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sexta-feira, 29 de janeiro de 2016
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Luiz Melodia - Pérola Negra

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Gênero: MPB / Samba /  Avantgarde
País: Brasil
Ano: 1973

Comentário: Do morro São Carlos, Estácio, Rio de Janeiro, nasce um dos maiores nomes da musica brasileira. Luiz Carlos dos Santos, ou Luiz Melodia é um dos nomes de maior peso da MPB. Carioca, guerreiro, poeta, Luiz Melodia enfrentou a dureza do tempo até que sua paixão pela musica e, sobretudo talento, foi finalmente encontrado por ouvidos próprios como os de interpretes na altura de Gal Costa e Maria Bethânia, que gravaram algumas composições do músico pouco tempo antes do lançamento de seu disco de estreia: Pérola Negra.

Filho do músico Osvaldo Melodia, Luiz sempre foi atento à arte e à sonoridade. Frequentava, com seu pai, rodas de samba e fez disso sua escola. Escola que foi completada pelo interesse no blues, soul, rock e outros gêneros musicais que viriam mais tarde a completar a linguagem sonora do artista. Faz-se assim uma das mais importantes obras da Música Popular Brasileira, que é lançada em 1973 e mostra então, mais uma vez com genialidade, a faceta do músico brasileiro de conseguir explorar a diversidade e reformar a identidade.

Pérola Negra, como já disse, carrega consigo uma bagagem enorme de influencias que até então estavam começando a ser finalmente exploradas por músicos brasileiros. Como um disco pós-tropicalista, é de se esperar algo deveras atípico ao já escutado no Brasil, e assim o é. Luiz Melodia soube dar vida à experiência perfeita entre elementos pouco usados no meio do samba e do popular com naturalidade e acuidade.

A poesia de Luiz Melodia é algo que se destaca por si só, há uma magia em suas palavras que encanta e ensina. Estácio, Eu e Você começa o álbum com um sambinha simpaticíssimo guiado à cordas e sopro. Vale quanto pesa com belos dedilhados encanta mais tarde com os metais e swing tão próprios. Estácio, Holly Estácio, gravado por Bethânia outrora, e Abundantemente Morte são aulas de poesia e musicalidade. Pra Aquietar volta ao swing’n’roll genial de Luiz Melodia. Perola Negra, que dá nome ao disco é de novo um festival de metais com uma pitada soul incrivelmente enérgica, e profundidade poética e harmonia estética que marcaram para sempre a MPB. Magrelinha dá ótima continuidade à Pérola Negra, e foi acompanhamento sonoro em uma cena do filme Cidade de Deus, fazendo uma belíssima aparição no cinema. Farrapo Humano e Objeto H levam de novo o disco lá pra cima, com um swing jazzístico distinto. Forro de Janeiro, a ultima faixa é uma menção interessante ao ritmo nordestino.

1973 é um ano incrível na musica brasileira, e esse é talvez o melhor lançamento deste.


Tracklist:
1. Estácio, Eu e Você - 2:16
2. Vale Quanto Pesa - 3:11
3. Estácio, Holly Estácio - 2:30
4. Pra Aquietar - 2:47
5. Abundantemente Morte - 3:28
6. Perola Negra - 2:50
7. Magrelinha - 2:07
8. Farrapo Humano - 3:12
9: Objeto H - 2:25
10. Forró de Janeiro - 3:15

Ouça aquispotify
sábado, 31 de outubro de 2015
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Drops de bacon #15: Sambas estranhos e afro-ruídos: 3 discos/pt.01

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Este é o primeiro de uma sequência de sei-lá-quantos posts que pretendo escrever para apresentar sempre discos que tenham uma forte relação com a cultura e religiões afro, mas que fuja, ou pelo menos não se enquadre totalmente na ampla categoria que é a denominada Música Popular Brasileira (MPB), seja por conter um som muito desconstruído/experimental, por trazer de volta elementos tão rústicos que perderam a simpatia das comunidades brasileiras ao longo dos anos e da modernização, chegando a causar certa estranheza em dias atuais, ou ainda claramente fazer referências a ingredientes religiosos que são postergados ou mesmo discriminados num país onde o próprio negro virou cristão.

Desta forma, pretendo aqui adotar o termo Música Torta Brasileira (MTB), — assim como nosso parceiro Fernando Augusto Lopes em seu texto para o Floga-se — especificamente associado à cultura negra (e ao samba, que com alegria e bom humor chamo de samba torto, estranho, manco, macumbeiro, etc), para designar estas estranhezas que tantos artistas vem produzindo durante décadas de música brasileira. No entanto, não se apeguem tanto a isso. Assim como a MPB pode garantir inúmeras experiências, boas e incômodas, solenes e brutais, a MTB será apenas um tipo de temática, mas não um gênero musical rigoroso.





Juçara Marçal & Cadu Tenório – Anganga
Ano: 2015
Gênero: Afro-noise
Selo: Sinewave / QTV 
Arte: Cadu Tenório
Streaming: BandCamp
Download: SineWave

Uma das grandes surpresas de 2015 foi a união de dois “recentes” grandes nomes da música torta brasileira, cenário esse que fervilha ao nível underground mas que tem chamado atenção mesmo até de alguns grandes portais. Se de um lado Juçara Marçal é endeusada por sua interpretação vocal ímpar, já bastante notável desde a época com as mulheres do Vésper e com o grupo A BARCA, e por uma carreira que vem sendo tomada cada vez mais de samba estranho — principalmente pelas parcerias com Kiko Dinucci e Thiago França —, do outro Cadu Tenório é um respeitável compositor de música perturbadora e desconcertante, obviamente admirado por um nicho específico, mas demonstrando que bebe de várias fontes musicais diferentes e, ao compor, nos ambienta em meio aos cascalhos e ao aço, ao tempo frio e metálico.
Assim como em Sobre A Máquina, VICTIM! ou Ceticências, Anganga soa quebrado e desgraçado, mas com um plus mítico e, de certa forma aterrorizante para ouvidos não acostumados criados num país predominantemente cristão, onde o diferente ainda causa estranheza e mesmo, infelizmente, repulsa. Neste caso porém, é justificável, já que Cadu e Juçara não estão nos entregando uma música de ninar. O disco consiste no atrevimento da dupla em desconstruir e reinterpretar cantos de trabalho, chamados de vissungos, entoados pelos negros nos garimpos em Minas Gerais e cantos do Congado Mineiro, anteriormente recolhidos e transcritos pelo filósofo e linguista mineiro Aires da Mata Machado Filho, em 1920, e interpretados primeiro por Clementina de Jesus, Geraldo Filme e Tia Doca da Portela na obra O Canto dos Escravos, de 1982.
Foto: Divulgação
De acordo com a descrição na Sinewave, “Anganga é a entidade suprema do povo banto (“Anganga Nzambi”). A palavra consta do canto do congado “Grande Anganga Muquixe”, cujos versos indicam reverência àquele cuja “gunga não bambeia”, o mestre, o mais velho. Trata-se de uma expressão que diz respeito à reverência ao passado.”.

O disco ainda conta com duas composições próprias de Cadu Tenório, “Eká” e “Taio”, também com colaboração de Juçara Marçal. O resultado é um afro-noise sufocante, murmurador, agonizante e estranhamente belo que parece implorar por liberdade.

A mixagem e masterização recebem os cuidados de Emygdio Costa (Fábrica, Sobre A Máquina), velho companheiro de Tenório.





