Mostrando postagens com marcador MPB. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador MPB. Mostrar todas as postagens
quinta-feira, 11 de agosto de 2016
Avatar

As Bahias e a Cozinha Mineira - Mulher

1 comentários


Gênero: MPB / Rock / Blues
País: Brasil
Ano: 2015

Comentário: Tirando a poeira do teclado, aqui estou, depois da metade desse conturbado ano de 2016, me colocando novamente a serviço desse blog que eu não consigo deixar de amar. Bem, então vamos lá, pra não perdermos o fio da meada e etc. As Bahias e a Cozinha Mineira veio até mim pela indicação de um amigo, aliás, Gilson, muito obrigado.

Mulher, primeiro registro do grupo carrega uma infinidade de referências que eu amo: passa pela catarse que é o Johnny Hooker, a força de Gal Costa, o encanto que é a Amy, a musicalidade regional nordestina, tropicália, brasilidade e afins, Assucena Assucena e Raquel Virgínia conseguem com seus vocais transmitirem tamanha visceralidade e entrega que me fizeram tirar a bunda da cadeira e vir escrever um pouco desse álbum aqui, mesmo que eu esteja enferrujado para isso.

A sonoridade da banda tem muito dos ritmos musicais nordestinos, destaque para Esperança no Cafundó um xote lindo demais, bem ritmado, que dá vontade de sair dançando por ai -  que ainda conta com uma sanfona e um vocal bem tristonhos lá do meio pro fim, caindo para um ritmo bem balançado, que nasce de ótimas cordas e se encaminham prum final bem melódico e que se une a uma guitarra um tanto experimental da faixa seguinte, Lavadeira Água, que apresenta uma percussão advinda do maracatu, aliás, configurando numa ótima passagem do álbum, vale ressaltar.

A música que abre o álbum Apologia ás Virgens Mães é uma das músicas mais belas que ouvi esse ano, seja em ritmo ou poesia. Não consigo descrever em palavras o que essa música me causa, mas ela me entorpece de uma maneira, acalenta, acalma, mas também revolta, inquieta: arrisco-me a dizer que foi a melhor escolha da banda em iniciar o álbum com ela: é forte, mostra variedade musical, uma letra bem construída, apresenta lindas referências e o melhor, já encanta a primeira ouvida, pelo menos para mim funcionou.

Sendo nós, do país que mais mata travestis e transexuais, Mulher se coloca como local de destaque no enfrentamento desse número horrível, já que a banda conta duas mulheres trans nos vocais, o álbum se faz resistência poética diante do mundo em que vivemos. Tendo em suas letras um forte teor político e feminista em suas composições, revelando nas camadas de seus textos as chagas de ser mulher hoje no Brasil. O álbum vai do carnaval ao político sem nunca perder o tom, sem nunca perder sua estética.

Destaco ainda no álbum a melódica Uma Canção Para Você - Jaqueta Amarela, a dolorida Melancolia (o início instrumental da música é, puta merda, uma das coisas mais lindas e doloridas do álbum), a experimental e já citada Lavadeira Água e a essencial Apologia ás Virgens Mães.



Tracklist:
01.Apologia às Virgens Mães
02.Josefa Maria
03.Lata d'água na cabeça
04.Esperança no Cafundó
05.Lavadeira Água
06.Ó Lua
07.Comida Forte
08.Foi
09.Uma canção pra você
10.Melancolia
11.Mãe Menininha do Gantois
12.Fumaça
13.Reticências

Ouça: Spotify

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016
Avatar

Bandas Amigas: Galego

0 comentários

Artista paulistano que vai do transe atlântico ao trance espacial. Se aventura por diversas linguagens. Em uma de suas musicas diz: "keep me out of the mold, out of the line, outside the rules/ let me follow the unknown, i want to burn me all, all inside you (mantenha-me fora do molde, fora da linha, fora das regras/ deixe-me seguir pelo desconhecido, eu quero me queimar todo, todo dentro de você).

Ao fixar o texto acima, proveniente da página do artista, e encerrar o post desta forma é inevitável não transmitir um sentimento de preguiça. Mas verdade seja dita: a descrição acima realmente resume muito bem o trabalho de Galego.


Mas vale ressaltar diferenças entre seus dois — e que não sejam os únicos — discos. Com uma sonoridade e estética claramente importada do hemisfério norte, um gringo despojado, o disco The Man of Tomorrow lançado em outubro de 2015 faz eficaz uso do eletrônico e do indie/rock alternativo, além das letras em bom inglês. Ou se preferir como o próprio músico avalia: canções que passeiam de forma ousada pelo universo eletrônico-indie-rock-algumacoisa. The Man of Tomorrow se mostra um trabalho realmente pessoal, com Galego participando de todas as etapas (composição, gravação, produção, mixagem e masterização) sozinho.


Em contraste, Transeatlântico (2014) é aquele disco brasileiro para quem gosta da chamada "nova bossa", "nova mpb", no qual temos uma grande variedade sonora, tanto de gêneros como de épocas da música, sendo compatível com o som de músicos e bandas como Leo Cavalcanti, Curumin (que inclusive faz uma participação no disco), Karina Buhr, Cidadão Instigado, ou seja, um tanto swingado, um tanto romântico, um tanto pop, um tanto indie, um tanto tanta coisa. Assim não é difícil imaginar que Transeatlântico foi aceito facilmente, conseguindo o destaque que merecia.
Neste disco Galego dividiu as tarefas com Cris Scabello e Mauricio Fleury, membros do Bixiga 70, além de outros nomes.

Ambos os discos podem ser baixados no site do músico e também estão disponíveis para audição no Spotify e SoundCloud. Ah, e curta a sua página no Facebook.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016
Avatar

Luiz Melodia - Pérola Negra

0 comentários
Gênero: MPB / Samba /  Avantgarde
País: Brasil
Ano: 1973

Comentário: Do morro São Carlos, Estácio, Rio de Janeiro, nasce um dos maiores nomes da musica brasileira. Luiz Carlos dos Santos, ou Luiz Melodia é um dos nomes de maior peso da MPB. Carioca, guerreiro, poeta, Luiz Melodia enfrentou a dureza do tempo até que sua paixão pela musica e, sobretudo talento, foi finalmente encontrado por ouvidos próprios como os de interpretes na altura de Gal Costa e Maria Bethânia, que gravaram algumas composições do músico pouco tempo antes do lançamento de seu disco de estreia: Pérola Negra.

Filho do músico Osvaldo Melodia, Luiz sempre foi atento à arte e à sonoridade. Frequentava, com seu pai, rodas de samba e fez disso sua escola. Escola que foi completada pelo interesse no blues, soul, rock e outros gêneros musicais que viriam mais tarde a completar a linguagem sonora do artista. Faz-se assim uma das mais importantes obras da Música Popular Brasileira, que é lançada em 1973 e mostra então, mais uma vez com genialidade, a faceta do músico brasileiro de conseguir explorar a diversidade e reformar a identidade.

Pérola Negra, como já disse, carrega consigo uma bagagem enorme de influencias que até então estavam começando a ser finalmente exploradas por músicos brasileiros. Como um disco pós-tropicalista, é de se esperar algo deveras atípico ao já escutado no Brasil, e assim o é. Luiz Melodia soube dar vida à experiência perfeita entre elementos pouco usados no meio do samba e do popular com naturalidade e acuidade.

