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quarta-feira, 6 de janeiro de 2016
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Os melhores discos de 2015 por Bruno Lisboa

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A música brasileira viveu um grande momento em 2014 e 2015 foi, novamente, um ano especial. Por mais que a "velha mídia" costume cravar que a mesma está morta, o número de produções de alta qualidade deste ano superou as minhas expectativas. Outros tantos discos poderiam estar aqui.

Na ala internacional os retornos do trio Sleater Kinney e Juliana Hatfield dividem espaço com o soberbo disco do rapper Kendrick Lamar, a ousada recriação de 1989 disco de Taylor Swift por parte de Ryan Adams e os novos rebentos de Mark Kozelek via Sun Kil Moon. Eis a lista:

sábado, 21 de novembro de 2015
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Porco na cena #53 - Pearl Jam em Belo Horizonte

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Os norte-americanos Pearl Jam estão há quase trinta anos prestando bons serviços ao mundo, conciliando (em doses equilibradas) boa música e ativismo político/social. 

Com reconhecimento em escala mundial, a banda vem desde o seu álbum de estreia arrebatando plateias mundo afora (das mais variadas faixas etárias), graças a grandes canções e apresentações viscerais, longas e antológicas. Ontem fora o dia do público mineiro conferir pela primeira vez a passagem da trupe liderada por Eddie Vedder. 

Porém, para descrever o que fora a primeira passagem do Pearl Jam em Belo Horizonte, jornalisticamente falando, não é tarefa das mais fáceis, pois encontrar palavras que mesurem de maneira adequada a emocionante apresentação é passível de ser piegas por demais e passa longe da imparcialidade. Mas alheio ao profissionalismo me rendo a tentar expressar minhas impressões.  

Os 42 mil presentes no Estádio Mineirão foram agraciados com um banho torrencial, de maneira literal e metafórica. Durante a sexta-feira, dia da apresentação, a cidade sofrera com fortes chuvas que perduraram por todo dia. E para compactuar com o clima, a apresentação (iniciada com meia hora de atraso) teve como abre-alas "Rain", delicada canções dos Beatles,

Diferente do formato "montanha russa" (oscilando longas sequências com canções mais lentas ou mais rápidas), o setlist da noite (composto por 36 músicas, o mais longo desta turnê, em quase três horas de apresentação) seguiu um inusitado formato randômico, quase alternando entre essas duas categorias. 

No hall das predileções, o álbum Ten fora o grande prestigiado da noite tendo seu repertório tocado quase em totalidade. Hinos da fase inicial como "Black" e "Alive" causaram momentos de catarse coletiva. Já a ala das covers, além dos Beatles as homenagens da noite percorreram desde caminhos habituais ou conhecidos dos fãs via "Sonic Reducer" (Dead Boys), "Imagine" (de John Lennon), "Rockin' in the Free World" (Neil Young)  aos inusitados como "Comfortably Numb" (do Pink Floyd, executada ao vivo pela 2ª vez) e a inédita "I want you so hard (boy's bad news)" (Eagles of Death Metal). Atendendo a "protestos", segundo Vedder, Stone Gossard foi aos vocais para cantar "Mankind", faixa do disco No code. Hits como "I am mine", "Do the evolution", "Sirens" e "Given to fly" não foram esquecidos e conviveram em plena harmonia com b-sides como "Pilate" e "Bee Girl". Tudo tocado com a maestria.    
   
Esbanjando o carisma já habitual, Vedder (em bom português) arriscou a comunicação com o público. Na sua pauta estava o dolorido atentando a capital francesa e o "acidente" ambiental ocorrido em Mariana (MG). Para o primeiro o vocalista dedicou a já citada"Imagine", clamando pela paz mundial. Já o segundo ganhou atenção especial já que ele bradou por uma imprensa imparcial e que prime pela verdade. Não obstante, conclamou por justiça aos culpados pelo desastre que, segundo o mesmo, "não deve ser esquecido" e ainda prometeu parte da renda do show para os que sofrem com as consequências do mesmo.

Por fim, Bono Vox (U2) certa vez disse que "a música pode mudar o mundo porque ela pode mudar pessoas". Atualmente vivemos dias tenebrosos (o ano de 2015 segue como um dos mais estranhos e tempestuosos dos últimos tempos), mas o Pearl Jam segue remando contra a maré, dizendo através de sua música que valores que prezem pela paz, a igualdade e o amor devem ser perpetuados de maneira desregrada e sem medida. Enquanto existirem bandas com proposta como esta o mundo torna-se um lugar ainda melhor. 

