambas) vejo em Alice um grau de melancolia e pessoalidade em várias sequências da sua estreia

A voz andrógina de Alice para alguns pode até ser outro obstáculo a ser transposto nesse navegar, mas para mim pareceram águas de duro acesso, mas acessíveis, de imediato há estranhamento e até certa dureza, mas aos poucos há o desvelamento da delicadeza, do belo em seus vocais e olha, quando essa revelação é feita o álbum se torna um registro que mescla docilidade, virilidade, brutalidade e sensibilidade e "Rompante" resume muito bem isso e que aliás, também pode ser usada para exemplificar a segunda metade do álbum, excetuando "Tudo Que For Leve", que deságua na mesma onda que a primeira metade do homônimo álbum.

Pois bem, o debut da Alice é tão revelador quanto misterioso, parece-me que ela trabalha em um chiaroscuro tal qual presente em telas barrocas: revela-se de um lado para esconder-se em outro, um jogo muito bom e instigante, um belo registro de uma voz diversificada e inovadora: um mergulhar extasiado em águas que só revelam o que não se espera ver.

[Site / Facebook]


Tracklist:
01. Água Marinha
02. Arco Da Aliança
03. Mater Continua
04. Revés
05. Sangue, Água E Sal
06. Rompante
07. Vento Forte
08. Sargaço Mar
09. Tudo Que For Leve
10. Unravel

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segunda-feira, 14 de julho de 2014
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Frida – Original Motion Picture Soundtrack

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Gênero: Folk / Mariachi / Tango / Música Tradicional Mexicana
País: Estador Unidos
Ano: 2002

Comentário: Dia desses finalmente tomei vergonha na cara e vi a cinebiografia da Frida Kahlo, uma das maiores pintoras mexicanas, que apresenta em seus trabalhos uma estética totalmente inovadora, sofrida, decidida, autêntica, transgressora e delicada. Não tenho eu palavras para descrever o quanto a obra dela me toca, do quanto eu vejo e não tento compreender o que está ali, porque é um erro tentar ler um artista dessa maneira. Mesmo que por mais que me falem que não se deve julgar a tela pela história de vida daquela assinatura é inegável que com a Frida essa regra se torna exceção. Ela se pintou em seus quadros, criou uma vida com aquelas telas – criou a vida dela. E novamente repito, acho que tudo que eu falar aqui sobre os quadros dela vai ser pouco, eu nunca vou conseguir descrever o quanto sou realmente grato por um dia ter encontrado com o trabalho dela.

Enfim, quadros a parte, vamos ao filme. A atuação de Salma Hayek é impecável como Frida e o que faz moldura para a maravilhosa atuação dela, além de seu fascínio pelo trabalho da Kahlo, é a trilha sonora. Composta basicamente por Elliot Gondenthal, compositor norte-americano que já trabalhara em filmes como “Entrevista com o Vampiro” (por sinal as trilhas sonoras dos filmes são bastante diferentes), a trilha de Frida é bastante tradicional, sem contar com pop/rock tipicamente presentes nas trilhas de Holywood, já que o filme é ambientado na faixa de tempo entre as décadas de 20-50 as músicas também podem ser ambientadas entre essas décadas. Quase todas cantadas em espanhol, menos a última faixa que consta com os vocais de Caetano Veloso cantando em inglês.

Meu intuito ao apresentar essa resenha aqui é dar continuidade ao que venho postando aqui no blog, algo que converse com a música tradicional/folclórica; de raiz, de cada nicho cultural. Queria mesmo apresentar algo que conservasse o espírito das veias abertas da América Latina, que fosse relevante e que tivesse deixado uma marca na história das Américas. Frida foi uma dessas marcas – e toda essa trilha sonora é o background, e também porque não artista principal, para que o sangue latino continue a circular por entre as veias desse continente.

Pois bem, as faixas instrumentais recorrem bastante aos típicos violões mexicanos e suas nuances. “The Floating Bed” e “Self-Portrait with Hair Down” são duas que podemos exemplificar: a primeira caminha pelo lado mais mariachi e empolgante da trilha, com cordas rápidas e agitadas, a segunda tem certo flerte com o tango, faixa importante para o filme, no momento em que Frida se separa de Diego, corta seus cabelos e traveste-se de homem, fazendo tudo isso para desagradá-lo, a faixa é bem densa, mas apresenta também nuances, mesmo tendo somente pouco mais de um minuto.