A poesia de Luiz Melodia é algo que se destaca por si só, há uma magia em suas palavras que encanta e ensina. Estácio, Eu e Você começa o álbum com um sambinha simpaticíssimo guiado à cordas e sopro. Vale quanto pesa com belos dedilhados encanta mais tarde com os metais e swing tão próprios. Estácio, Holly Estácio, gravado por Bethânia outrora, e Abundantemente Morte são aulas de poesia e musicalidade. Pra Aquietar volta ao swing’n’roll genial de Luiz Melodia. Perola Negra, que dá nome ao disco é de novo um festival de metais com uma pitada soul incrivelmente enérgica, e profundidade poética e harmonia estética que marcaram para sempre a MPB. Magrelinha dá ótima continuidade à Pérola Negra, e foi acompanhamento sonoro em uma cena do filme Cidade de Deus, fazendo uma belíssima aparição no cinema. Farrapo Humano e Objeto H levam de novo o disco lá pra cima, com um swing jazzístico distinto. Forro de Janeiro, a ultima faixa é uma menção interessante ao ritmo nordestino.

1973 é um ano incrível na musica brasileira, e esse é talvez o melhor lançamento deste.


Tracklist:
1. Estácio, Eu e Você - 2:16
2. Vale Quanto Pesa - 3:11
3. Estácio, Holly Estácio - 2:30
4. Pra Aquietar - 2:47
5. Abundantemente Morte - 3:28
6. Perola Negra - 2:50
7. Magrelinha - 2:07
8. Farrapo Humano - 3:12
9: Objeto H - 2:25
10. Forró de Janeiro - 3:15

Ouça aquispotify
sábado, 31 de outubro de 2015
Avatar

Drops de bacon #15: Sambas estranhos e afro-ruídos: 3 discos/pt.01

0 comentários

Este é o primeiro de uma sequência de sei-lá-quantos posts que pretendo escrever para apresentar sempre discos que tenham uma forte relação com a cultura e religiões afro, mas que fuja, ou pelo menos não se enquadre totalmente na ampla categoria que é a denominada Música Popular Brasileira (MPB), seja por conter um som muito desconstruído/experimental, por trazer de volta elementos tão rústicos que perderam a simpatia das comunidades brasileiras ao longo dos anos e da modernização, chegando a causar certa estranheza em dias atuais, ou ainda claramente fazer referências a ingredientes religiosos que são postergados ou mesmo discriminados num país onde o próprio negro virou cristão.

Desta forma, pretendo aqui adotar o termo Música Torta Brasileira (MTB), — assim como nosso parceiro Fernando Augusto Lopes em seu texto para o Floga-se — especificamente associado à cultura negra (e ao samba, que com alegria e bom humor chamo de samba torto, estranho, manco, macumbeiro, etc), para designar estas estranhezas que tantos artistas vem produzindo durante décadas de música brasileira. No entanto, não se apeguem tanto a isso. Assim como a MPB pode garantir inúmeras experiências, boas e incômodas, solenes e brutais, a MTB será apenas um tipo de temática, mas não um gênero musical rigoroso.





Juçara Marçal & Cadu Tenório – Anganga
Ano: 2015
Gênero: Afro-noise
Selo: Sinewave / QTV 
Arte: Cadu Tenório
Streaming: BandCamp
Download: SineWave

Uma das grandes surpresas de 2015 foi a união de dois “recentes” grandes nomes da música torta brasileira, cenário esse que fervilha ao nível underground mas que tem chamado atenção mesmo até de alguns grandes portais. Se de um lado Juçara Marçal é endeusada por sua interpretação vocal ímpar, já bastante notável desde a época com as mulheres do Vésper e com o grupo A BARCA, e por uma carreira que vem sendo tomada cada vez mais de samba estranho — principalmente pelas parcerias com Kiko Dinucci e Thiago França —, do outro Cadu Tenório é um respeitável compositor de música perturbadora e desconcertante, obviamente admirado por um nicho específico, mas demonstrando que bebe de várias fontes musicais diferentes e, ao compor, nos ambienta em meio aos cascalhos e ao aço, ao tempo frio e metálico.
Assim como em Sobre A Máquina, VICTIM! ou Ceticências, Anganga soa quebrado e desgraçado, mas com um plus mítico e, de certa forma aterrorizante para ouvidos não acostumados criados num país predominantemente cristão, onde o diferente ainda causa estranheza e mesmo, infelizmente, repulsa. Neste caso porém, é justificável, já que Cadu e Juçara não estão nos entregando uma música de ninar. O disco consiste no atrevimento da dupla em desconstruir e reinterpretar cantos de trabalho, chamados de vissungos, entoados pelos negros nos garimpos em Minas Gerais e cantos do Congado Mineiro, anteriormente recolhidos e transcritos pelo filósofo e linguista mineiro Aires da Mata Machado Filho, em 1920, e interpretados primeiro por Clementina de Jesus, Geraldo Filme e Tia Doca da Portela na obra O Canto dos Escravos, de 1982.
Foto: Divulgação
De acordo com a descrição na Sinewave, “Anganga é a entidade suprema do povo banto (“Anganga Nzambi”). A palavra consta do canto do congado “Grande Anganga Muquixe”, cujos versos indicam reverência àquele cuja “gunga não bambeia”, o mestre, o mais velho. Trata-se de uma expressão que diz respeito à reverência ao passado.”.

O disco ainda conta com duas composições próprias de Cadu Tenório, “Eká” e “Taio”, também com colaboração de Juçara Marçal. O resultado é um afro-noise sufocante, murmurador, agonizante e estranhamente belo que parece implorar por liberdade.

A mixagem e masterização recebem os cuidados de Emygdio Costa (Fábrica, Sobre A Máquina), velho companheiro de Tenório.





Virgínia Rodrigues - Mama Kalunga
Ano: 2015
Gênero: Samba Torto / Samba Macumba
Selo: Independente (Dist. Tratore)
Arte: Cláudio Bispo (escultura) / Sora Maia (foto)
Streaming: Spotify

Mama Kalunga é o quinto disco de Virgínia Rodrigues lançado sete anos após Recomeço, disco de 2008, e, contando com várias participações, destaca-se por sua solenidade ao narrar a presença negra no mundo, e especialmente no Brasil, com músicas que vão de “sambas eruditos” a composições em tons ritualísticos. Tais participações fazem parte da estrutura primordial do disco, pois Virgínia aqui não compõe, “apenas” interpreta — de corpo e alma.
Aliás, é desmerecer o trabalho alheio dizer que os nomes presentes no disco foram “meras” participações. O repertório, a começar por Tiganá Santana (e também produtor ao lado de Sebastian Notini), corresponde a maioria das faixas: “Mama Kalunga”, “Mukongo”, “Mon`ami”, “Yaya Zumba” (com frases pela voz da atriz Ruth de Souza) e “Dembwa (10 de Agosto)”, composições em sua maioria interpretadas nas línguas africanas kikongo e quimbundo por Virgínia e que fazem a frase “sujo de barro e espírito” — de Tiganá, em apresentação do disco — ter total sentido. Seguindo, Paulinho da Viola é evidenciado com “Nos Horizontes do Mundo”, composição de 1978 e que já fora experimentada por cordas vocais feminina com Leila Pinheiro, em 2005. Gilson Nascimento é responsável pela música que abre o disco, “Ao senhor do fogo azul”, dirigida a Nkosi/Ogum — o guerreiro, o lutador, o forjador, o senhor do ferro — orixás de grupos étnicos diferentes, mas mitologicamente semelhantes. Por outro lado, “Vá Cuidar de Sua Vida”, de Geraldo Filme se afasta da mitologia e, de forma racional, nos entrega uma letra provocativa (vale muito ouvir a versão de Itamar Assunção, presente no disco Pretobrás (1998)), travestida de um ritmo razoavelmente bem humorado e com trechos como “Vá cuidar da sua vida. Diz o dito popular. Quem cuida da vida alheia. Da sua não pode cuidar” e "Negro jogando pernada. Negro jogando rasteira. Todo mundo condenava. Uma simples brincadeira. E o negro deixou de tudo. Acreditou na besteira. Hoje só tem gente branca. Na escola de capoeira".
Foto: Sora Maia
O maestro, compositor e arranjador Abigail Moura, criador da Orquestra Afro-Brasileira, apresenta em “Babalaô / Amor de Escravo” uma canção leve, compassada e bela. As duplas Roberto Mendes e Nizaldo Costa, com “Teus Olhos em Mim”, e Moacir Santos e Nei Lopes, com “Sou Eu” (e participação de Tiganá Santa), além de “Luandê”, de Ederaldo Gentil (do disco Pequenino (1976)), trazem romantismo a Mama Kalunga ao mesmo tempo em que mantêm a estética afro que o disco se propôs desde o início. Por fim, “Cântico Tradicional Afrocubano / Belén Cochambre”, de domínio público, é a experiência máxima do disco no quesito “música raiz” que se pode ter, mesmo com meros 2 minutos e 28 segundos, onde Rodrigues segue acompanhada da cantora peruana Susana Baca, ex-Presidente da Comissão de Cultura da Organização dos Estados Americanos (2011 — 2013).