Poster oficial da apresentação. 
quinta-feira, 1 de outubro de 2015
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Drops de bacon #14 - 3 discos nacionais lançados em 2015

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“10”, Valsa Binária (Independente)

Formado pelo quarteto Danilo Derick (guitarra, teclados e variados), Leo Moraes (guitarra e voz), Rodrigo Valente (bateria) e Salomão Terra (baixo), em “10” os mineiros da Valsa Binária apostam numa continuidade natural do primeiro disco lançado em 2011 (disponível também para download gratuito no Bandcamp da banda). Autoproduzido, “10” é composto por 10 faixas que promovem a junção, em plena harmonia, de canções alegres e bem humoradas com melodias introspectivas. Já na abertura o ouvinte é convidado à dança na ótima “Receita”, canção que ironiza as necessidades femininas modernas. O clima jovial é mantido na jovem guardista “Vou Correndo” e na esteticamente folk “A esquina” (única faixa cantada por Danilo). Em contraponto, faixas como “Céu de Abril” e “Dona de si” (conduzida por belo arranjo ao piano) respondem pela porção delicada do álbum. Já em “Melhor Que Sou” e “Quis”, o encontro promovido é entre a dramaticidade com a urgência, conduzida por arranjos atmosféricos e soturnos. A valsa circense “O Palhaço” encerra de modo agridoce o disco que é altamente indicado para os que gostam da sonoridade pop com ares descompromissados.
Nota: 8
Ouça e faça download gratuito em: http://www.valsabinaria.com.br/
Preço: a banda optou pelo formato pague o quanto quiser + frete. O pedido do CD pode ser feito diretamente com o grupo através do e-mail producao@valsabinaria.com.br.

“Piacó”, Iconili (Indepedente)

Formado em 2006, o combo instrumental mineiro Iconili atinge o ápice de sua criatividade em “Piacó”, seu segundo disco, lançado em março de 2015. Sem impor limites a sua já peculiar sonoridade, o álbum (composto por 11 faixas) segue a fórmula afrobeat testada no debute, “Tupi Novo Mundo”, de 2013, mas com abertura para novas sonoridades. Essa proposta já é percebida em “Jorge Botafogo”, faixa de abertura do novo trabalho, onde o clima jazzístico dá o tom. O experimentalismo e a fusão com o carimbó conduzem a faixa título como também a pulsante “Gentil”. Sem deixar a energia cair, a atmosfera dançante é quase interrupta no disco. Afinal é basicamente impossível ficar impassível a faixas como “Nêgo Preto” (conduzida por guitarras em ode a disco music), “Preta de Tataqui” e “Mr. Ok”, canção que promove o encontro de ritmos brasileiros e africanos. Em tempos de alta cozinha, como autênticos chefes culinários, os mineiros do Iconili criaram em “Piacó” um prato bem elaborado, composto por ingredientes diversos que soam saborosos a cada audição. Um dos discos essenciais do ano até agora.
Nota: 10
Ouça e faça download gratuito em: http://www.iconili.com.br/
Preço do CD: R$ 21,00 (compre na loja virtual do grupo em http://loja.iconili.com.br/)

“Garnizé”, Dibigobe (Independente)

Em seu segundo álbum, a turma mineira da Dibigobe trafega pelo caminho da ousadia. Tendo como mote central uma homenagem semi-instrumental ao sambista Ataulfo Alves, o grupo não se rende as armadilhas da mera reprodução dos arranjos originais, pois aposta alto na pessoalidade e a na criatividade ao longo de oito faixas de “Garnizé”. Gravado em Mineapollis (EUA) com produção de Zachary Hollander (que já trabalhou com Explosions in the sky e The Polyphonic Spree), “Garnizé” recria de maneira desconcertante clássicos do compositor de Miraí, MG. Faixas como “Tempos de Criança” (que ganha ares de post-rock carregado de batidas eletrônicas), “Laranja Madura” (relida com elementos do rock e jazz), a desacelerada e bela “Mulata Assanhada”, os ares carnavalescos de “Você Passa, Eu Acho Graça” e a releitura gipsy (ritmo popular nos EUA nos anos 20) para “Aí Que Saudades da Amélia”, que conta com a participação do clarinetista Pat O’Keffe, destacam-se. Mas o climax concentra-se em “Na Cadência do Samba”, única faixa com vocais, onde a presença da icônica cantora mineira Dona Jandira abrilhanta a canção. O resultado final é tão acima da média que deixaria o finado ícone da música popular brasileira orgulhoso.
Nota: 10
Ouça em: https://soundcloud.com/dibigode/sets/garnize
Preço: R$ 50 (vinil). Pode ser adquirido no site www.amusicaquevemdeminas.com.br
Publicado originalmente em Scream & Yell.
terça-feira, 18 de agosto de 2015
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Ana Cañas - Tô na vida