Aqui “Portrait of Lupe” merece algum destaque tanto pela sua importância no filme quanto para a trilha. Lupe fora a primeira esposa de Diego e diversas vezes ria-se da cara de Frida por ela ter casado com um homem que nunca seria verdadeiramente dela. Na faixa vemos as nuances das relações das duas, a calmaria inicial ao conhecerem, a agressividade de Lupe no casamento de Frida e Diego e a cumplicidade de ambas depois de algum tempo: consigo dentro da canção enxergar todos esses caminhos percorridos por ambas.

Das faixas em que se encontram a presença de vocais, muitos deles muito bem cantados pela Lila Downs e pela Chavelas Vargas destacarei algumas faixas. As duas versões de “La Llorona” são fantásticas, a interpretada pela Chavela Vargas é fodidamente (desculpem pelo palavrão) doída. A voz, a sonoridade, a letra e a cena em que ela é inserida são o palco ideal para a canção, sem mais (aliás a Chavelas deve aparecer por aqui logo menos ou logo mais). A por Lila Downs é entoada como um verdadeiro canto mariachi, mas em potência vocal ela não fica por trás, mas a interpretação e arranjo da Chavelas é assustadoramente emocionante, gritada, visceral – e é esse exagero e essa dualidade das duas faixas que me encantam na música latina.

Essa visceralidade latina também encontramos em “Paloma Negra”, merece ser ouvida, o urro da Chavelas nessa faixa é uma das coisas mais belas desse álbum, vale o play! A faixa que a própria Salma Hayek interpreta “La Bruja” também caminha pelos lados do visceral mexicano/latino, cordas rápidas e vocal tão rápido quanto, nessa faixa vemos toda a entrega de Salma ao papel de Frida, mais uma que vale o play.

A faixa que encerra o álbum “Burn it Blue” é um dueto de Caetano Veloso e Lila Downs, dueto esse presente nos créditos finais do filme e a única faixa que consta com um vocal em inglês, como já dito. A Lila aqui mostra realmente seu potencial que se entrelaça muito bem com a calmaria que o Caetano apresenta na música – é realmente uma música muito boa, rendendo até apresentações em premiações, tendo em vista que essa trilha sonora fora premiada com um Oscar.

Pois bem, acho que o álbum em si resume bem o tom do filme da Frida, que as vezes escorrega, mas em sua trilha é magistral. Ponto para o Elliot Gondenthal, que conseguiu trazer o ar de latinidade necessário para o meio estadunidense que caricatura negativamente uma cultura tão rica quanto a da América Latina.


Tracklist:
01. Benediction and Dream
02. The Floating Bed
03. El Conejo
04. Paloma Negra
05. Self-Portrait With Hair Down
06. Alcoba Azul
07. Carabina 30/30
08. Solo Tú
09. El Gusto - Performed by Trio Huasteco Caimanes de Tamuin
10. The Journey
11. El Antifaz
12. The Suicide of Dorothy Hale
13. La Calavera
14. La Bruja
15. Portrait of Lupe
16. La Llorona
17. Estrella Oscura
18. Still Life
19. Viva la Vida
20. The Departure
21. Coyoacán and Variations
22. La Llorona
23. Burning Bed
24. Burn It Blue

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quinta-feira, 3 de julho de 2014
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Josh Ritter – The Animal Years

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Gênero: Folk / Country / Rock
País: Estados Unidos
Ano: 2006

Comentário: "The Animal Years", do Josh Ritter, cantor e compositor estadunidense nascido em Idaho, um dos 50 estados localizados na Região dos Estados das Montanhas Rochosas, chega a mim meio que para preencher uma necessidade recente de ouvir, com empolgação de devorar, até, mais e mais do folk/country feito recentemente nos Estados Unidos.

Interpreto aqui essa necessidade como cultural, já que me sinto cada vez mais ligado com esse pedaço tão tradicional e dúbio de um país tão autocentrado que cada vez mais exporta uma música e mais profundo ainda, uma visão artística e cultural de si mesmo que não condiz muito com esse som tradicional que vai se adaptando para poder agradar e se fazer ainda presente. Não tenho nada contra essa adaptação de um pedaço tao rico de um país para que ela ainda exista, acho até importante. Anteriormente apresentei aqui o Carolina Chocolate Drops, banda a qual mantêm acessa uma tradição outrora esquecida e incorpora essa sonoridade em canções contemporâneas, até E de certa forma o Josh ainda faz isso, mas flertando com o contemporâneo de uma forma diferenciada: inserindo elementos novos em sua tradição – mudando um pouco a roupagem para ainda se fazer presente.