Enfim, um álbum rico, cheio de sentimentos e elementos, heranças da África e povo negro brasileiro e que incluem algumas interpretações nas línguas africanas kikongo e quimbundo de forma honesta. A imersão é garantida.




Juçara Marçal e Kiko Dinucci - Padê
Ano: 2008
Gênero: Samba Torto / Samba Macumba
Selo: Tratore / Selo Cooperativa
Arte: ?
Streaming: Spotify
Download: Kiko Dinucci.com.br

Provavelmente as bases teatrais de Juçara não foram em vão e a Companhia Coral parecem ter sido, de grande forma, responsáveis pela desenvoltura com a qual a cantora encara e domina o samba torto, mas ainda dançável e possível arriscar alguns passos, presente em Padê, primeiro trabalho junto do músico e já praticamente um ser onipresente Kiko Dinucci. Este por sua vez basta qualquer pesquisa ao “oráculo” para entender as dimensões de seu trabalho como músico e alimentador cultural, encabeçando ou se vinculando a vários projetos como Bando AfroMacarrônico, Duo Viola, Passo Torto, Metá Metá ou mesmo sozinho, como em Na Boca Dos Outros (2009). Aliás, seria mesmo injusto não citar outras notórias participações de ambos. Sendo sucinto: “Fio de Prumo (Padê Onã)” (Juçara), do álbum Convoque Seu Buda (2014) de Criolo; “Samba Do Fim Do Mundo” (Juçara e Fabiana Cozza), do álbum O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui (2013) de Emicida; A Mulher Do Fim Do Mundo (2015) (Dinucci e vários), o mais recente disco de Elza Soares; “Retrato na Praça da Sé” (Dinucci), do álbum Vira Lata na Via Lactea (2014) de Tom Zé; RÁ! (2015) (Com a trupe Thiago França, Kiko Dinucci Juçara Marçal e outros), novo trabalho do rapper Rodrigo Ogi e por aí vai.

Padê — segundo dicionário Michaelis: “Cerimônia em honra a Exu, e que antecede as festas do candomblé”, “Homenagem a Exu, antes de qualquer cerimônia do candomblé, para que ele não estrague a festa” e ainda “desjejum que se oferece ao Exu, antes do início das cerimônias nos candomblés; é constituído de pipoca com azeite de dendê, seu alimento preferido” —, já com seus sete anos de idade, segue uma linha mais próxima do samba manco e macumbeiro ouvido em "pastiche nagô" (2008), não chega a ser metalizado como as músicas de Metá Metá (embora seja uma evolução — e por evolução entendam simplesmente como “mudança”, não “melhoria” ou “piora”) ou como o disco de Vicente Barreto, Cambaco (2015) (Kinucci também está aqui). Tão pouco chega a ser tão Encarnado (2014) (vale ressaltar que este disco figurou a maioria das listas no nosso #Top2014), mas é possível ouvir tudo junto, incluindo um Passo Torto para nenhuma entidade botar defeito.
Foto: Bruno Poletti/Folhapress
De acordo com o texto de nosso editor Bruno Lucas “(...)desde o seu título o álbum se oferece como um registro espiritual nas bases das religiões africanas em solo brasileiro(...)”, portanto Padê é audição obrigatória para quem se interessa pelas raízes culturais e religiosas de nosso povo enquanto degusta uma maravilhosa obra de arte.
Para informações complementares quanto aos elementos sonoros e culturais presentes no disco, além de uma segunda visão sobre o mesmo, Bruno Lucas já deu conta do recado em seu ótimo post (clique).



Links interessantes:

PENSE OU DANCE: MÚSICA TORTA BRASILEIRA, post do nosso parceiro Fernando Augusto Lopes, ser pensante por trás do Floga-se.

O Povo Brasileiro, documentário de Darcy Ribeiro.
sábado, 3 de outubro de 2015
Avatar

Elza Soares - A Mulher Do Fim Do Mundo

0 comentários

Gênero: Samba / Samba-rock / Rap / Jazz / Vanguarda Paulista
País: Brasil
Ano: 2015

Comentário: É extremamente difícil saber como eu vou começar essa resenha. Mas comecemos, mesmo sem saber de onde, mesmo sem saber como. Na primeira faixa já temos um poema musicado do Oswald de Andrade, Coração do Mar, na voz rouca, potente, sofrida, visceral dessa rainha que é Elza Soares.

Tenho para mim que a abertura do álbum com Coração do Mar e Mulher Do Fim Do Mundo, a faixa-título, resumem muito bem o conceito que o álbum quer passar. Esse samba que é choro, que arrebata, sofrido, estranho, cheio de barulhos sujos, vanguardista - que depois de setenta anos de carreira, desabrochou em um primeiro álbum de inéditas. E inserida nesse universo de apocalíptico e apoteótico, Elza canta até o fim a negritude, a força da mulher, o sexo e a dor.

Maria da Vila Matilde funciona como uma espécie de retrato para várias mulheres que cansaram de serem tratadas como maltrapilhos pelos seus companheiros. Ela ameaça jogar água fervendo, soltar os cachorros e promete - ele vai se arrepender de levantar a mão pra ela, ah se vai. A faixa é um samba de ritmo estranho, que se apropria da falta de compassos, de cordas soturnas, de uma pequena referência ao partido alto, que logo se quebra para voltar a sua excentricidade habitual. Ah, e que faixa, não consigo passar por ela e ouvir uma vez só, por sinal.

O álbum foi todo composto, ritmado e musicado pelos excelentes artistas da cena de vanguarda paulista, responsáveis também por álbuns que também já nasceram clássicos, como o Encarnado, da Juçara Marçal lançado no ano passado, como Kiko Dinucci, Marcelo Cabral, Rodrigo Campos, Felipe Roseno e etc. A produção ficou por conta do bateirista Guilherme Kastrup - e com cada música pensada especialmente para os temas e a voz da Elza, não seria difícil de prever a sensação que esse álbum seria. A Mulher Do Fim Do Mundo é uma explosão de dor, martírio, erotismo, brasilidade, samba, rock, experimentações. É difícil rotular esse álbum dentro de uma caixa, e quando isso acontece com um trabalho, é quase certo de que ele está no caminho certo. E esse álbum é isso: é um percurso em um caminho tortuoso e difícil, mas com toda a certeza, certeiro.

Elza não tem medo de palavrão, não tem medo de abrir feridas, de se fazer erótica - e é justamente isso que faz em Pra Fuder, um samba muito bem marcado, de percussão gradual, de metais entrelaçados a tudo de vocal visceral, synth e etc. O swing que a faixa apresenta é latente e sedutora, principalmente pela entrega da voz da Elza, que sabe onde ir nos momentos certos, sabe diminuir e aumentar sua intensidade, dosar e entregar o deu desejo.