Virgínia Rodrigues - Mama Kalunga
Ano: 2015
Gênero: Samba Torto / Samba Macumba
Selo: Independente (Dist. Tratore)
Arte: Cláudio Bispo (escultura) / Sora Maia (foto)
Streaming: Spotify

Mama Kalunga é o quinto disco de Virgínia Rodrigues lançado sete anos após Recomeço, disco de 2008, e, contando com várias participações, destaca-se por sua solenidade ao narrar a presença negra no mundo, e especialmente no Brasil, com músicas que vão de “sambas eruditos” a composições em tons ritualísticos. Tais participações fazem parte da estrutura primordial do disco, pois Virgínia aqui não compõe, “apenas” interpreta — de corpo e alma.
Aliás, é desmerecer o trabalho alheio dizer que os nomes presentes no disco foram “meras” participações. O repertório, a começar por Tiganá Santana (e também produtor ao lado de Sebastian Notini), corresponde a maioria das faixas: “Mama Kalunga”, “Mukongo”, “Mon`ami”, “Yaya Zumba” (com frases pela voz da atriz Ruth de Souza) e “Dembwa (10 de Agosto)”, composições em sua maioria interpretadas nas línguas africanas kikongo e quimbundo por Virgínia e que fazem a frase “sujo de barro e espírito” — de Tiganá, em apresentação do disco — ter total sentido. Seguindo, Paulinho da Viola é evidenciado com “Nos Horizontes do Mundo”, composição de 1978 e que já fora experimentada por cordas vocais feminina com Leila Pinheiro, em 2005. Gilson Nascimento é responsável pela música que abre o disco, “Ao senhor do fogo azul”, dirigida a Nkosi/Ogum — o guerreiro, o lutador, o forjador, o senhor do ferro — orixás de grupos étnicos diferentes, mas mitologicamente semelhantes. Por outro lado, “Vá Cuidar de Sua Vida”, de Geraldo Filme se afasta da mitologia e, de forma racional, nos entrega uma letra provocativa (vale muito ouvir a versão de Itamar Assunção, presente no disco Pretobrás (1998)), travestida de um ritmo razoavelmente bem humorado e com trechos como “Vá cuidar da sua vida. Diz o dito popular. Quem cuida da vida alheia. Da sua não pode cuidar” e "Negro jogando pernada. Negro jogando rasteira. Todo mundo condenava. Uma simples brincadeira. E o negro deixou de tudo. Acreditou na besteira. Hoje só tem gente branca. Na escola de capoeira".
Foto: Sora Maia
O maestro, compositor e arranjador Abigail Moura, criador da Orquestra Afro-Brasileira, apresenta em “Babalaô / Amor de Escravo” uma canção leve, compassada e bela. As duplas Roberto Mendes e Nizaldo Costa, com “Teus Olhos em Mim”, e Moacir Santos e Nei Lopes, com “Sou Eu” (e participação de Tiganá Santa), além de “Luandê”, de Ederaldo Gentil (do disco Pequenino (1976)), trazem romantismo a Mama Kalunga ao mesmo tempo em que mantêm a estética afro que o disco se propôs desde o início. Por fim, “Cântico Tradicional Afrocubano / Belén Cochambre”, de domínio público, é a experiência máxima do disco no quesito “música raiz” que se pode ter, mesmo com meros 2 minutos e 28 segundos, onde Rodrigues segue acompanhada da cantora peruana Susana Baca, ex-Presidente da Comissão de Cultura da Organização dos Estados Americanos (2011 — 2013).

Enfim, um álbum rico, cheio de sentimentos e elementos, heranças da África e povo negro brasileiro e que incluem algumas interpretações nas línguas africanas kikongo e quimbundo de forma honesta. A imersão é garantida.




Juçara Marçal e Kiko Dinucci - Padê
Ano: 2008
Gênero: Samba Torto / Samba Macumba
Selo: Tratore / Selo Cooperativa
Arte: ?
Streaming: Spotify
Download: Kiko Dinucci.com.br

Provavelmente as bases teatrais de Juçara não foram em vão e a Companhia Coral parecem ter sido, de grande forma, responsáveis pela desenvoltura com a qual a cantora encara e domina o samba torto, mas ainda dançável e possível arriscar alguns passos, presente em Padê, primeiro trabalho junto do músico e já praticamente um ser onipresente Kiko Dinucci. Este por sua vez basta qualquer pesquisa ao “oráculo” para entender as dimensões de seu trabalho como músico e alimentador cultural, encabeçando ou se vinculando a vários projetos como Bando AfroMacarrônico, Duo Viola, Passo Torto, Metá Metá ou mesmo sozinho, como em Na Boca Dos Outros (2009). Aliás, seria mesmo injusto não citar outras notórias participações de ambos. Sendo sucinto: “Fio de Prumo (Padê Onã)” (Juçara), do álbum Convoque Seu Buda (2014) de Criolo; “Samba Do Fim Do Mundo” (Juçara e Fabiana Cozza), do álbum O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui (2013) de Emicida; A Mulher Do Fim Do Mundo (2015) (Dinucci e vários), o mais recente disco de Elza Soares; “Retrato na Praça da Sé” (Dinucci), do álbum Vira Lata na Via Lactea (2014) de Tom Zé; RÁ! (2015) (Com a trupe Thiago França, Kiko Dinucci Juçara Marçal e outros), novo trabalho do rapper Rodrigo Ogi e por aí vai.

Padê — segundo dicionário Michaelis: “Cerimônia em honra a Exu, e que antecede as festas do candomblé”, “Homenagem a Exu, antes de qualquer cerimônia do candomblé, para que ele não estrague a festa” e ainda “desjejum que se oferece ao Exu, antes do início das cerimônias nos candomblés; é constituído de pipoca com azeite de dendê, seu alimento preferido” —, já com seus sete anos de idade, segue uma linha mais próxima do samba manco e macumbeiro ouvido em "pastiche nagô" (2008), não chega a ser metalizado como as músicas de Metá Metá (embora seja uma evolução — e por evolução entendam simplesmente como “mudança”, não “melhoria” ou “piora”) ou como o disco de Vicente Barreto, Cambaco (2015) (Kinucci também está aqui). Tão pouco chega a ser tão Encarnado (2014) (vale ressaltar que este disco figurou a maioria das listas no nosso #Top2014), mas é possível ouvir tudo junto, incluindo um Passo Torto para nenhuma entidade botar defeito.
Foto: Bruno Poletti/Folhapress
De acordo com o texto de nosso editor Bruno Lucas “(...)desde o seu título o álbum se oferece como um registro espiritual nas bases das religiões africanas em solo brasileiro(...)”, portanto Padê é audição obrigatória para quem se interessa pelas raízes culturais e religiosas de nosso povo enquanto degusta uma maravilhosa obra de arte.
Para informações complementares quanto aos elementos sonoros e culturais presentes no disco, além de uma segunda visão sobre o mesmo, Bruno Lucas já deu conta do recado em seu ótimo post (clique).



Links interessantes:

PENSE OU DANCE: MÚSICA TORTA BRASILEIRA, post do nosso parceiro Fernando Augusto Lopes, ser pensante por trás do Floga-se.

O Povo Brasileiro, documentário de Darcy Ribeiro.
terça-feira, 3 de março de 2015
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Los Hermanos - 4

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Gênero: Alternative rock / MPB / Samba
País: Brasil
Ano: 2005

Comentário: Transição. Essa é a palavra que define o que 4, último álbum dos cariocas dos Los Hermanos, trabalho que celebra dez anos de seu lançamento em 2015. Controverso para época, o disco não agradou de imediato grande parte do público.

Aguardado por muitos, o sucessor de Ventura, disco solar e enérgico e de relativo sucesso, decepcionou fãs de longa data que se dividiram entre amar ou estranhar o novo rebento. A crítica, por sua vez, polarizou opiniões entre rasgar elogios ou não entender o porquê mais um recondicionamento sonoro. Mas afinal por quê tamanha disparidade?

De fato, para aqueles que acompanharam e devotaram a evolução sonora promovida em Bloco do eu sozinho, 4 representa mais uma guinada musical, a maturidade da maturidade, mas com certo estramento inicial, pois é perceptível a mudança gradual nas composições da dupla Camelo e Amarante, responsáveis por todo o repertório da banda.