"Girl in The War" abre o álbum com umas cordas bastante tradicionais e a voz do Josh segue ao estilo dos gêneros, é suave, mas marca, se faz muito bem ouvida. Mesmo vendo elementos tradicionais dos gêneros que Ritter carrega julgo que a faixa está no álbum mais para "quebrar o gelo" e poder, de fato, introduzir o melhor do estilo do cara, que vejo estar presente aqui em "Lilian, Egypt". Cordas rápidas, batida corrida, voz um bocado mais estridente, um ar country permeando tudo e taqueparel, uma vibe muito da boa. Tradicionalzão, mas de certa forma reinventado, com algo de rebelde e descompromissado na sonoridade. Pra mim, de longe, uma das melhores do álbum.

Na faixa anterior, “Monster Ballads”, vínhamos uma balada tipicamente country. Um ritmo lento e uma batida bem ritmada, com umas cordas elevando-se aos poucos, boa faixa, mas nada de tão inovadora perto de “Lilian, Egypt”. Aliás, essas duas faixas já citadas, mais a seguinte “Idaho” compõe muito bem a melhor passagem do álbum. “Idaho” é composta, basicamente somente com a voz do Ritter, voz essa que mostra toda sua potência e diferenciação, toda sua entrega ao cantar sobre o seu estado, ouvimos somente bem de relance o que provavelmente parece ser um violão solitário seguindo os passos do Ritter em uma canção com uma letra tão bonita e tão entregue quanto a interpretação. A faixa tem um tom low-fi, parece meio experimental, uma puta duma faixa pra um álbum que, inicialmente, se mostra tão “certinho”.

“In The Dark” coloca o álbum de volta aos seus eixos com mais uma baladinha, calma e tranquila, na medida certa, não é excepcional não. “One More Mouth” volta ao experimentalismo, com uma distorção na voz do Ritter, mas novamente aqui temos uma calmaria, mas confesso que me entreguei pra essa faixa de tão bonitinha que ela é, tão delicada, mas inovadora dentro do contexto do álbum.

O álbum ganha um tom mais sombrio em “Thin Blue Flame”, que ameaça até a começar como as outras faixas, mas no meio já ganha um vocal quase falado e um piano bastante do agressivo, que aos poucos vai crescendo junto com a batida e o vocal se tornando cada vez mais rápido e mais cuspido. E essa faixa é foda, tem um tom meio maligno e sombrio que descombina com o álbum, mas depois retorna ao que era, com uma letra tão densa quanto a canção. Sério, ouçam, a faixa deveria ser a escolhida para encerrar o álbum de tão arrebatadora, se encaixaria muito melhor do que “Here At The Rigth Time”




Tracklist:
01. Girl in the War
02. Wolves
03. Monster Ballads
04. Lillian, Egypt
05. Idaho
06. In the Dark
07. One More Mouth
08. Good Man
09. Best for the Best
10. Thin Blue Flame
11. Here at the Right Time

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quarta-feira, 18 de junho de 2014
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Jesper Munk – For In My Way It Lies

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Gênero: Indie Rock / Blues / Soul / Folk
País: Alemanha
Ano: 2013

Comentário: Graças ao Spotify (muitos obrigados a chegada desse aplicativo no Brasil, aliás) que conheci o Jesper Munk. Garoto nascido em 92, de Munique, na Alemanha, que apesar da pouca idade, já demonstra uma maturidade imensa em suas composições e sonoridade.

Logo em “Hungry For Love”, já vemos a raiz indie rock do álbum vir a tona. Uma guitarra muito bem marcada, o vocal semi-rasgado de Munk, um típico tom de rebeldia e descontrole na proporção certa e uma letra, de certa forma, visceralmente animalesca; fome de amor, por amor – uma boa letra em uma sonoridade quase agressiva, uma aglutinação perfeita para o estilo de Munk.

O garoto recorre muito ao blues também, só para exemplificar, citarei aqui, “Lady River Song”. Se na faixa anterior Jesper demonstra toda sua agressividade, nessa vemos uma entrega total da extensão de sua voz em comunhão com um puta instrumental. Fazendo coro com “Lady River Song” temos “Drunk on You”, de certa forma assemelha-se a uma baladinha com reminiscências de blues/folk (tal qual “You Won't See Me Go”, mesmo que essa carregue algo mais swingado.) e “Blue Shadows”, última faixa do álbum, na sequência de “Lady River Song” que se utiliza muito bem da guitarra, baixo e vocal, uma tríade de quase suprema excelência para encerrar o álbum.