É difícil não se alongar nas discussões sociais, musicais e culturais que esse álbum carrega. Pra mim ele funciona como a comprovação de que a cultura e a música nacional vão bem, obrigado. Os temas são atuais, vão do rap de Firmeza?!, o acústico de Solto, com a voz da Elza em evidência, até a musicalidade de um poema modernista! E todos estão juntos nessa miscelânea de mundo prestes a acabar, de choro que não é nada além de carnaval, de dança, de soturnidade, de uma mulher curando suas próprias feridas após ter enterrado um filho - sentimos a agonia e a libertação que esse trabalho exala e oh, só podemos agradecer pelo registro, por podermos ser retirados nessa contradança que a Elza nos convida a fazer.

A Mulher Do Fim Do Mundo é também uma Menina que Dança - é o multiculturalismo brasileiro reafirmando suas raízes, reafirmando sua negritude, usando aqui como exemplo as batidas da faixa O Canal, sua identidade; sua voz. No fim desse mundo que não ainda não acabou só me sobra um vazio dentro do peito - assim como o vazio que o álbum também apresenta - e a sensação de que os deuses estão errados: a humanidade não é imagem e semelhança, é carnaval.




Tracklist:
01. Coração Do Mar
02. Mulher Do Fim Do Mundo
03. Maria Da Vila Matilde
04. Luz Vermelha
05. Pra Fuder
06. Benedita
07. Firmeza?!
08. Dança
09. O Canal
10. Solto
11. Comigo

Download: Site Oficial

segunda-feira, 21 de setembro de 2015
Avatar

Johnny Hooker - Eu Vou Fazer Uma Macumba Pra Te Amarrar, Maldito!

0 comentários

Gênero: MPB / Glam Rock
País: Brasil
Ano: 2015

Comentário: O Johnny é uma catarse. Evocando a filosofia aristotélica, encontramos o conceito de catarse como “purificação das almas por meio de uma descarga emocional provocada por um drama” e logo na primeira faixa, a que dá nome ao álbum, Eu Vou Fazer Uma Macumba Pra Te Amarrar, Maldito!, a gente percebe essa catarse atrelada na poética do cara.

Aliás, esse resenha é dedicada a Ariels porque esse álbum é verdadeiramente dela (a gente dividiu e estamos a procura de um álbum pra mim).

“É, talvez algum dia / Eu vou te encontrar / E só se eu te implorar / Conte mentiras pra me fazer sonhar”, o drama está intrincado na letra tal qual na sonoridade com os metais advindos de uma novela mexicana – e não pensem que é uma ofensa, longe disso, as novelas mexicanas são permeadas com todo o drama visceral que o Johnny apresenta na faixa, toda a macumba pra amarrar seu amor maldito, assim, libertando-se do sofrimento que é aquele amor por meio da percussão bem ritmada e do vocal quase gritado mais pro final da faixa: como já disse, catártico.

Em Volta, Johnny mantém a sonoridade bem atrelada aos metais, algo bem latino, kitsch, quase brega – mas funciona. Funciona porque as letras pedem esse drama excessivo, pedem essa esse erotismo que ele coloca em suas interpretações; essa tragédia bem ritmada e fluida, não caricata, mas real, pulsante, falando tudo o que precisa ao mesmo tempo e sem se tornar uma cacofonia irritante: o drama mantém cada coisa em seu lugar.

O álbum dói. Alma Sebosa, que fora trilha sonora de uma novela das sete da Globo, mantém a mesma pegada que as anteriores, só que na faixa há algo bem mais mariachi, os metais em maior evidência em um ritmo mais rápido, bem ornamentados com a percussão dançante. Vale também ressaltar a ótima versão de Alma Sebosa em espanhol que joga ao quadrado todas as referências sonoras presentes na versão em português. É uma faixa com uma característica que é bem recorrente no álbum, até, mas não falha, em momento algum. Nem cansa, longe disso, porque no decorrer da mesma temos uma guitarra que vem se juntar com toda a potência que o álbum apresenta – e se mantém assim em quase toda sua extensão.

Algo que quero deixar frisado aqui é a poesia das letras. Nas quatro primeiras faixas, com Chega de Lágrimas se afastando um pouco das linhas dos metais presentes até então, há reinvenções de amores descontentes; perdas, danos, ganhos, acertos e erros. O que me atrai no álbum é o medo de não se esconder, as composições são altamente doídas e existenciais, relatam casos amorosos das mais variadas formas, resfolegam na lama, não se salvam de maneira alguma - as composições não têm medo de se tornarem piegas ou caírem no brega mais do mesmo, no brega farofa que a gente tanto amo, elas realmente viram poesias embaladas por uma sonoridade que só as faz crescer.

Amor Marginal ganhou uma gravação um pouco menos soturna do que a do álbum anterior, mas ainda assim agrada. É ela que, para mim, funciona como o ponto de ruptura de tudo que vinha anteriormente acontecendo no álbum. Ela é mais lenta, mais sofrida, tem uma pitada de ultrarromantismo, funcionando também muito bem com a faixa seguinte, Segunda Chance, que começa num voz e violão incrível.

Aliás, falando ainda de Amor Marginal, ontem fora lançado o belíssimo clipe da faixa. Uma incrível interpretação do Luiz Miranda com um texto original do Johnny funcionando como prólogo e, posteriormente, epílogo do mesmo. O clipe fora inspirado no ótimo filme de Javier Fuentes-León, Contracorrente, de 2009, que também narra o relacionamento de um homem casado com um “morador” do mar. O filme é belíssimo, vale a pena à procura e funcionou muito bem a vibe do mesmo com a música do Johnny – a atuação do Johnny, o cenário e o figurino são incríveis, você fica criando a narrativa daquele casal, daquela trilha mentalmente e tudo só se torna mais poético, mais catarse, por favor.

Finalizando a resenha tem a sensacional Você Ainda Pensa?. Letra e sonoridade estupendas, de uma dor fodida, de um amor real, de uma vida real, de um casal real. Sei lá, não consigo ver o Johnny longe de toda essa tragédia, desse buraco que ele não faz questão nenhuma de sair, ao contrário, ele te carrega pra ele, te faz sentir aquilo tudo, te faz sentir mal estar – te faz sentir bem com o teu próprio mal estar e para mim isso é o ponto máximo do álbum.

A catarse se faz presente nessa tragédia feita para ilustrar diversas faces de um amor maldito.


Tracklist:
01. Eu Vou Fazer uma Macumba Pra Te Amarrar, Maldito!
02. Volta
03. Alma Sebosa
04. Chega de Lágrimas
05. Amor Marginal
06. Segunda Chance
07. Boyzinho
08. Boato
09. Você Ainda Pensa?
10. Desbunde Geral
11. Alma Sebosa (Versão em Espanhol) 
 
Ouça: Spotify

 
terça-feira, 17 de março de 2015
Avatar

Céu - Ao vivo

1 comentários
Resultado de imagem para céu ao vivo

Gênero: Jazz / Reggae/ Dub / Hip hop / Afrobeat
País: Brasil
Ano: 2014


ComentárioFruto da cena nova cena paulistana Céu é um dos seus melhores exemplares. Atenta a diversidade sonora, a cantora vem desde 2005 apostando numa sonoridade híbrida da música negra, transitando livremente entre jazz, reggae, dub, hip hop e o afrobeat. Disco a disco, a cantora vem conquistando um maior número de adeptos.

Sua carreira fora iniciada há 10 anos com Céu, disco que já lhe rendeu certa atenção do público graças aos hits “Lenda” e “Malemolência” que figuraram em trilhas de novelas da Rede Globo. Na sequência foi a vez Vagarosa, álbum lançado em 2009, trabalho que figurou na lista de melhores do ano de várias publicações. O mais recente Caravana Sereia Bloom, de 2012, também percorreu os mesmos caminhos, obtendo reconhecimento ambos os lados, graças ao grande amadurecimento de suas características habituais.

Dona de uma voz inconfundível, lenta e sensual, Céu faz de suas composições (geralmente criadas em parceira com Gui Amabis, Lucas Santanna, entre outros) um retrato fidedigno de sua pessoalidade, transbordando paixão e beleza a cada verso.  