Os acordes iniciais de "Dois barcos", canção de Marcelo Camelo, já denunciam que algo diferente estava por vir. As letras existenciais e melancólicas, marca inerente ao trabalho da banda, ainda estavam ali, mas o tom lúgubre e arrastado da canção causaram espanto nos já convertidos admiradores e avaliadores, que não esperavam uma imersão em melodias frias, conduzidas em sua maioria pelo piano de Bruno Medina e por arranjos orquestrados. Características como estas dominam grande parte do disco como percebe-se em "Fez-se mar", "Sapato novo" e "É de lágrima". 

Se Camelo opta por seguir novos caminhos, muito próximos a MPB clássica, Amarante responde, em menor parte, de maneira distinta apostando no que se poderia chamar de "velho Los Hermanos". O hit "O vento" (faixa esta que foi abertura de Malhação), a pungente "Condicional" e "Paquetá", com toda a sua latinidade, são conduzidas por guitarras que muito lembram o que a banda produziu nos primórdios.  

Passado todo este tempo, hoje é possível visualizar com clareza que 4 é um reflexo direto do que a dupla de compositores principais iria produzir de maneira solo anos mais tarde. Camelo seguiu a atmosfera mpbística experimental (como é perceptível nos discos Nós e Toque Dela). Já Amarante apostou em novas parcerias e formou a Little Joy, banda mezzo brasileira mezzo norte-americana, cuja sonoridade jovial alcançou relativo  sucesso. Ironicamente, tempos depois as sonoridades se inverteriam como é visível no disco de estréia da Banda do Mar (projeto de Camelo) e Cavalo (voo solitário de Amarante)  

Querendo ou não, 4 seguirá como o mais contrastante álbum da curta e meteórica carreira. Porém a sua influência e ousadia ainda reverbera na cena musical brasileira. Se algum disco brasileiro pode merecer título de marco zero do que hoje se conhece como "indie-sambinha" este disco tem grande culpa no cartório.

O que o futuro reserva à banda ainda é uma incógnita. Como não há perspectiva de um novo disco, por hora os fãs de longa terão que se contentar com a turnê caça-níquel que em outubro varrerá o solo brasileiro à preços exorbitantes.          

Tracklist:

01. Dois barcos
02. Primeiro andar
03. Fez-se mar
04. Paquetá
05. Os passáros
06. Morena
07. O vento
08. Horizonte distante
09. Condicional
10. Sapato novo
11. Pois é
12. É de lágrima

Ouça: Spotify

sábado, 18 de janeiro de 2014
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Bandas Amigas #7 - Odilara, Fura e Nvblado

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Odilara
O alto astral de Odilara é suficiente para quebrar a rotina desse blog que é tão envolto de estranhezas ruidosas, nebulosidades e tantas outras palavras esquisitas e sequer existentes. Isso porque a banda se propõe a fazer aquele mpb alegre e descontraído, utilizando inclusive de uma boa pegada de samba rock — que continua em alta —, mas com certa liberdade, abrindo janelas para a criatividade e agregando outras influências e instrumentações. Uma fórmula interessante, que não transforma o gênero, mas dá continuidade de forma autêntica e promissora naquilo que já fora reinventado. E assim segue o quinteto mineiro que em 2010 lançou um disco auto intitulado e, coincidentemente, soando como um retrato da música brasileira que já existia, embora já demonstrasse qualidade. Agora com "Janela Pro Mundo" buscaram fazer algo que garantisse uma identidade própria ao grupo, mesmo continuando a usar a fórmula antiga. Não se pode dizer se a fórmula foi aperfeiçoada, isso dependerá de gostos, mas certamente o resultado pareceu bom e garante aos mineiros do Odilara um lugar ao sol. Destaco a preocupação com a artwork, que vocês poderão notar ao baixar o zip; também pelo trabalho totalmente autoral, a não ser pelo o cover/homenagem a Wilson Simonal, que só agregou malemolência ao disco.

Pignianos sobre esse som:
"Janela Pro Mundo carrega o estigma da brasilidade tropical em cores fortes diluídas, onde até a pronúncia do nome da banda soa em calmaria: O-D-I-L-A-R-A; da poesia simples que utiliza termos do cotidiano como “Deixa vacilar pra baixar a bola, e se vacinar” para construírem seus versos breves, dos quais são cantados predominantemente pelos belos e doces vocais de Andréa. Este é um álbum de ode à serenidade dos dias ensolarados!"
— Ariel C.

"Odilara é um louvor a brasilidade. As faixas complementam-se em estilo e referências, na sonoridade da banda vi o Brasil no mundo e vice-versa, o release da banda não poderia ser mais exato: de fato vão de Noriel Vilela à Radiohead pra fazer um gênero que cresci ouvindo - um bom e autêntico samba, daqueles que você vai batucando na palma da mão, que pega fácil e contamina. Fazem samba fácil; vívido!"
— Lucas Bruno

"Instrumentistas de primeira, porém, com sonoridade reciclada que não traz nada de novo. Deve agradar os frequentadores de barzinhos e fãs de Nova MPB no geral, o que não é meu caso."
— Koticho

"Dona de uma temática simples e bem produzida, o grupo belo horizontino prima pelo samba, mas nada impede que outros elementos participem, pois há espaço para scratches (tradicionais do rap), elementos eletrônicos, um flerte com a mpb e um leve aceno para o rock. Destacam as faixas "Tantas vezes", a versão acelerada de "Nem vem que não tem" de Wilson Simonal, e o samba rock "4 k"."
— Bruno Lisboa

Disco: Janela Pro Mundo
Ano: 2013
Gênero: Samba/ Samba-rock/ MPB

Tracklist:
01 – Vou Assim Devagar
02 – Aquela Beleza
03 – Desencanto
04 – Em Todo Lugar
05 – Ed. Liberdade
06 – A Virada
07 – Tantas Vezes
08 – O Que Eu Quiser
09 – Varanda do Ser
10 – Liquidado
11 – 4 K
12 – Nem Vem Que Não Tem

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Links: Facebook/Soundcloud/Site





Fura
Embora nova no mundo, Fura já vem aparecendo neste blog desde que lançou seu primeiro material lá em 2010/2011, e sempre agradou bastante. Até porque o quarteto demonstra bastante técnica e criatividade, preenchendo esse mundo musical com mais um belo projeto de post rock/metal. Isso já seria o bastante para que você devesse dar aquela espiada no som dos caras, mas o quarteto apimenta as coisas dizendo que são de vários lugares do mundo e que se juntaram para criar algo. Infelizmente essa história não é desembrulhada pela banda, sequer sei qual a nacionalidade dos músicos (ou se são todos da Espanha, mas estavam morando em outros países... pois é de lá que o disco é assinado). Enfim, o importante é que Marc Tudurí, Manuel Oriol, Luciano Pugliese e Álvaro Medina sempre se preocuparam muito com a estética musical e visual de seu projeto, criando músicas de grande qualidade e intensidade, além de artworks sempre atrativas, principalmente neste disco homônimo. E se eu pudesse destacar mais alguma coisa, para que angarie ouvintes, eu diria que a masterização ficou por conta de Magnus Lindberg, percussionista do Cult of Luna. Mas é só um detalhe, a qualidade já é parte da pré-criação do Fura.