Uma curiosidade sobre o “For in My Way It Lies”, o título do álbum fora retirado da primeira cena do terceiro ato de Macbeth, de Shakespeare, tentei fazer algumas associações do álbum com a tragédia shakespeariana, suas significações e personagens e talvez acha alguma semelhança entre esse amor e poder e o amor ao poder. É que no álbum de Jesper vemos um lado mais velado, um caminho que deve ser percorrido, de mentiras, ilusões e amores, bem não sei, mas fica como devaneio semi-filosófico por aqui.

Voltando ao álbum, ele tem faixas muito boas “Timeless Throne” evoca uma áurea soul para a sonoridade de Munk, enquanto “Blood or Redwine” tem algo de folk rock em sua essência – o álbum é bem heterogêneo, mas todos os ritmos impregnados nas canções conversam muito bem entre si, tornando o trabalho do Jesper Munk bastante diversificado, mas, de certa forma, homogêneo; com continuidade.

A introdução de “John's a Man” é simplesmente fantástica! Uma gaita muito da foda com uma distorção na voz do Jesper e uma guitarra ritmada por trás de tudo, marcando muito bem a faixa – dando uma inovação incrível ao álbum, fazendo-o ir para uma trilha inexplorada e inesperada; faixa muito boa, curta, mas totalmente coerente para flertar com esse universo de experimentações.

Pois bem, é um trabalho muito bom para um garoto tão novo. Ficarei de olho em seus próximos trabalhos, tendo em vista que, já em seu debut Jesper Munk conseguiu me impressionar e me prender vários e vários dias no caminho que escolheu percorrer.




Tracklist:
01. Seventh street
02. Hungry for love
03. The everlasting good
04. You won’t see me go
05. John’s a man
06. I love you
07. Our little boathouse
08. Drunk on you
09. Timeless throne
10. Blood or red wine
11. Lady river song
12. Blue shadows

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sábado, 17 de maio de 2014
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Titãs – Nheengatu

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Gênero: Punk Rock / Rock
País: Brasil
Ano: 2014

Comentário: Faz tempo que estava esperando esse novo álbum dos Titãs. Esse novo álbum seria uma volta ao “Cabeça Dinossauro” (pelo menos foi o que a banda prometeu) e ao bom punk rock que o Titãs sabe fazer também, talvez não com a mesma fórmula, mas sim com a mesma essência desse aclamado álbum. Isso me instigou a procurar informações sobre o décimo quarto álbum da banda e o que esperar dele – a capa me instigou; obre de um holandês sobre a Torre de Babel, para chegar a Deus e originando vários idiomas espalhados pelo mundo e o título, “Nheengatu” foi esclarecedor. Língua criada pelos jesuítas para unificar a linguagem indígena assim que chegaram ao Brasil, para mim, estudante de antropologia (daqui a um semestre serei um, de fato, assim espero) o conceito do álbum refletiu totalmente o estágio em que nosso país está vivendo, nas palavras do próprio Titãs – “Uma tentativa de fazer uma foto instantânea do Brasil atual, as duas ideias se contrapõem bem: uma palavra (e uma linguagem) de entendimento para tentar explicar um mundo de desentendimento.”

E com essa atmosfera de espera dei o play na primeira faixa do álbum “Fardado” e não me surpreendi que de fato a promessa estava sendo cumprida! “Fardado” é suja, é pesada, é uma típica música de protesto para abrir o álbum, só por ela já podemos concluir que: “Cabeça Dinossauro” vai voltar!

“Nheengatu”, segue em sua vibe suja, decadente, corrompida e politizada. Em termos de temática, “República dos Bananas” é bem inovadora em sua letra e sua maneira de abordagem, além de ser um pouco mais rápida que as faixas anteriores, remete quase diretamente ao som criado pela banda na época de “Cabeça Dinossauro”, por sinal, a faixa seguinte também carrega o mesmo apelo: “Fala, Renata” - que consta também com uma sonoridade muito própria.