Aproveitando o sucesso conquistado ao longo dos últimos anos e a repercussão positiva da sua recente turnê (que percorreu o Brasil e também o exterior) acabou por resultar no seu primeiro registro ao vivo.

Gravado ano passado no Centro Cultural Rio Verde, em São Paulo, Céu ao vivo marca seu primeiro registro sob a batuta da Som Livre. A apresentação, que teve direção musical da própria cantora, contou também o apoio da Zeppelin Filmes e do coletivo The Wolfpack, que ficaram responsáveis pelo apelo visual.

O setlist da apresentação opta, acertadamente, pelo formato o melhor de... , pois percorre toda a carreira da cantora. Em sua maioria as faixas ganharam texturas muito próximas aos registros oficiais de estúdio, mas não deixa de ter suas surpresas. A faixa “Cangote” é exemplo desta seara, pois ganhou novos ares, tornando-a ainda mais dançante graças a melodias em ode ao carimbó, ritmo tradicional paraense.

Na ala das covers, outra característica recorrente a sua carreira, surge a agradável releitura de “Mil e uma noites de amor”, hit oitentista de Pepeu Gomes, trilha da novela “Roque Santeiro” que faz par ao hino “Concrete Jungle” de Bob Marley, cantor recentemente homenageado pela cantora na turnê Catch a fire, época em que tocava do maior ícone do reggae na íntegra.

Escudada por exímios músicos, a banda de apoio formada por Dustan Gallas (guitarrista e tecladista), DJ Marco, Lucas Martins (baixista) e Bruno Buarque (baterista) deixa a cantora à vontade, em entrega absoluta ao devoto público, composto por quatrocentas pessoas, que participa do espetáculo cantando cada um dos versos em uníssono durante toda apresentação.

Em síntese, Céu ao vivo, agrada, pois serve tanto para converter iniciados a sua música como também vale a apreciação dos já habituados. Passada a primeira década de bons serviços prestados Céu segue como uma das cantoras mais relevantes da música popular brasileira.       


(Site)


Tracklist:

1. Falta De Ar
2. Amor De Antigos
3. Contravento
4. Retrovisor
5. Grains De Beauté
6. Mil E Uma Noites De Amor
7. Cangote
8. Baile De Ilusão
9. Streets Bloom 10.
10 Contados
11. Malemolência Música Incidental: Mora Na Filosofia
12. Lenda
13. Concrete Jungle
14. Chegar Em Mim
15. Rainha


Ouça em: Deezer

terça-feira, 3 de março de 2015
Avatar

Los Hermanos - 4

0 comentários

Gênero: Alternative rock / MPB / Samba
País: Brasil
Ano: 2005

Comentário: Transição. Essa é a palavra que define o que 4, último álbum dos cariocas dos Los Hermanos, trabalho que celebra dez anos de seu lançamento em 2015. Controverso para época, o disco não agradou de imediato grande parte do público.

Aguardado por muitos, o sucessor de Ventura, disco solar e enérgico e de relativo sucesso, decepcionou fãs de longa data que se dividiram entre amar ou estranhar o novo rebento. A crítica, por sua vez, polarizou opiniões entre rasgar elogios ou não entender o porquê mais um recondicionamento sonoro. Mas afinal por quê tamanha disparidade?

De fato, para aqueles que acompanharam e devotaram a evolução sonora promovida em Bloco do eu sozinho, 4 representa mais uma guinada musical, a maturidade da maturidade, mas com certo estramento inicial, pois é perceptível a mudança gradual nas composições da dupla Camelo e Amarante, responsáveis por todo o repertório da banda.

Os acordes iniciais de "Dois barcos", canção de Marcelo Camelo, já denunciam que algo diferente estava por vir. As letras existenciais e melancólicas, marca inerente ao trabalho da banda, ainda estavam ali, mas o tom lúgubre e arrastado da canção causaram espanto nos já convertidos admiradores e avaliadores, que não esperavam uma imersão em melodias frias, conduzidas em sua maioria pelo piano de Bruno Medina e por arranjos orquestrados. Características como estas dominam grande parte do disco como percebe-se em "Fez-se mar", "Sapato novo" e "É de lágrima". 

Se Camelo opta por seguir novos caminhos, muito próximos a MPB clássica, Amarante responde, em menor parte, de maneira distinta apostando no que se poderia chamar de "velho Los Hermanos". O hit "O vento" (faixa esta que foi abertura de Malhação), a pungente "Condicional" e "Paquetá", com toda a sua latinidade, são conduzidas por guitarras que muito lembram o que a banda produziu nos primórdios.  

Passado todo este tempo, hoje é possível visualizar com clareza que 4 é um reflexo direto do que a dupla de compositores principais iria produzir de maneira solo anos mais tarde. Camelo seguiu a atmosfera mpbística experimental (como é perceptível nos discos Nós e Toque Dela). Já Amarante apostou em novas parcerias e formou a Little Joy, banda mezzo brasileira mezzo norte-americana, cuja sonoridade jovial alcançou relativo  sucesso. Ironicamente, tempos depois as sonoridades se inverteriam como é visível no disco de estréia da Banda do Mar (projeto de Camelo) e Cavalo (voo solitário de Amarante)  

Querendo ou não, 4 seguirá como o mais contrastante álbum da curta e meteórica carreira. Porém a sua influência e ousadia ainda reverbera na cena musical brasileira. Se algum disco brasileiro pode merecer título de marco zero do que hoje se conhece como "indie-sambinha" este disco tem grande culpa no cartório.

O que o futuro reserva à banda ainda é uma incógnita. Como não há perspectiva de um novo disco, por hora os fãs de longa terão que se contentar com a turnê caça-níquel que em outubro varrerá o solo brasileiro à preços exorbitantes.          

Tracklist:

01. Dois barcos
02. Primeiro andar
03. Fez-se mar
04. Paquetá
05. Os passáros
06. Morena
07. O vento
08. Horizonte distante
09. Condicional
10. Sapato novo
11. Pois é
12. É de lágrima

Ouça: Spotify

domingo, 24 de agosto de 2014
Avatar

Juçara Marçal e Kiko Dinucci - Padê

1 comentários

Gênero: MPB / Macumba
País: Brasil
Ano: 2008

Comentário:  Ultimamente, aqui no blog, tenho tentado postar algo que vá de encontro com músicas mais tradicionais, de raiz, que tenham uma ligação com uma certa resistência dentro de determinada cultura. Pois bem, creio que dentro dessa minha visão, “Padê”, se insere como um registro nacional que vai de encontro a esse pensamento.

“Padê”, álbum da Juçara Marçal e do Kiko Dinucci, ambos integrantes do Metá Metá, tem seu significado em uma comida ou oferenda oferecida nos rituais de candomblé para os exus e pombogiras, ou seja, desde o seu título o álbum se oferece como um registro espiritual nas bases das religiões africanas em solo brasileiro – sendo a umbanda uma religião desenvolvida aqui no Brasil e surgida até muito próxima de um local onde eu estudara.


Não sei se preciso me fiar a apresentar faixa por faixa do álbum, mas creio que uma visão geral também funcione. O álbum tem suas raízes no candomblé, logo, no samba de raiz, bem marcado, desses feitos ainda no tempo da escravidão. Nota-se nas letras e nas batidas toda uma preocupação em trazer esse contexto, de fato. Com a maioria de suas faixas sendo originais, o álbum percorre um caminho muito bem elaborado, flertando com o samba e tradições negras advindos de diversas regiões do Brasil, logicamente com o fundo lindamente explorado da macumba brasileira, e sim, para mim macumba é um gênero musical que o Brasil deveria aprender a respeitar deveras, já que dele desdobra-se um solo gigantesco para o cenário musical contemporâneo, até.