Pignianos sobre esse som:
"Post-Rock com pegada, pesado e intenso, cheio de influências legais de outros gêneros, uma das melhores bandas que já apareceram no quadro do Bandas Amigas. "
— Koticho

"A proposta da banda é fazer um som que remeta à ideia de um furão (fura em catalão) em seus hábitos exploratórios e ágeis que se alternam com o profundo sono que tem o animal durante a maior parte do tempo. Fura faz um rock instrumental moderno e competente. A intensidade das guitarras é digna de destaque."
— Rômulo Alexander

Disco: Fura
Ano: 2013
Gênero: Post-rock-metal/ Ambient/ Experimental/ Math-rock/ Instrumental

Tracklist:
1.Belisari 03:47
2.Omeia 07:09
3.Cornia 06:02
4.Ushuaia 04:34
5.Sibil·la 07:37
6.Askja 06:17

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Links: Facebook/BandCamp






Nvblado
Se a primeira banda deste post foi capaz de trazer a harmonia, então a segunda preparou seus ouvidos para que Nvblado fechasse com o caos total. Advindo de Balneário Camboriú, SC, Nvblado é formado por Felipe Garcia (Guitarra), Marcel Machado (Bateria), Camilo Machado Garcia (Baixo) e pelos búfalos Renan Pamplona (Vocais) e Felipe Mattos (Guitarra) — mas se você conheceu Búfalo antes, não se deixe enganar por aquele lo-fi sadwave. Nvblado também pode te carregar por meio de uma instrumentação lenta e introspectiva, mas a beleza é outra. É negra, densa e, ao mesmo tempo, cheia de combustões espontâneas, trazendo, com seu screamo, angústia e desespero para dentro de um post-rock constituído de uma beleza mórbida envolvente. Já as letras, gritadas, são um show à parte para a depressão.
Apesar da banda existir há alguns anos, "Afogado" é o primeiro lançamento (independente), um disco que se sobressai em relação à outras bandas do gênero, e isso não é graças somente ao screamo, mas também por um clara tentativa (bem sucedida e no ponto certo) de experimentar. E que capa bacana.
"E quando você fala, suas palavras caem como pedras sobre mim, soterrando tudo o que sinto. Mas tudo o que eu queria ao seu lado, na verdade, era só me sentir um pouco mais vivo." — trecho de Avalanche Pt. II

Pignianos sobre esse som:
"Nvblado é o resumo de toda uma angústia acumulada. A faixa "Angústia" soa de fato, como uma verdadeira angústia deve ser: tranquila e explosiva, acalenta e mordaz. A sonoridade - e conceito - da banda muito me agradam por evocarem em mim uma angústia terrível que dificilmente sinto com música, vai além do desconforto angustiante, é de fato um conflito, como se fosse um mar que salva ou afoga. Enfim, de fato a banda me agradou pelo seu tom sóbrio, vai direto pros fones."
— Lucas Bruno

"Screamo e Post-Rock se mostrou um casamento muito frutífero quando bandas como Envy e Suffocate For Fuck Sake resolveram apostar na mistura. A melancolia e beleza natural dos timbres do post-rock contrastam de forma ideal com os vocais ásperos e sofridos do screamo, resultando em músicas densas e carregadas de emoções, como a própria faixa Angustia do grupo, onde é impossível ouvir e não se perder no mesmo mar de angustia declamado pela banda."
— Koticho

"Urgente e explosivo. São alguns dos adjetivos cabíveis ao Nvblado. Utilizando de elementos tradicionais e oriundos do post-rock, a sonoridade usufrui do silêncio subsequenciado do esporro. Ecos de Sonic Youth e Refused são sentidos numa simples comparação, mas resultando em algo autoral e poderoso."
— Bruno Lisboa

Disco: Afogado
Ano: 2013
Gênero: Post-rock/ Screamo

Tracklist:
1.Afogado 02:09
2.Angústia 06:38 (clipe)
3.Morada 03:33
4.Avalanche Pt. II 08:28
5.Arpoador 10:38
6.Artemisia 05:55

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Links: Facebook/BandCamp/Soundcloud


E aí, gostou?
Se tem sugestões, ou possui uma banda/projeto solo e quer vê-lo aqui no blog, basta acessar este post para ter acesso ao nosso e-mail e entender como proceder para divulgar sua banda: DIVULGUE SUA BANDA (promote your band).
Não prometemos publicar tudo, mas prometemos ouvir tudo e, aquilo que acharmos minimamente interessante, faremos o possível para publicar.
sexta-feira, 13 de dezembro de 2013
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Planet Hemp - Os Cães Ladram Mas a Caravana Não Pára

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Gênero: Rap / Funk / Samba / Hardcore
País: Brasil
Ano: 1997

Comentário: Diferente do álbum de estreia, Usuário, Os Cães Ladram Mas a Caravana Não Pára, da nem tão finada assim banda carioca Planet Hemp apresenta-se menos experimental e caseiro, mas consegue flertar com outros gêneros além dos mais marcantes rap e hardcore presentes no outro álbum. O disco surge com enormes ganchos entre ritmos e letras – em sua maioria sempre em prol de uma tal de cannabis sativa  - que são entrecortadas ora pela força e potência do hardcore quase gritado, ora pelo gingado do samba e até mesmo do rap, e mesmo com esse turbilhão de ideias o álbum consegue ser coeso. Afinal quem mais na época conseguia juntar rap, rock and roll, psicodelia, hardcore e ragga?

Até hoje o álbum faz-se atual em suas críticas. Aos puritanos de plantão que acham que o Planet Hemp é somente um bando de maconheiros que só falam de usar maconha, perdão, vocês estão enganados. As críticas sociais contidas em Os Cães aparecem logo no começo com “Zerovinteum”. Aliás, as três primeiras faixas são uma das melhores sequências do álbum, complementam-se tanto em letra quanto em ritmo.

Além de preocupar-se com as mensagens dos versos, o Planet tem uma sonoridade de instrumentos muito marcante. Tanto no álbum de 95 quanto nesse de 97 a presença de música somente instrumental é recorrente, mesmo “Skunk” do primeiro álbum sendo mais experimental e Biruta misturando o beat do hip hop com reggae e samba, ambas tem o seu valor no contexto de seus respectivos álbuns.

A variedade do álbum é imensa – e isso realmente me agrada. Em um mesmo álbum ouvimos um fantástico acasalamento de flow e beat,  homenagem ao Led, em “Adoled” e o bom e velho hardcore que o Planet já mostrara em seu álbum anterior Usuário, com “Maryjane”.

Dentro dessa variedade vemos até uma onda de jazz dentro do álbum com “Paga Pau” que traz um saxofone de fundo, dando um tom dolorido à música com o vocal mais sombrio do D2 - torna tudo mais áspero; quase soturno. Uma das melhores faixas do álbum, em todos os sentidos: letra, instrumental e vocal. E em momento nenhum ela destoa do resto; funciona como complemento da admirável sonoridade que a banda é capaz de criar.

Saindo do jazz e caindo no samba o cover de “Nega do Cabelo Duro” é bastante gingada, tipicamente carioca, como deveria ser. De letra leve e conhecida é um cover que poderia até ser mais reconhecido do que é atualmente. Por sinal, o Planet faz ótimo covers, vide “Samba Makossa”, da Nação Zumbi, tão boa e reconhecida tanto quanto a original.

Pela sua imensa sonoridade e repleto de referências, de certo ponto até, inusitadas, Os Cães Ladram Mas a Caravana Não Pára é considerado por muitos fãs o melhor álbum da banda, o que não é realmente difícil de acreditar. Mas ainda creio que o Usuário tem sua força, mesmo mostrando-se um pouco menos coeso e versátil. E nessa efervescência de sonoridades – que termina de uma forma extremamente sensacional – só tenho a dizer que todos deveriam se ligar nessa Ex-Quadrilha da Fumaça, de uma forma ou de outra.

Tracklist:

1. Zerovinteum
2. Queimando Tudo  
3. Hip Hop Rio
4. Bossa
5. 100% Hardcore
6. Biruta
7. Mão na Cabeça  
8. O Bicho Tá Pegando  
9. Adoled (The Ocean)  
10. Seus Amigos  
11. Paga Pau
12. Rappers Reais  
13. Nega do Cabelo Duro
14. Hemp Family
15. Quem Me Cobrou?
16. Se Liga

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domingo, 24 de novembro de 2013
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João Nogueira - Espelho

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Gênero: MPB / Samba
País: Brasil
Ano: 1977

Comentário:  Acho que João Nogueira dispensa apresentações, mas para cumprir o básico do básico, João Nogueira foi um cantor e compositor brasileiro, filho de advogado e irmão de uma também compositora, com quem aprendera a tocar violão.