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Gênero: Rock
País: Brasil
Ano: 2015

Comentário: Muitos creditam ou se surpreendem com a "nova" fase roqueira de Ana Cañas impressa em Tô na vida, seu mais novo disco, mas o mesmo não traz tantas novidades em si.

Com produção de Lúcio Maia (Nação Zumbi), mixagem de Mario Caldato Jr. (Beastie Boys) e colaborações de peso por parte de Arnaldo Antunes, Marcelo Jeneci e Dadi, Canãs fica à vontade para perfilar o que melhor sabe fazer: canções sobre o amor e dor.

Assinando grande parte do repertório, a cantora versa de maneira simples e pegajosa sobre a plenitude amorosa encontrada como em "Existe" (canção com belo solo de Maia), na cadenciada "O som do osso", em "Indivísvel" (música marcada por riffs marcantes e secos em ode a Joan Jett), na predominante acústica e lasciva  "Bandido", na suja "Madrugada quer você" (parceria estridente com Arnaldo Antunes e Lúcio Maia). Nesta seara destaca-se também o hino feminista "Mulher" ("Nenhuma em mil, ninguém e todas / Alguém te pariu, linda e louca"), que funciona como uma co-irmã de "Todas as mulheres do mundo" (canção de sua ídola Rita Lee)

Em contrapartida, baladas como o primeiro single "Tô na vida" (soul conduzido pela guitarra marota e sexy de Lúcio e pelo teclado vintage de Jeneci), "Amor e Dor" ("Não sei que eu sou/mas sei que vou por aí) e a beatleniana "Pra machucar" ("Por que é que a gente diz as coisas quase sem pensar?") revelam a outra porção do amor, expondo as fragilidades de quem se arrisca de coração aberto e sofre entre erros e acertos em busca a realização.

Num balanço final, para quem conhece a sua carreira de fato sabe muito bem que a postura rock n' roll já era alardeada, seja no palco ou com os apontamentos presentes em canções dos álbuns Hein? Volta. Mas a falta de novidade não descredita a qualidade alcançada neste trabalho. A coragem em se desnudar ante ao público segue como grande trunfo desta garota prodígio da música brasileira.

             
[Site]

Tracklist:

01. Existe
02. Tô na Vida
03. Hoje Nunca Mais
04. O Som do Osso
05. Indivisível
06. Coisa Deus
07. Bandido
08. Feita de Fim
09. Um Dois um Só
10. Amor e Dor
11. Mulher
12. Pra Machucar
13. Madrugada quer Você
14. O Amor Venceu (Faixa bônus)


Ouça: Deezer

quarta-feira, 8 de abril de 2015
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Porco na cena #52 - Lollapalooza Brasil 2015

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Em 2015 Lollapalooza chegou a sua quarta edição no Brasil e segunda no Autódromo de Interlagos. O line up desta vez foi o mais diversificado, pois apostou em DJs (Calvin Harris e Skrillex) que foram içados ao hall de co-headliners, um artista pop de peso (Pharrel Willians), bandas consagradas (Smashing Pumpkins), artistas renomados (Robert Plant), um astro do rock em seu melhor momento (Jack White) e muitas bandas indies brasileiras (Boogarins, O terno, Far From Alaska, Baleia) que ganharam no Lolla uma boa oportunidade de exibição. 

Mas como um bom festival não é feito só de música, mais uma vez, a organização errou em diversos quesitos. À começar pelo preço exorbitante de tudo relacionado à alimentação internamente. Uma água por exemplo saia à 2 mangos (R$ 5,00) e uma cerveja cerveja à 4 mangos (R$10,00). Para entender melhor o funcionamento o festival adotou uma moeda interna que custava R$ 2,50 correspondente a cada mango.  Tal iniciativa pode até ter sido uma ideia engenhosa, mas que de fato foi uma tentativa de tentar mascarar os preços abusivos. 

Como se não bastasse logo no primeiro dia do evento o sistema das máquinas de cartão de credito saiu do ar, fazendo com que várias pessoas tivessem que esperar um bom tempo para comprar suas moedas de troca. Já no segundo a cerveja chegou à acabar em alguns bares por volta das 20:00. 