Falando um pouco das faixas, vemos diferenças nas sonoridades, nuances, ritmos mais agressivos, presente em “Engasga Gato / Casa Barata” e outrora sonoridades bem mais ritmadas, como a segunda faixa do álbum “São Jorge”, com um tambor tipicamente de macumba – aliás esses tambores são recorrentes no álbum inteiro e “Machado de Xangô”, música em referência ao Senhor das Pedreiras, Deus da Justiça. Aliás, podemos ver no álbum também, uma espécie de referência a uma Cosmologia tão bela e tão rica, que eu pelo menos, não consigo não me espantar com os mitos e ritos advindos da África.


Aliás, como já dito, também vemos no álbum inúmeras referências ao sincretismo religioso umbandista, na própria faixa em reverência a Xangô vimos claramente essa tendência religiosa criada no tempo da escravidão e que perdura até hoje. A interseção do catolicismo com a umbanda é algo que perpassa gerações e ensinada até hoje na religião. No caso aqui, Xangô é São João Batista. (aliás os minutos finais dessa faixa são incríveis, ela vai de uma batida ritmada a um tambor pesado e rápido, ritmado e catártico, incrível, incrível e incrível!)


Bem, com tudo já exposto só quero deixar registrado a linda e suave voz da Juçara, que nos momentos em que precisa cresce e se sobressai. Outra questão para ser anunciada aqui, as cordas, quando aparecem em primeiro plano como em “Batuque para Ney”, se fazem muito boas, perfeitamente unidas a estética do álbum. Pois bem, pois bem, não tenho muito mais do que discorrer sobre esse incrível registro, só que por toda essa energia e vitalidade que o álbum carrega, só por isso, já deveria ser ouvido, sem entrar em méritos culturais aqui, o álbum pelo álbum, até quem não se interessa pela estética/sonoridade da macumba deveria tentar apreciar “Padê”, é uma verdadeira ode ao Brasil, de fato.




Tracklist:
01. Padê
02. São Jorge
03. Machado de Xangô
04. Atotô
05. Jatobá
06. Cabocla Jurema
07. Mar de Lágrimas
08. Engasga Gato / Casa Barata
09. Samba Estranho
10. Velha Morena
11. Imitação
12. Batuque Para Ney
13. Bate Baú / Corujá Batuqueira
14. Roda De Samba

Download: MEGA

sexta-feira, 25 de julho de 2014
Avatar

Alice Caymmi – Alice Caymmi

0 comentários

Gênero: MPB / Experimental
País: Brasil
Ano: 2012

Comentário: Já começo essa resenha dizendo que talvez, só talvez, eu não me sinta totalmente preparado para escrever sobre esse álbum. Alice Caymmi, de vinte e dois anos quando lançou esse seu debut que recebe o mesmo nome que carrega. E bem, eu só consigo pensar se esse nome fora uma benção ou um agouro na carreira da Alice – e confesso, ainda não sei.

Alice mergulha também no mar. Logo na primeira faixa “Água Marinha”, vemos que a influência do grande tema inspirador de seu avô, Dorival, se faz presente. Talvez seja uma boa herança de família ou um fardo que ela tenha de carregar. Mas Alice não se deixa naufragar em uma maré herdada – ela vai além e recebe do trabalho deveras experimental da Björk a verdadeira fonte de seu trabalho e em “Água Marinha” percebemos flertes com essa sonoridade: vocais serenos e batidas eletrônicas bastante oscilantes. Não se pode dizer que a carioca não faz para merecer o título de uma cantora, de fato, ela não pretende se colocar como uma espécia de continuadora dos trabalhos de sua família, por mais que acabe sendo, mas não vejo essa intencionalidade em seu álbum.

O álbum transcorre em um caminho próprio, enquanto as faixas complementam-se mutuamente mostram-se também um trajeto próprio e em si mesmas. Consta uma versão de "Sargaço Mar", de seu avô, versão essa bastante autoral e com um clima de melancolia contida, de mar pós-ressaca; interpretação bastante própria, assim como a décima e última faixa do álbum, "Ulravel", originalmente presente no álbum Homogenic, da já citada Björk. O “experimental” presente na classificação desse álbum explicarei agora: ouvindo mais de uma vez as faixas do álbum, como a já citada “Água Marinha” e “Revés”, para ainda permanecermos na primeira metade do álbum parecem-me distantes dessa safra da nova MPB, mesmo que diversos sites especializados, blogs e etc queiram colocá-la entre Karina Buhr e Tulipa Ruiz não vejo tal associação direta (embora eu não posse me dizer assíduo ouvinte de ambas) vejo em Alice um grau de melancolia e pessoalidade em várias sequências da sua estreia

A voz andrógina de Alice para alguns pode até ser outro obstáculo a ser transposto nesse navegar, mas para mim pareceram águas de duro acesso, mas acessíveis, de imediato há estranhamento e até certa dureza, mas aos poucos há o desvelamento da delicadeza, do belo em seus vocais e olha, quando essa revelação é feita o álbum se torna um registro que mescla docilidade, virilidade, brutalidade e sensibilidade e "Rompante" resume muito bem isso e que aliás, também pode ser usada para exemplificar a segunda metade do álbum, excetuando "Tudo Que For Leve", que deságua na mesma onda que a primeira metade do homônimo álbum.

Pois bem, o debut da Alice é tão revelador quanto misterioso, parece-me que ela trabalha em um chiaroscuro tal qual presente em telas barrocas: revela-se de um lado para esconder-se em outro, um jogo muito bom e instigante, um belo registro de uma voz diversificada e inovadora: um mergulhar extasiado em águas que só revelam o que não se espera ver.

[Site / Facebook]


Tracklist:
01. Água Marinha
02. Arco Da Aliança
03. Mater Continua
04. Revés
05. Sangue, Água E Sal
06. Rompante
07. Vento Forte
08. Sargaço Mar
09. Tudo Que For Leve
10. Unravel

Download: MEGA

segunda-feira, 14 de abril de 2014
Avatar

Caetano Veloso - Transa

0 comentários
Gênero: Musica Popular Brasileira/ Tropicalia
País: Brasil
Ano: 1972

Comentário: Essa é de longe a obra prima de Caetano Veloso. Gosto muito de outros álbuns dele, mas esse é o mais cativante de todos. Caetano gravou o disco na Inglaterra durante seu exílio e o lançou no Brasil assim que voltou, em Janeiro de 1972. O registro reflete muito dessa dualidade cultural que o artista vivia, com músicas em inglês e português, musicalidade riquíssima de ritmos diferentes e a mistura de tradição com experimentalismo, Caetano mostra o que para mim é a fronte da versatilidade brasileira.

As faixas são perfeitamente harmônicas, todas tem um clima muito bom para curtir com amigos, conversar, são melodias com letras tão convidativas que é impossível não dançar e cantar junto. É o tipo de música que você sempre quer deixar tocando, uma pena que o álbum tenha só aproximadamente trinta e sete minutos.

Falando na musicalidade, não podemos deixar de dizer que a parte instrumental desse álbum é notável. Os músicos convidados foram; Jards Macalé, Tutti Moreno, Moacyr Albuquerque e Áureo de Sousa. Percussões e guitarras marcantes durante todo o disco, a bateria é impecavelmente bem colocada. As batidas passam do samba para reggae e outros ritmos que embalam as letras que tocam muito nas músicas tradicionais brasileiras.

É muito difícil destacar só uma música do Transa. “You Don’t Know Me” inicia o álbum de forma maravilhosa, Caetano parece mostrar o que sente sobre estar longe de seu país e sobre a sua vida na terra da rainha. “Nine Out of Ten” explora o ritmo de raggae e tem letra em inglês, mas mesmo assim mantém uma identidade brasileira. “It’s a Long Way” é uma viagem, a canção trás uma sensação de saudade muito interessante quando a cantoria em inglês de Caetano é interrompida por trechos de músicas clássicas brasileiras. “Mora na Filosofia” é uma homenagem ao grande sambista Monsueto, uma das músicas em português mais chamativas do disco.