Com apenas 17 anos João já era diretor de bloco carnavalesco, nessa mesma época suas composições foram descobertas por uma gravadora e foi lá o rapaz de 17 anos, gravar uma de suas primeiras composições. Tornou-se compositor da Portela e mais tarde fundou a Tradição (atual escola de samba do recém-criado Grupo de Ouro do Carnaval Carioca, que tem como símbolo um Condor, ou seja, uma prima da Águia da Portela), a mesma escola que, em 2001, ganhou alguma fama com o Samba Enredo e Desfile em homenagem a Silvio Santos.

Ok, mas agora o álbum. Espelho vai de encontro a algumas nuances de samba. Aqui especialmente o samba canção fica muito claro com a faixa-título “Espelho”, de longe, não que as outras faixas não sejam significativas, uma das melhores do álbum, tanto por sua melodia e letra, um casamento muito bem feito e atrelado, o sopro e o cavaquinho na introdução da música que dão espaço para o violão e a voz do João são geniais: e digo, nenhuma outra regravação dessa faixa vai chegar perto da original, Espelho por João Nogueira é imbatível.

O álbum também flerta com o samba feito nas escolas de samba. “O Passado da Portela” e “Apoteose do Samba” captam uma essência de samba de quadra hoje quase extintos das escolas cariocas. A primeira trás um coro feminino incrível, um cavaco bem ágil e marcado durante o canto do João, faixa bem contraditória e diversificada dentro do gênero, se for comparada com o samba-canção melancólico de “Espelho”.

“Batucajé” começa com uma percussão tipicamente africana que perdura por toda a faixa – mesmo que escondida por detrás do violão. A letra da música fala da dor do povo negro, amedrontado pelos “guerreiros brancos”, um verdadeiro canto sôfrego, mas libertador dos grilhões que até onde hoje prendem o negro e o samba, porque, como diz João: três dias é pouco pra gente sambar.

No fim, Espelho retorna ao samba canção, encerrando o álbum com “Desenganos” e um João Nogueira entregue e suave, de voz calma, unindo-se ao piano de fundo e a batida cadenciada e lenta da faixa, como se depois de toda agitação e passeios por densidades e melodias dentro do próprio samba João retornasse de fato ao espelho, com a melancolia e votos de uma vida, quem sabe, mais feliz.


Tracklist:

01. Pimenta no Vatapá
02. Espelho
03. Malandro JB
04. Espere, Oh Nega
05. Dora das 7 Portas
06. O Passado Da Portela
07. Apoteose do Samba
08. Wilson, Geraldo e Noel
09. Batucajé
10. Samba de Amor
11. Quem Sabe é Deus
12. Desenganos

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terça-feira, 19 de novembro de 2013
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Rodrigo Campos - São Mateus Não É Um Lugar Assim Tão Longe

2 comentários

Gênero: MPB / Samba
País: Brasil
Ano: 2009

Comentário: Existe certo tipo de trabalho musical que é capaz de te transportar para determinado lugar, que tem o condão de te ambientar em certo espaço, mesmo sem você nunca sequer ter lá pisado ou visto ao menos de relance alguma de suas paisagens. Essa sorte de disco descreve não só o que se vê quando se passeia pelo local dissecado, mas também passa sensações, ilustra os sentimentos que abatem o interlocutor quando se recorda dos momentos ali vividos. O álbum de estreia de Rodrigo Campos é, certamente, um desses trabalhos: São Mateus Não É Um Lugar Assim Tão Longe, não se você percorrer com alguma atenção suas catorze arrebatadoras faixas.
Confesso que desconhecia o artista até uns dois meses atrás, quando me deparei com a nova faixa de Criolo, Duas de Cinco, liberada recentemente. Nela há um sample de Califórnia Azul, quarta faixa do presente registro, que me chamou a atenção, me levando a pesquisar mais sobre seu autor. Trata-se de uma pequena crônica ambientada no bairro de São Mateus, zona leste de São Paulo, que concentra população de classe média, além de partes periféricas, de situação financeira mais gravosa.
Quase todas as faixas, aliás, são compostas de outras crônicas e contos, com personagens distintos, e que demonstram paixões, momentos de alegria, mas também de tristeza, por vezes denotando um caráter duro e ácido que outrora vigorava nas ruas de São Mateus. É o caso da encantadora Mangue e Fogo, que conta a história de um menino e uma menina, ambos com um crescimento de certa forma conturbado, na voz envolvente de Luísa Maita, namorada de Campos - que, inclusive, participa de forma perfeita em outras três faixas.
Embora muitas das faixas sejam animadas, verdadeiros sambas rock, é difícil se desvencilhar da sensação ruim que trazem algumas de suas letras, como em Para Onde Vão os Meninos de São Mateus?, cujo sentimento nostálgico ruim de que é carregada chega a dar um amargo na boca. Por outro lado, há bonitas homenagens a seus pais, Lúcia e Isac, em faixas homônimas, com quem se mudou para o bairro aos três anos de idade, deixando a pequena Conchas no interior de São Paulo rumo ao lugar onde formaria sua personalidade musical e social.
As pequenas histórias musicadas têm outro grande trunfo, além da habilidade de compositor de Campos: o artista resolveu se rodear de gente muito boa. Além de Luisa Maita, já citada, há nomes como Antonio Pinto, autor de grandes trilhas sonoras do cinema nacional; Beto Villares, um dos produtores mais respeitados de nossa música contemporânea; Fabiana Cozza, cantora de talento ímpar; e Curumim, mito do underground paulista que sabe misturar samba, hip hop e outros ritmos como ninguém.
Esse álbum de estreia é memorável. Três anos depois, Campos lançou Bahia Fantástica, disco que também possui muita qualidade, no qual experimenta mais, mas se distancia um pouco do caráter de narração quase bucólica deste tratado acerca de São Mateus. E isso é o que torna esse disco não só mais um da chamada nova MPB, mas um registro único, de valor protraível no tempo.


Tracklist:

  1. "Fim da Cidade"
  2. "Os Olhos Dela"
  3. "Brother José"
  4. "Califórnia Azul"
  5. "Amor na Vila Sônia"
  6. "Cavaquinho"
  7. "Sem Estrela"
  8. "Salve Fabrício"
  9. "Lúcia"
  10. "Isac"
  11. "Mangue e Fogo"
  12. "Rua Três"
  13. "Que Santo É Esse?"
  14. "Para Onde Vão os Meninos de São Mateus?"



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domingo, 3 de novembro de 2013
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Emicida - O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui

0 comentários
Gênero: Hip Hop / Rap / Samba Rock
País: Brasil
Ano: 2013

Comentário: Eu tentei. Tentei ouvir a chatice vociferada por gente que nunca compôs uma linha sequer. Juro que tentei. Tentei dar uma chance a todos aqueles que bradaram, no melhor estilo Dolabella, que Emicida havia traído o movimento Hip Hop ao se tornar rosto frequente em diversos horários da Rede Globo. Tentei enxergar a estagnação em seu estilo que muitos davam como certa em seu álbum de estreia. Tentei identificar a saturação do gênero a qual muitos alertaram, dizendo que os "Mano de Condomínio" haviam deturpado a cena, e que Emicida era o grande culpado disso tudo, por ter aberto a porteira da produção desenfreada do Rap. Tentei até mesmo desgostar de alguém que sempre vendeu seus trabalhos por cinco conto, e agora teve a empáfia de inflacionar em mais dez reais o preço daquilo que entrega a alma pra trazer comida pra casa. Tentei, tentei mesmo. E, ao contrário de Emicida, em O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui, eu falhei. Miseravelmente.
Foi inafastável a expectativa criada por Emicida por um álbum de verdade. Isso porque seus primeiros trabalhos se albergavam na informalidade das mixtapes, algo que dá um grande conforto a um artista da rua. A espera foi temperada com muita curiosidade e desconfiança: como se adaptaria a um chamado "disco de carreira" um artista que até outro dia queimava os próprios cds e carimbava a artwork do trabalho em envelope pardo? Muito bem, eu diria.
Acredito que Emicida tenha assimilado de forma satisfatória a fama que o levou a habitar o gosto musical de nichos antes improváveis. Talvez por isso ele tenha se reinventado. E o caminho escolhido foi o do samba. Entrelaçando rimas perfeitas a verdadeiros sambas de roda, temos em Hino Vira Lata, por exemplo, verdadeiras amostras de todo um potencial ainda inexplorado. O Samba Rock dá as caras num interessantíssimo jogo de palavras pra biólogo nenhum botar defeito em Trepadeira, que gerou alguma polêmica, de algum modo compreensível, até certo ponto exagerada, mas que não tira o brilho de todo o esforço conjugado com ninguém menos que Wilson das Neves para dar vida a uma das mais divertidas faixas do registro.
Como não se deixar levar pelo peso do samba sombrio de Crisântemo, contando a recepção do próprio e de sua família da notícia da morte de seu pai? Mais uma vez, referências da cultura cotidiana e rimas potentes são usadas para contar tanto histórias de dor, como nesta faixa e em Hoje Cedo - em que conta como quase perdeu a companhia de sua esposa e filha para o deslumbramento da fama - como em momentos de alegria, como visto em Sol de Giz de Cera, contagiante crônica sobre um dia qualquer de brincadeiras com aquela que inaugurou sua prole.
Em suma, O Glorioso Retorno representa exatamente o que o seu título induz: esperavam uma volta triunfal do artista ao mainstream, mas esse é um lugar que ele nunca habitou. Ele sempre pertenceu às suas origens, ao seu Jardim Fontalis, e, embora pareça que há muito frequenta a televisão tradicional, nunca irá se perder entre as ilusões de uma vida que não é sua. Ele voltou, pra onde nunca esteve. E com uma qualidade nunca antes vista.


Tracklist:
  1. Milionário do sonho
  2. Levanta e anda (participação Rael da Rima)
  3. Nóiz
  4. Zóião
  5. Crisântemo (participação Dona Jacira)
  6. Sol de giz de cera (participação Tulipa Ruiz e Estela Vergílio)
  7. Hoje cedo (participação Pitty)
  8. Trepadeira (participação Wilson das Neves)
  9. Bang!
  10. Gueto (participação MC Guime)
  11. Hino Vira Lata (participação Quinteto em Branco e Preto)
  12. Alma gêmea
  13. Samba do fim do mundo (participações Fabiana Cozza e Juçara Marçal)
  14. Ubuntu Fristaili



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terça-feira, 18 de junho de 2013
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Martinho da Vila - Memórias de um Sargento de Milícias

1 comentários

Gênero: Samba
País: Brasil
Ano: 1971

Comentário: Memórias de um Sargento de Milícias é o terceiro álbum na carreira de Martinho da Vila e meu preferido. O nome foi inspirado no livro homônimo de Manuel Antônio de Almeida.

Livro e disco possuem pontos em comum. O livro foi um romance bastante incomum para sua época por retratar as classes mais pobres e expor mazelas sociais assim como o disco, feito logo após o Martinho dar baixa no exército.

Os dois maiores destaques são a dançante "Segure Tudo" e a agradável "Para Você, Felicidade" com seu belo cavaquinho. Grande clássico do samba e do nosso cancioneiro popular.


Tracklist:
01. Segure Tudo
02. A Flor e o Samba
03. Camafeu
04. Pode Encomendar o Seu Caixão
05. Dia Final
06. Menina-moça
07. Seleção De Partido Alto
08. Pra Você, Felicidade
09. Quem Pode, Pode
10. O Nosso Olhar
11. Memórias de um Sargento de Milícias

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quinta-feira, 5 de julho de 2012
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Toquinho - O Melhor de Toquinho

0 comentários
Gênero: MPB / Samba / Bossa Nova
País: Brasil
Ano: 1985

Comentário: Há um certo tipo de pessoa que se dedica à música de maneira tão zelosa e esforçada que é quase impossível se dissociar o artista de sua obra. Antonio Pecci Filho é, certamente, um dos mais notáveis representantes dessa sorte apaixonada de músico. Aos sessenta e cinco anos de idade, segue praticando sua maior habilidade: a composição.
Sua sagacidade no uso das palavras, quer seja sozinho, quer seja em parceria de nomes como Tom Jobim e Vinícius de Moraes, nos brindou com algumas das mais memoráveis letras de música com as quais a língua portuguesa já se deparou. Quem é que, quando criança, não ouvia a canção "Aquarela" pensando se tratar de algo inocente, e, depois de crescido, se deu conta da tristeza perpassada pelos seus versos, travestida de alegria colorida? Ou ainda, quem é que, sendo apaixonado por música, ao se analisar a letra de "Made In Coração", não enxerga ali consubstanciado todo o seu próprio pensamento, quero dizer, o de unir todas as pessoas, com seus diferentes credos, cores e preferências, através da arte? Por essas e outras geniais aglomerações de versos é que Toquinho, alcunha pela qual é conhecido o senhor de quem falo, é um dos mais respeitáveis compositores que esse país já conheceu.
Em quase cinquenta anos de carreira, Toquinho compôs centenas de canções, lançou dezenas de discos e realizou milhares de apresentações. Em suas vistosas aparições com Vinícius de Moraes, poeta dos mais aclamados, marcou a vida de muita gente, dada a emoção com que sempre contagiou cada pedaço de seu trabalho. No disco que lhes trago, há apenas uma parcela de sua obra, contendo as mais significativas passagens de sua carreira até a metade da década de oitenta.
Entretanto, não vou negar: a exaltação de suas habilidades não é o único motivo desta postagem. Elevando seu tino de compositor, mais uma vez, devo dizer que a habilidade de Toquinho é tão grande, sua intimidade com as palavras é tamanha, que ele foi a única pessoa que conseguiu reduzir a termo o mais próximo do que é o sentimento de ser corintiano, sofredor, apaixonado incondicional, juntamente com mais trinta milhões de maloqueiros, que vibram, choram e se emocionam a cada jogo, não importando se há vitória ou derrota.
Eu esperei só vinte e quatro anos pra isso, Toquinho, mas você esperou sessenta e cinco. O Dia de São Nunca chegou: a Libertadores é nossa! A América é nossa! Uma homenagem sincera  - e mais do que merecida - de um corintiano anônimo para um ilustre louco do bando. VAI CORINTHIANS!

[ Site Oficial / LastFM ]

Tracklist:
  1. "Made In Coração"
  2. "Carinhoso"
  3. "Lindo e Triste Brasil"
  4. "A Sobra de um Jatobá"
  5. "Aquarela"
  6. "La Casa In Riva Al Mare"
  7. "Tarde em Itapoã"
  8. "Lua Cheia/Samba de Orly/Samba para Vinícius"
  9. "Na Boca da Noite"
  10. "Que Maravilha"
  11. "O Bem Amado"
  12. "Escravo da Alegria/Ao Que Vai Chegar/O Caderno"
  13. "Carta ao Tom 74"
  14. "Como Dizia o Poeta/Morena Flor/Samba da Volta/Regra Três"
  15. "Corinthians do Meu Coração"

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segunda-feira, 2 de julho de 2012
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Otto - Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos

3 comentários
Gênero: MPB / Samba
País: Brasil
Ano: 2009

Comentário: Um dos maus do pós-modernismo é que, com essa multiplicidade de informações que nos inunda diaramente, e com a intensa quantidade de fontes do saber, produtivo e inútil, que nos é colocada à disposição, por vezes você guarda um dado, mas não se recorda de onde ele foi coletado. E nesse clima filosófico, lembro que, quando o disco em epígrafe foi lançado, eu li alguma resenha, em algum lugar, que se embasava na seguinte premissa: levar um pé na bunda da Alessandra Negrini fez bem ao Otto.
Não há como discordar. Otto despontou como uma grande promessa da nova MPB, e principalmente da música alternativa brasileira, que andava meio carente de expoentes. Com Samba Pra Burro, sua estreia, encantou grande público, e ganhou, ainda, o coração da atriz global. Daí pra frente, muitos passaram a conhecê-lo muito mais por seu matrimônio do que pelo seu trabalho. E não é pra menos. Após a estreia, sua qualidade rolou ladeira abaixo, em dois discos dispensáveis.
E aí, ó triste destino, adveio o divórcio. E no melhor estilo byroniano, sob a máxima de que a dor vivida deve ter alguma serventia, e que passar por ela torna o indivíduo melhor, Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos foi concebido de forma a relembrar aquele artista talentoso e incomum que outrora pedia espaço.
Letras soturnas - Crua, por exemplo, é um relato dolorido das causas do seu sofrimento - recheiam o trabalho, e não poderia ser diferente, afinal, Otto cita Kafka logo no título do álbum. Ou seja: um álbum intitulado com uma adaptação da primeira linha de Metamorfose não poderia ser alegrezinho. E não é. Mas é, também, genial.