A distribuição da grade de horários de apresentação também carecia de um melhor arranjo, pois ótimas apresentações de bandas como Interpol, Molotov e Kasabian acabaram sendo curtas, em horários ruins ou com pouco público. Já bandas medíocres como Alt-J, Young The Giant e The Kooks obtinham melhores horários e shows com duração de mesmo quilate.    

Positivamente, a ala de serviços foi aumentada tanto no Chef Stage quanto aos vários Food trucks instalados próximos ao palco Skol que ofereciam uma diversidade considerável de comida, mesmo que também à preços salgados. A disposição dos palcos e banheiros seguiu quase a mesma logística da edição anterior com exceção do palco Ônix cuja distância fora encurtada.

No total 136 mil pessoas circularam durante os dois dias evento. O Ignes Elevanium esteve lá representado a classe dos entusiastas por shows que preferem ir ao campo de batalha ao invés de ficar sentado assistindo pela TV e conta como foram algumas das apresentações.

quarta-feira, 1 de abril de 2015
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Porco na cena #51 - St. Vicent / Robert Plant em BH

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Realizado em solo brasileiro desde 2012, o festival Lollapaloza tem como principal fator trazer em seu line up uma gama de artistas dos mais variados gêneros. Paralelas as gigantescas edições do evento que ocorrem em São Paulo no mês de março, a cidade do Rio de Janeiro era até então a única a receber parte das grandes apresentações. 

Porém, com a mudança no mercado de shows outras praças se tornaram parte da rota de shows internacionais. Desta feita, as tradicionais Lolla parties (agora Lollapalooza edition), chegaram à cidades como Brasília e Belo Horizonte.

Entre os dias 25 a 27 deste mês a capital mineira recebeu no Chevrolet Hall apresentações de Bastille, Foster The People, Skrillex, Major Lazer, Dillon Francis, St. Vicent e Robert Plant. As duas últimas ocorreram na última quinta-feira e foram históricas. O Ignes Elevanium esteve lá e conta como foi.

segunda-feira, 23 de março de 2015
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Drops de bacon #13 - Cinco discos nacionais lançados em 2015

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Após longo hiato a seção drops de bacon está de volta! 

Destacamos neste retorno cinco discos nacionais da ala indepedente. Todos altamente recomendáveis e que foram lançados em 2015. 

“Curvas, Lados, Linhas Tortas, Sujas e Discretas”, Leonardo Marques (La Femme qui Roule)

Em sua segunda incursão solo, o mineiro Leonardo Marques (da banda Transmissor) segue apostando no formato indie folk. Salva a participação de Pedro Hamdam (baterista), “Curvas, Lados, Linhas Tortas, Sujas e Discretas” foi gravado de maneira solitária, em estúdio próprio (o Ilha do corvo), com Marques executando todos os instrumentos (piano, violão, banjo, guitarra, baixo, mellotron, optigan, chamberlin, casiotone, tonebank, guitarra barítona e percussão). Tal como em seu belo disco de estreia, “Dia e Noite No Mesmo Céu”, o multi-instrumentista segue apostando na continuidade natural de seu trabalho onde delicadas melodias servem como apoio adequado a sua frágil voz e a versos em ode a tristeza. Destacam-se neste novo trabalho, composto por nove faixas, a recriação intimista para “Um girassol da cor de seu cabelo”, do Clube da esquina (grupo já homenageado por sua banda oficial), a abertura com “Se o chão dá um nó”, a faixa título (composição coletiva com os comparsas do Transmissor), a levemente acelerada e cadenciada "Meus pés no chão" mais a singela "Brilhant blue", única faixa em inglês. Indicado para fãs do finado Elliot Smith. 

Ouça aqui

“Yours truly”, Invisível (La Femme qui Roule)


Segundo lançamento do selo belga-brasileiro neste ano, “Yours truly” é o disco de estreia dos belo-horizontinos do Invisível. Com apenas quatro meses de existência, o trio formado por André Travassos, do Câmera, Bernardo Zanetti e Lucca Noacco já debuta em disco cuja aposta musical vai de encontro folk americano tradicional, como sonoridade híbrida entre a velha guarda (Bob Dylan, Neil Young) e a contemporânea (Fleet Foxes, Bon Iver). Produzido de maneira minimalista por Leonardo Marques e a própria banda, o álbum é conduzido essencialmente por violões e banjos, fator este que garante o caráter de unidade sonora ao álbum. O estado de paz espiritual e a leveza são a chave para embalar canções sobre amizades sinceras (na curta "Friendly fire") e amores correspondidos ("Your love is a long road"). Os arranjos minuciosos também são destaque como em "Quiet unquietness" e "The Lightness Of Being", canções entrecortadas por belos arranjos ao trompete, a gaita presente na já citada "Friendly fire" e as harmonias vocais que permeiam todo o álbum. "Yours truly" representa um novo frescor sonoro na seara nacional em contraponto a tantas brasilidades por aí (sem nenhum demérito aqui).     