O álbum é uma pérola, parada obrigatória para todos os brasileiros que se interessam pela música popular brasileira, eu creio.

                                    Youtube / Site Oficial / Facebook / Last.fm

Tracklist:
Side 1:
01. You Don't Know Me - 3:48
02. Nine Out Of Ten - 4:55
03. Triste Bahia - 9:32
Side 2:
04. It's A Long Way - 6:05
05. Mora Na Filosofia - 6:13
06. Neolithic Man - 4:47
07. Nostalgia - 1:23
Download: Mega / 4Shared
sábado, 29 de março de 2014
Avatar

Otto - The Moon 1111

0 comentários
 

Gênero: MPB
País: Brasil
Ano: 2012

Comentário: O lado mais escuro da lua de Otto ainda não ficou para trás, mas parece cada vez mais ofuscado; distante de sua realidade. Com uma sonoridade tipicamente oitentista, a primeira faixa de “The Moon 1111”, “Dia Claro”, revela essa tênue linha entre a obscuridade e luz, de letra ainda ressentida, mas com sonoridade alegre – saudosista, até. A primeira parte do álbum segue nesse trilho: de uma alegria brincalhona, com levada de pop music, guitarras e teclados escondendo a marcante percussão que caracteriza a sonoridade de Otto desde seu MTV ao vivo.

Álbum de inúmeras referências e sonoridades: pornográfico, denso, alegre, ordenadamente despretensioso e rico em detalhes – assim posso resumir o The Moon 1111, que depois de cinco anos tirou o Otto de seu hiato e o colocou de volta a cena musical com essa despretensão despudorada que ele soube trazer nesse trabalho.

O cover de “A Noite mais Linda do Mundo”, de Odair José lembra em arranjo muito a versão original, não deixando nada a desejar ao cantor brega, aliás Otto é um romântico-brega convicto, mesmo que sem todos os clichês, bebe muito dessa fonte. Então nada mais justo do que homenagear Odair José. Aliás, nos covers feitos por ele pode-se perceber por qual caminho o álbum trilhará, no aclamado “Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos” constava uma música de Nelson Gonçalves, que em suma ponto é mais “ressentido” do que Odair José, tais quais os álbuns e as propostas que vem com eles.

Divagações a parte, é com “Exu Parade” que se nota a percussão tão marcante nos últimos trabalhos de Otto. A letra dessa faixa, aliás, lembra um pouco um kitsch de maneira musical. Pensa que é de menta, chupa que é de uva. E Aviões do Forró agradecem pela homenagem, agora aguenta. No meio da percussão de Otto está à faixa-título do álbum, “The Moon 1111”, mesmo que também apresente atabaques, tambores e batidas bem marcantes ela se faz muito pinkfloydiana, ou pelo menos lembra, seja pelo título, ou pelo teclado e guitarra equiparáveis.

O álbum em si é mais alegre do que o anterior, chegando a brincar com a promiscuidade despudorada em “DP”, última faixa. “O que dirá o mundo”, em participação com o Lirinha – repetindo a fórmula de “Meu Mundo” – caberia muito bem no álbum anterior, não que seja de um completo desencaixe, mas encaixaria melhor entre “aqui é festa amor/ e a tristeza em minha vida”, do que em “eu vou fazer contigo uma DP”, ou talvez não. Talvez pela temática diversa do álbum a música se fizesse tão bem encaixada – como agora me parece – na estética despudorada/sensual/brincalhona do álbum.

Mesmo podendo não ser tão perfeito e com toda a soturnidade do “Certas Manhãs”, “The Moon” prova que a chamada nova MPB brasileira sabe recriar-se, mas sem perder o contato com si mesmo e com o passado e Otto é a prova disso, que fez da sua visão mais clara, mesmo ainda habitando o lado escuro de si mesmo.



Tracklist:

1. Dia Claro
2. Ela Falava
3. A Noite Mais Linda Do Mundo (A Felicidade)
4. Exu Parade
5. The Moon 1111
6. Selvagens Olhos, Nego!
7. HDeus
8. Miss Apple E Zé Pilantra
9. O Que Dirá O Mundo
10. DP

Download: MEGA

sábado, 15 de março de 2014
Avatar

Tom Zé - Tropicália Lixo Lógico

2 comentários
Gênero: MPB
País: Brasil
Ano: 2012

Comentário: 
“E recebida na sala se trata por tropicália”,   é com essa frase Tom Zé apresenta seu álbum e o movimento cultural brasileiro chamado “tropicália”. A primeira música é uma apresentação divertida do movimento que tomou o Brasil nos anos 60, tem um tom sombrio e épico de certa forma, é uma grande introdução que abre o disco de maneira justa.

Seguindo o jeito Tom Zé de contar historia, chegamos a terceira musica chamada “tropicalea jacta est” que já começa com um agradável trecho que vai ficar na sua cabeça:
“Parassá penteu escuta cá
Parassá penteu escuta aqui
Quando Baco bicou no barco
Tinha Pigna, Campos in
Celso Zeopardo
Matinê par’o delfin
Vi, vi, vi”
Entendeu? Não? Pois é, nem eu, e mesmo que tivesse entendido não ousaria explicar, mas deixo aqui as palavras de Tom Zé: “ O Parassá penteu escuta cá, teoricamente é o seguinte, alguns reis da Grécia, não queriam aceitar um novo Deus que tava aparecendo, que era um Deus estrangeiro, que era o Baco”. Esse jeito maluco que o Tom Zé usa pra contar uma historia na musica é confuso, porém é incrível, mesmo que você não entenda cantará esse trecho sempre que aparecer. Além desse trecho a musica possui momentos em que ele aparece contando a historia de um jeito confuso, como por exemplo: “No disco do Sinatra, a viagem começa no século VIII, quando o zero invadiu nossos avós. Mas voltamos aos anos 60”.  A canção tem um tom de marcha, não marchinha de carnaval, marcha mesmo, é só ouvir pra ter vontade de descer a avenida marchando ao som do refrão.

sábado, 18 de janeiro de 2014
Avatar

Bandas Amigas #7 - Odilara, Fura e Nvblado

1 comentários
Odilara
O alto astral de Odilara é suficiente para quebrar a rotina desse blog que é tão envolto de estranhezas ruidosas, nebulosidades e tantas outras palavras esquisitas e sequer existentes. Isso porque a banda se propõe a fazer aquele mpb alegre e descontraído, utilizando inclusive de uma boa pegada de samba rock — que continua em alta —, mas com certa liberdade, abrindo janelas para a criatividade e agregando outras influências e instrumentações. Uma fórmula interessante, que não transforma o gênero, mas dá continuidade de forma autêntica e promissora naquilo que já fora reinventado. E assim segue o quinteto mineiro que em 2010 lançou um disco auto intitulado e, coincidentemente, soando como um retrato da música brasileira que já existia, embora já demonstrasse qualidade. Agora com "Janela Pro Mundo" buscaram fazer algo que garantisse uma identidade própria ao grupo, mesmo continuando a usar a fórmula antiga. Não se pode dizer se a fórmula foi aperfeiçoada, isso dependerá de gostos, mas certamente o resultado pareceu bom e garante aos mineiros do Odilara um lugar ao sol. Destaco a preocupação com a artwork, que vocês poderão notar ao baixar o zip; também pelo trabalho totalmente autoral, a não ser pelo o cover/homenagem a Wilson Simonal, que só agregou malemolência ao disco.

Pignianos sobre esse som:
"Janela Pro Mundo carrega o estigma da brasilidade tropical em cores fortes diluídas, onde até a pronúncia do nome da banda soa em calmaria: O-D-I-L-A-R-A; da poesia simples que utiliza termos do cotidiano como “Deixa vacilar pra baixar a bola, e se vacinar” para construírem seus versos breves, dos quais são cantados predominantemente pelos belos e doces vocais de Andréa. Este é um álbum de ode à serenidade dos dias ensolarados!"
— Ariel C.