 Tracklist:
  1. "Crua" - 3:31
  2. "Leite" (Part. Ceu) - 2:50
  3. "Janaina" - 4:41
  4. "Meu Mundo" (Part. Lirinha) - 3:33
  5. "Seis Minutos" - 6:00
  6. "Lágrimas Negras" (Part. Julieta Venegas) - 3:33
  7. "Saudade" (Part. Julieta Venegas) - 3:24
  8. 'Naquela Mesa" - 4:09
  9. "Filha" - 4:58
  10. "Agora Sim" - 4:00

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sexta-feira, 27 de abril de 2012
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Curumin - Arrocha

3 comentários
Gênero: MPB Experimental
País: Brasil
Ano: 2012

Comentário: Acredito que Luciano Nakata Albuquerque, músico paulistano, multi instrumentalista, tenha atingido, sob a alcunha de Curumin, o máximo de fama que um artista alternativo pode alcançar sem transpor a barreira polêmica que os separa do temido e desejado mainstream. No entanto, parece claro que essa transferência não foi realizada não por falta de oportunidade, mas sim por inexistência de interesse: Curumin, no posto em que está, vai muito bem, obrigado.
Com o lançamento de Achados e Perdidos, em 2005, a personalidade tranquila, desencanada, do cantor, sua mistura de estilos, essencialmente Samba, Jazz e Hip Hop, chamaram a atenção e criaram uma boa base para o lançamento de, quase três anos depois, o seu segundo disco, Japan Pop Show, que trouxe aquilo que lhe faltava para entrar, de vez, no gosto da plateia do underground: "aquela" música, que identifique o artista e que venha à cabeça logo que seu nome é citado: Magrela Fever.
Com mais quatro anos de distância entre seu último lançamento, nos deparamos agora com Arrocha, terceiro disco de um já consolidado e reconhecido artista, que trouxe para seu séquito fãs de renome, como Arnaldo Antunes, por exemplo. A obra demorou mais que o esperado, pois estava quase pronta quando Luciano descobriu que seria pai ("como não deu pra adiar o filho, adiamos o disco" - palavras do próprio). E logo no título sua maior característica é evidenciada: a inserção e misturança de elementos da música regional brasileira, de vários cantos do país, inclusive.
O experimentalismo no mix de estilos, aliás, sempre foi o traço mais forte do trabalho de Curumin. Em Arrocha, isso não é diferente, e, na verdade, é até mesmo mais acentuado que nos registros anteriores. A novidade fica por conta do mundo eletrônico, fonte da qual Curumin passou a beber sem vergonha alguma.
As letras, sempre com muitas gírias e palavras não muito convencionais, são outro aspecto diferenciado de seu trabalho. O seu estilo de canto, ainda, é bastante inequívoco. Arrastado e, por vezes, intencionalmente impreciso, pode até desagradar a alguns, com razão, mas por fim acaba sendo mais um diferencial no todo que forma a aura de artista completo e destacado que o circunda.
Pra mim, guardadas as devidas proporções, Arrocha é o Caravana Sereia Bloom masculino de 2012. A MPB alternativa tem muito o que crescer ainda, e boa parte desse crescimento se dará pelas mãos nipônico-paulistas e indígenas de Curumin. É o retrato da miscigenação em forma de música.


[ MySpace / LastFM ]

Tracklist:
  1. "Afoxoque" - 3:17
  2. "Selvage" - 3:22
  3. "Treme Terra" - 4:15
  4. "Passarinho" - 3:23
  5. "Paris Vila Matilde" - 2:12
  6. "Tupãzinho Guerreiro" - 2:21
  7. "Vestido de Prata" - 4:11
  8. "Doce" - 3:11
  9. "Blinblin (Intro)" - 0:14
  10. "Blinblin" - 1:54
  11. "Sapo Garimpeiro" - 1:19
  12. "Accorda" - 2:03
  13. "Pra Nunca Mais" - 2:31
  14. "Bambora" - 1:01


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    quinta-feira, 26 de abril de 2012
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    Moreira, Bezerra e Dicró - Os 3 Malandros In Concert

    6 comentários
    Gênero: Samba / Partido Alto
    País: Brasil
    Ano: 1995

    Comentário: "Dicró cantando bolero do compositor Ravel / Bezerra cantando ópera, parecendo um menestrel / e eu, Moreira da Silva, com a minha voz de veludo / chego a quebrar cristais quando dou o meu agudo". É nesse tom jocoso, como não poderia deixar de ser, que se inicia um disco que pode ser considerado um verdadeiro tratado em matéria de malandragem. Moreira da Silva, Bezerra da Silva e Dicró, três sambistas que possuíam extrema habilidade em retratar o cotidiano daqueles que escolheram a personalidade do malandro para se promover, lançaram, em 1995, o presente disco, satirizando Os Três Tenores, Plácido Domingo, José Carreras e Luciano Pavarotti, que se uniram na década de noventa.
    É extremamente satisfatório ouvir cada uma das faixas, que geralmente contam uma história, algo corriqueiro no morro, constatando-se a habilidade desses compositores em transpassar sua própria vida às letras de seus sambas.
    O que impera, aqui, é o politicamente incorreto: tirar vantagem dos outros, lei do morro, drogas, vadiagem, boêmia, mulherada e, até mesmo, assassinatos são temas abertos, tratados sempre com um quê de crítica social. É hilário, por exemplo, o esquete de O Político, que, ao não ser reeleito, começa a ameaçar seu suposto eleitorado, dizendo até mesmo que iria abrir uma CPI contra os eleitores corruptos. Ou então, a distorção de valores: em Na Subida do Morro, Moreira se indigna - e depois dá cabo dele - com um malandro que bateu em uma mulher. O problema, no entanto, não é ele ter agredido uma fêmea, mas sim ter batido numa mulher que não é a dele.
    Polêmicas à parte, a construção do disco é genial, e a ambientação é feita de maneira maestral. Algo raro de se ver hoje em dia, em que o tal do politicamente incorreto é explorado de maneira forçada, para se atrair atenção a qualquer custo, quando falamos do mundo humorístico.
    Há algum tempo eu não consultava a obra de nenhum desses três saudosos artistas, mas hoje o fiz por um motivo triste: o último dos malandros, Dicró, faleceu no Rio de Janeiro, aos sessenta e seis anos. Preste-se essa homenagem, mais que merecida. Se juntará agora aos outros dois, que já haviam partido.

    UPDATE: descobri um outro fato que me fez admirar ainda mais a pessoa de Dicró. Durante sua carreira, travou uma verdadeira guerra contra o ECAD, o famigerado órgão de arrecadação e distribuição dos direitos autorais, dizendo que muito arrecadava, mas pouco ou nada distribuía. A noção de justiça estava sempre em sua mente. Que descanse em paz.