Ouça aqui.

"Carnaval dos bichos", Madame Rrose Sélavy (independente)


Chegando ao seu oitavo álbum de estúdio, o sexteto Madame Rrose Sélavy (nome em homenagem ao alter-ego do artista Marcel Duchamp) segue a sua sina de unir concepções distintas indo da bossa-nova a crueza do punk, perpassando pela música eletrônica com pitadas de jazz. Liderado pela dupla Rodrigo Lacerda Jr. e Tuca Lima, responsável por todas as composições, "Carnaval dos bichos" mais do que uma alusão abrasileirada a clássica obra literária de George Orwell, representa em verso e prosa a estética do faça você mesmo. Gravado de modo artesanal pela própria banda e lançado de forma independente no inicio do ano, a obra é dominada por melodias simples, vocais em dueto (conduzidos por Lacerda e Ana Moravi) e canções curtas (todas na casa dos três minutos) que servem de pano de fundo para letras em referência direta a  poesia marginal e a vanguarda paulista. A desconcertante "Frio na espinha", a irônica "Merda pela grama" e a pegajosa "Amor de plástico" são exemplos desta seara. O single "Atriz na high society", a balada "Ela foi pra Marte" e a acelerada "Coberta com açúcar" também se destacam neste ousado disco que traça um olhar divertido e multifacetado da contemporaneidade.  

Ouça aqui.

"Trovões a me atingir", Jair Naves (independente)



Cada vez mais distante dos tempos verborrágicos de liderança do grupo Ludovic, Jair Naves vai de encontro a serenidade em Trovôes a me atingir. Composto por nove faixas, o segundo e curto álbum solo prima pela linearidade musical. Por mais que suas letras ainda permanceçam em sua zona de conforto (em sua maioria em ode a tristeza quotidiana), o caráter solar sonoro predomina. As pungentes "Resvala" e "Em concreto"; a cadenciada "Incêndios", o dueto com Barbara Eugênia em "B." dueto com Barbara Eugênia mais a bucólica e a esperançosa "Prece atendida" são alguns exemplos deste novo direcionamento. De maneira tocante, Naves segue (tal como na sua estreia solo voce se sente numa cela escura planejando a sua fuga cavando o chao com as proprias unhas) utilizando a sua potente voz para falar sobre as agruras da vida de coração aberto. Um dos discos do ano desde já.

Ouça e baixe aqui.            

"Um chopp e um sundae", Rafael Castro (independente)



Em seu 11º disco Rafel Castro segue entretendo o público, num álbum que prima pela mistura de bases eletrônicas, guitarras sacanas e letras dominadas pelo humor. No disco Um chopp e um sundae Castro divide o repertório entre desconstuções magníficas de hits de outrem ("Aquela" do Raimundo, e "Víbora" da Tulipa Ruiz) e canções autorais. Nesta ala a abertura com "Ciúme" (cuja melodia é puro "Kids" do MGMT), a elétrica "Caetano Veloso" (canção como cara de hino pró-cena independente musical) e a dançante "Bicho Solto" se destacam. Despretensioso e direto, Rafael cria ao longo de 40 minutos um disco divertido, pop e sem restrições.

Baixe aqui.          

Os textos sobre os três primeiros discos (Leonardo Marques. Invisível e Madame Rrose Sélavy) foram publicados originalmente no Scream & Yell.
terça-feira, 17 de março de 2015
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Céu - Ao vivo

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Resultado de imagem para céu ao vivo

Gênero: Jazz / Reggae/ Dub / Hip hop / Afrobeat
País: Brasil
Ano: 2014


ComentárioFruto da cena nova cena paulistana Céu é um dos seus melhores exemplares. Atenta a diversidade sonora, a cantora vem desde 2005 apostando numa sonoridade híbrida da música negra, transitando livremente entre jazz, reggae, dub, hip hop e o afrobeat. Disco a disco, a cantora vem conquistando um maior número de adeptos.