"Odilara é um louvor a brasilidade. As faixas complementam-se em estilo e referências, na sonoridade da banda vi o Brasil no mundo e vice-versa, o release da banda não poderia ser mais exato: de fato vão de Noriel Vilela à Radiohead pra fazer um gênero que cresci ouvindo - um bom e autêntico samba, daqueles que você vai batucando na palma da mão, que pega fácil e contamina. Fazem samba fácil; vívido!"
— Lucas Bruno

"Instrumentistas de primeira, porém, com sonoridade reciclada que não traz nada de novo. Deve agradar os frequentadores de barzinhos e fãs de Nova MPB no geral, o que não é meu caso."
— Koticho

"Dona de uma temática simples e bem produzida, o grupo belo horizontino prima pelo samba, mas nada impede que outros elementos participem, pois há espaço para scratches (tradicionais do rap), elementos eletrônicos, um flerte com a mpb e um leve aceno para o rock. Destacam as faixas "Tantas vezes", a versão acelerada de "Nem vem que não tem" de Wilson Simonal, e o samba rock "4 k"."
— Bruno Lisboa

Disco: Janela Pro Mundo
Ano: 2013
Gênero: Samba/ Samba-rock/ MPB

Tracklist:
01 – Vou Assim Devagar
02 – Aquela Beleza
03 – Desencanto
04 – Em Todo Lugar
05 – Ed. Liberdade
06 – A Virada
07 – Tantas Vezes
08 – O Que Eu Quiser
09 – Varanda do Ser
10 – Liquidado
11 – 4 K
12 – Nem Vem Que Não Tem

DOWNLOAD
Links: Facebook/Soundcloud/Site





Fura
Embora nova no mundo, Fura já vem aparecendo neste blog desde que lançou seu primeiro material lá em 2010/2011, e sempre agradou bastante. Até porque o quarteto demonstra bastante técnica e criatividade, preenchendo esse mundo musical com mais um belo projeto de post rock/metal. Isso já seria o bastante para que você devesse dar aquela espiada no som dos caras, mas o quarteto apimenta as coisas dizendo que são de vários lugares do mundo e que se juntaram para criar algo. Infelizmente essa história não é desembrulhada pela banda, sequer sei qual a nacionalidade dos músicos (ou se são todos da Espanha, mas estavam morando em outros países... pois é de lá que o disco é assinado). Enfim, o importante é que Marc Tudurí, Manuel Oriol, Luciano Pugliese e Álvaro Medina sempre se preocuparam muito com a estética musical e visual de seu projeto, criando músicas de grande qualidade e intensidade, além de artworks sempre atrativas, principalmente neste disco homônimo. E se eu pudesse destacar mais alguma coisa, para que angarie ouvintes, eu diria que a masterização ficou por conta de Magnus Lindberg, percussionista do Cult of Luna. Mas é só um detalhe, a qualidade já é parte da pré-criação do Fura.

Pignianos sobre esse som:
"Post-Rock com pegada, pesado e intenso, cheio de influências legais de outros gêneros, uma das melhores bandas que já apareceram no quadro do Bandas Amigas. "
— Koticho

"A proposta da banda é fazer um som que remeta à ideia de um furão (fura em catalão) em seus hábitos exploratórios e ágeis que se alternam com o profundo sono que tem o animal durante a maior parte do tempo. Fura faz um rock instrumental moderno e competente. A intensidade das guitarras é digna de destaque."
— Rômulo Alexander

Disco: Fura
Ano: 2013
Gênero: Post-rock-metal/ Ambient/ Experimental/ Math-rock/ Instrumental

Tracklist:
1.Belisari 03:47
2.Omeia 07:09
3.Cornia 06:02
4.Ushuaia 04:34
5.Sibil·la 07:37
6.Askja 06:17

DOWNLOAD
Links: Facebook/BandCamp






Nvblado
Se a primeira banda deste post foi capaz de trazer a harmonia, então a segunda preparou seus ouvidos para que Nvblado fechasse com o caos total. Advindo de Balneário Camboriú, SC, Nvblado é formado por Felipe Garcia (Guitarra), Marcel Machado (Bateria), Camilo Machado Garcia (Baixo) e pelos búfalos Renan Pamplona (Vocais) e Felipe Mattos (Guitarra) — mas se você conheceu Búfalo antes, não se deixe enganar por aquele lo-fi sadwave. Nvblado também pode te carregar por meio de uma instrumentação lenta e introspectiva, mas a beleza é outra. É negra, densa e, ao mesmo tempo, cheia de combustões espontâneas, trazendo, com seu screamo, angústia e desespero para dentro de um post-rock constituído de uma beleza mórbida envolvente. Já as letras, gritadas, são um show à parte para a depressão.
Apesar da banda existir há alguns anos, "Afogado" é o primeiro lançamento (independente), um disco que se sobressai em relação à outras bandas do gênero, e isso não é graças somente ao screamo, mas também por um clara tentativa (bem sucedida e no ponto certo) de experimentar. E que capa bacana.
"E quando você fala, suas palavras caem como pedras sobre mim, soterrando tudo o que sinto. Mas tudo o que eu queria ao seu lado, na verdade, era só me sentir um pouco mais vivo." — trecho de Avalanche Pt. II

Pignianos sobre esse som:
"Nvblado é o resumo de toda uma angústia acumulada. A faixa "Angústia" soa de fato, como uma verdadeira angústia deve ser: tranquila e explosiva, acalenta e mordaz. A sonoridade - e conceito - da banda muito me agradam por evocarem em mim uma angústia terrível que dificilmente sinto com música, vai além do desconforto angustiante, é de fato um conflito, como se fosse um mar que salva ou afoga. Enfim, de fato a banda me agradou pelo seu tom sóbrio, vai direto pros fones."
— Lucas Bruno

"Screamo e Post-Rock se mostrou um casamento muito frutífero quando bandas como Envy e Suffocate For Fuck Sake resolveram apostar na mistura. A melancolia e beleza natural dos timbres do post-rock contrastam de forma ideal com os vocais ásperos e sofridos do screamo, resultando em músicas densas e carregadas de emoções, como a própria faixa Angustia do grupo, onde é impossível ouvir e não se perder no mesmo mar de angustia declamado pela banda."
— Koticho

"Urgente e explosivo. São alguns dos adjetivos cabíveis ao Nvblado. Utilizando de elementos tradicionais e oriundos do post-rock, a sonoridade usufrui do silêncio subsequenciado do esporro. Ecos de Sonic Youth e Refused são sentidos numa simples comparação, mas resultando em algo autoral e poderoso."
— Bruno Lisboa

Disco: Afogado
Ano: 2013
Gênero: Post-rock/ Screamo

Tracklist:
1.Afogado 02:09
2.Angústia 06:38 (clipe)
3.Morada 03:33
4.Avalanche Pt. II 08:28
5.Arpoador 10:38
6.Artemisia 05:55

DOWNLOAD
Links: Facebook/BandCamp/Soundcloud


E aí, gostou?
Se tem sugestões, ou possui uma banda/projeto solo e quer vê-lo aqui no blog, basta acessar este post para ter acesso ao nosso e-mail e entender como proceder para divulgar sua banda: DIVULGUE SUA BANDA (promote your band).
Não prometemos publicar tudo, mas prometemos ouvir tudo e, aquilo que acharmos minimamente interessante, faremos o possível para publicar.

Quem escreve e faz os uploads:

 
Ignes Elevanium © 2011 DheTemplate.com & Main Blogger. Supported by Makeityourring Diamond Engagement Rings

Poucos direitos reservados a nós e muitos para as bandas.