    Tracklist:
    1. "O Recital"
    2. "Os Três Pagodeiros do Rio"
    3. "Ópera do Morro"
    4. "Malandros In Concert"
    5. "Ressuscita Ele"
    6. "Chave de Cadeia"
    7. "Malandro Não Vacila"
    8. "O Político"
    9. "Na Subida do Morro"
    10. "Dava Dois"
    11. "Lugar Macabro"
    12. "Jogando com o Capeta"
    13. "Rua da Amargura"


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      sábado, 24 de março de 2012
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      Baiano e os Novos Caetanos - Baiano e os Novos Caetanos

      2 comentários
      Gênero: MPB, Forró, Samba-rock
      País: Brasil
      Ano: 1974

      Comentário: Formado pelo humorista, cantor, compositor e ator Arnaud Rodrigues ("O Povo Brasileiro" e "Coronel Totonho" de A Praça é Nossa), pelo humorista, ator, escritor e pintor Chico Anysio e pelo músico Renato Piau, o Baiano e os Novos Caetanos, que faz uma pequena troca em seu título com os nomes do conjunto Novos Baianos (que estavam ganhando grande evidência na época) e Caetano Veloso, surgiu nos anos 70 apresentado como uma sátira ao tropicalismo cujo principais elementos eram o humor, o engajamento, a aparência nordestina e as críticas cantadas/interpretadas por Baiano e Paulinho Boca de Profeta (personagens de Chico Anysio e Arnaud Rodrigues, respectivamente, surgidos no Chico City). Além das letras e dessa estética humorística, o trio contava com um instrumental muito bem elaborado e criativo, cheio de referências e fazendo utilização de variados instrumentos. Contudo a sonoridade apresenta um outro diferencial por conta das palmas, assovios, gritos de platéia e frases soltas que fazem do disco uma espécie de quadro ao estilo de Chico City, mesmo.

      Mas por traz dessas óbvias características existe um disco de indignação à ditadura e apoio aos artistas presos e exilados durante este período negro. Mais especificamente, tanto os personagens como as músicas surgiram após a prisão e exílio de Caetano Veloso e Gilberto Gil, que nem mesmo fora devidamente noticiado por conta da censura. Este disco era como uma carta aberta, qualquer um poderia olha-la, mas somente aqueles que buscavam a liberdade iriam entendê-la e por isso tem seu lugar garantido ao lado de muitas outras cartas musicadas compostas naquela época.
      Cada faixa (onze ao todo) possui sua peculiaridade, mas todas transpiram brasilidade, seja pelos instrumentos utilizados, pelo ritmo, modo de interpretação dos humoristas, dizeres populares ou qualquer outra característica presente nesta pérola. É de certa forma um emaranhado de sonoridades nas quais podemos destacar a MPB e toda sua diversidade, além do samba-rock e forró.

      Este é o primeiro de uma série de cinco discos creditados ao Baiano e os Novos Caetanos e por isso cabe a você buscar conhecer os demais. Como você fará isso pouco me importa, apenas não deixe mais esta obra nacional somente aos ouvidos dos velhotes.

      Em tempo aproveito para deixar aqui meus pêsames a todos que, independente de preconceitos com certos canais e programas, puderam acompanhar, mesmo que parcialmente, a carreira do Chico Anysio, que está num patamar elevadíssimo dividindo espaço ao lado de outros grandes nomes do humor do país. Também vale relembrar a carreira e personagens de Arnaud Rodrigues, que fez parte dos meus tempos de intretenimento televisivo.

      sábado, 3 de março de 2012
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      Elton Medeiros - Elton Medeiros

      0 comentários

      Gênero: Samba
      País: Brasil
      Ano: 1973

      Comentário: Primeiro disco de Elton gravado em 1973. Produzido por seu grande parceiro, Paulinho da Viola. Elton aprendeu cedo a tocar saxofone e trombone e neste primeiro disco mostrou-se preciso na caixa de fósforos.

      Compondo desde criança, os sambas de Elton não são tão digeríveis quanto os de seu tempo, alguns que eu mesmo postei aqui. Suas melodias são mais complexas, suas composições são mais profundas e os versos nem sempre rimados. Embora a qualidade é nossa velha conhecida.

      Neste álbum, o fruto da parceria com Cartola aparece em O Sol Nascerá. Sei Chorar é outra do mestre. Um disco antológico com todos os elementos clássicos do samba, obrigatório aos simpatizantes.

      LastFM

      Tracklist:
      01. Avenida Fechada
      02. Pra Bater Minha Viola
      03. Pressentimento
      04. Meu Carnaval
      05. Fotos e Fatos
      06. Mascarada / O Sol Nascerá
      07. Vem Mais Devagar
      08. Sebastiana
      09. Sandália Dourada
      10. Vazio
      11. Hora H
      12. Sei chorar

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      quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
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      Seu Jorge & Almaz - Seu Jorge & Almaz

      1 comentários
      Gênero: MPB/ Samba/ Soul/ Funk/ Chillout/ Rock/ ...
      País: Brasil
      Ano: 2010

      Comentário: Ou também conhecido por aí como Seu Jorge e Nação Zumbi, só porque Almaz é o projeto paralelo de Pupillo — um dos melhores guitarristas de nosso tempo — e Lucio Maia — notável baterista —, integrantes da Nação Zumbi, o espalhando pelo mundo com um certo toque de exagero na descrição, mas válido quanto à sonoridade. Apesar disso não há dúvidas que os dois trazem consigo o espírito da nação morto-viva, e quando digo isso não estou referindo só do manguebeat.
      Porém Almaz conta ainda com o reconhecido compositor de trilhas sonoras Antonio Pinto, a parceria com o um dos artistas brasileiros em maior evidência no momento, o Seu Jorge e o produtor Mario Caldato Jr., que já trabalhou com os Beastie Boys, Jack Johnson, Bebel Gilberto entre outros.

      Com essa grata união surgiu uma sonoridade bem própria e surpreendente, mesmo que todas as músicas apresentadas no disco sejam de outros autores. Os músicos reformularam todas as músicas em que meteram a mão de forma quase genial, abusando da diversidade nas escolhas e nas referências vivenciadas. De Jorge Ben à Kraftwerk, de Martinho da Vila à Michael Jackson reproduzem com extrema desenvoltura um misto de sonoridades sem soar forçado. O resultado, que vai além de 'abrasileirar' músicas em inglês, nos ajuda a derrubar certas barreiras e pensamentos de possíveis incompatibilidades entre gêneros.

      Agora a esperança é dos caras começarem a lançar músicas próprias, mas um outro disco cover seria muito bem recebido. Taí, um belo de um supergrupo nacional.

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      segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
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      Nelson Sargento - Sonho De Um Sambista

      2 comentários


      Gênero: Samba
      País: Brasil
      Ano: 1979

      Comentário: Nelson Mattos ou, como ficou conhecido por sua mais alta patente no exército, Nelson Sargento é uma das grandes personalidades da música brasileira. É escritor, ator, artista plástico e compositor de, dentre outros, o clássico "Agoniza Mas Não Morre" de 1979.

      Integrou o grupo  A Voz do Morro, ao lado de Paulinho da Viola, Zé Kéti, Elton Medeiros, Jair do Cavaquinho, José da Cruz e Anescarzinho. Entre seus parceiros de composição musical, estão Cartola, Carlos Cachaça, Darcy da Mangueira, João de Aquino, Pedro Amorim, Daniel Gonzaga e Rô Fonseca.

      O primeiro disco solo de Sargento conta com seus maiores sucessos. Os fãs do Emicida já devem estar familiarizados com a belíssima "Por Deus Por Favor" pois o sample da música se encontra na primeira mixtape do MC. "Falso Amor Sincero" e "Primavera" são outras duas bem famosas.

      Bem, não há muito o que comentar. Clássicos são clássicos e os fãs da música brasileira baixarão. Mesmo porque eu não sei se a coletânea de Samba vai sair.

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      Tracklist:
      01. Triângulo Amoroso
      02. Falso Moralista
      03. Agoniza Mas Não Morre
      04. A Noite Se Repete
      05. Muito Tempo Depois
      06. Minha Vez De Sorrir
      07. Sonho De Um Sambista
      08. Infra Estrutura
      09. Primavera
      10. Por Deus Por Favor
      11. Falso Amor Sincero
      12. Lei Do Cão

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