Divagando um pouco, acho que, por estarmos em um ano infestado por tantos protestos e manifestações, esse álbum não poderia sair em outra época! Temos um palco ideal montado para esse Nheengatu, para essa confusão de falas diferentes que querem unificar como una, essa desclassificação das minorias diante dos nossos olhos – dessa minoria que consegue, aos poucos, apoio de uma maioria que percebe que ser minoria não necessariamente o faz marginal e esquecido – as minorias, as outras línguas, os vários discursos, não podem ser tomados como únicos, precisamos da relativização que nos cabe, da decência de ver que todos somos, pasmem, humanos e temos nossos direitos!

Ok, passado o momento divagação, voltemos ao álbum: “Canalha” do Walter Franco, é aqui regravada em um ambiente mais iluminado, talvez uma meia-luz, porque a faixa, como a original, apresenta a soturnidade necessária que a faixa clama – e o trabalho da guitarra na faixa é incrível, carrega com o vocal o nível de dor e descontentamento, aqui na medida, que é pedido. Ótima faixa, compõe muito bem com as canções originais do álbum, complementa, não é um mero cover ao acaso: uma excelente ponte entre “Cadáver Sobre Cadáver” e “Pedofilia”

“Pedofilia”, aliás, é uma das melhores faixas do álbum, para mim. A letra é forte, explícita, contendo os argumentos de um pedófilo em um vocal semi-sussurrado, com o peso da soturnidade da faixa anterior e uma bateria apressada, um vocal rasgado no refrão, um experimentalismo no meio e, putaqueopariu, uma faixa foda – o peso do punk rock que um dia o Titãs representou repousam magistralmente nessa faixa.

“Chegada ao Brasil (Terra À Vista)” segue, em ritmo, o refrão da faixa anterior e acho quem e torno repetitivo se falar da letra, mais uma vez suja e problematizando os nossos próprios esteriótipos nessa brincadeira do descobrimento do Brasil, mais uma vez, uma letra muita boa em uma faixa, sonoramente, tão boa quanto. Nesse ponto do álbum chego até a concordar com a “crítica especializada”: um dos álbuns mais bem tocados e gravados do Titãs, de fato, um de seus melhores álbuns.

Antes de escrever essa resenha fui ver o que já escreveram sobre o álbum e concordo que a principal crítica (positiva, até) a ele é o fato de ninguém esperar que dos Titãs surgisse algo tão criativo e tão remetente a fase essencialmente punk da banda. Sou um fã ferrenho do “Cabeça Dinossauro”, tanto que tenho o LP do mesmo, não existe, em cena nacional, uma banda que sabe falar tão bem da realidade política e social que vivemos – ok, os caras estão ricos e estão falando de pobreza e desgraça, mas o discurso ainda é válido, aliás, mais do que válido. Só para constar na resenha: o vocal final de “Flores Pra Ela” é fantástico, fodamente gritado e machistas de plantão que acham que a vida de uma mulher deve ser regrada pelo seu bem-querer, mandos e desmandos: ouçam essa faixa, por favor.

Como não podia deixar de ser, em um álbum tão controverso, sobram também críticas a instituições religiosas em “Senhor”, de certo ponto, até velado. Em minha humilde opinião: não poderia faltar. Nos tempos modernos a salvação está em qualquer esquina, na mão de qualquer um, fazendo o povo que quer ser salvo entregar o que tem e o que não tem em nome de um senhor que eles nem sabem dizer direito quem é. E são dessas questões tão atuais e controversas que o álbum quer falar, colocar em debate, incitar, verdadeiramente, a chama de um debate.

O álbum encerra com “Baião de Dois” e “Quem São Os Animais?” da mesma maneira que começou: tecendo críticas ao atual sistema de vida que nos são impostos, os preconceitos que de antemão colocam em nós e nos fazem engolir como “pela ordem da família e dos bons costumes”, me desculpem, mas se for desse jeito que vamos respeitar os bons costumes eu prefiro os costumes ruins. Se for pra falar assim prefiro erradicar essa nheengatu unificador de discursos diferentes. Vamos queimar a Torre de Babel – não é preciso chegar ao céu, é preciso saber respeitar as diferenças aqui em terra.




Tracklist:
01. Fardado
02. Mensageiro da Desgraça
03. República dos Bananas
04. Fala, Renata
05. Cadáver Sobre Cadáver
06. Canalha
07. Pedofilia
08. Chegada ao Brasil (Terra à Vista)
09. Eu Me Sinto Bem
10. Flores pra Ela
11. Não Pode
12. Senhor
13. Baião de Dois
14. Quem São os Animais?

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