Sua carreira fora iniciada há 10 anos com Céu, disco que já lhe rendeu certa atenção do público graças aos hits “Lenda” e “Malemolência” que figuraram em trilhas de novelas da Rede Globo. Na sequência foi a vez Vagarosa, álbum lançado em 2009, trabalho que figurou na lista de melhores do ano de várias publicações. O mais recente Caravana Sereia Bloom, de 2012, também percorreu os mesmos caminhos, obtendo reconhecimento ambos os lados, graças ao grande amadurecimento de suas características habituais.

Dona de uma voz inconfundível, lenta e sensual, Céu faz de suas composições (geralmente criadas em parceira com Gui Amabis, Lucas Santanna, entre outros) um retrato fidedigno de sua pessoalidade, transbordando paixão e beleza a cada verso.  

Aproveitando o sucesso conquistado ao longo dos últimos anos e a repercussão positiva da sua recente turnê (que percorreu o Brasil e também o exterior) acabou por resultar no seu primeiro registro ao vivo.

Gravado ano passado no Centro Cultural Rio Verde, em São Paulo, Céu ao vivo marca seu primeiro registro sob a batuta da Som Livre. A apresentação, que teve direção musical da própria cantora, contou também o apoio da Zeppelin Filmes e do coletivo The Wolfpack, que ficaram responsáveis pelo apelo visual.

O setlist da apresentação opta, acertadamente, pelo formato o melhor de... , pois percorre toda a carreira da cantora. Em sua maioria as faixas ganharam texturas muito próximas aos registros oficiais de estúdio, mas não deixa de ter suas surpresas. A faixa “Cangote” é exemplo desta seara, pois ganhou novos ares, tornando-a ainda mais dançante graças a melodias em ode ao carimbó, ritmo tradicional paraense.

Na ala das covers, outra característica recorrente a sua carreira, surge a agradável releitura de “Mil e uma noites de amor”, hit oitentista de Pepeu Gomes, trilha da novela “Roque Santeiro” que faz par ao hino “Concrete Jungle” de Bob Marley, cantor recentemente homenageado pela cantora na turnê Catch a fire, época em que tocava do maior ícone do reggae na íntegra.

Escudada por exímios músicos, a banda de apoio formada por Dustan Gallas (guitarrista e tecladista), DJ Marco, Lucas Martins (baixista) e Bruno Buarque (baterista) deixa a cantora à vontade, em entrega absoluta ao devoto público, composto por quatrocentas pessoas, que participa do espetáculo cantando cada um dos versos em uníssono durante toda apresentação.

Em síntese, Céu ao vivo, agrada, pois serve tanto para converter iniciados a sua música como também vale a apreciação dos já habituados. Passada a primeira década de bons serviços prestados Céu segue como uma das cantoras mais relevantes da música popular brasileira.       


(Site)


Tracklist:

1. Falta De Ar
2. Amor De Antigos
3. Contravento
4. Retrovisor
5. Grains De Beauté
6. Mil E Uma Noites De Amor
7. Cangote
8. Baile De Ilusão
9. Streets Bloom 10.
10 Contados
11. Malemolência Música Incidental: Mora Na Filosofia
12. Lenda
13. Concrete Jungle
14. Chegar Em Mim
15. Rainha


Ouça em: Deezer

terça-feira, 3 de março de 2015
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Los Hermanos - 4

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Gênero: Alternative rock / MPB / Samba
País: Brasil
Ano: 2005

Comentário: Transição. Essa é a palavra que define o que 4, último álbum dos cariocas dos Los Hermanos, trabalho que celebra dez anos de seu lançamento em 2015. Controverso para época, o disco não agradou de imediato grande parte do público.

Aguardado por muitos, o sucessor de Ventura, disco solar e enérgico e de relativo sucesso, decepcionou fãs de longa data que se dividiram entre amar ou estranhar o novo rebento. A crítica, por sua vez, polarizou opiniões entre rasgar elogios ou não entender o porquê mais um recondicionamento sonoro. Mas afinal por quê tamanha disparidade?

De fato, para aqueles que acompanharam e devotaram a evolução sonora promovida em Bloco do eu sozinho, 4 representa mais uma guinada musical, a maturidade da maturidade, mas com certo estramento inicial, pois é perceptível a mudança gradual nas composições da dupla Camelo e Amarante, responsáveis por todo o repertório da banda.

Os acordes iniciais de "Dois barcos", canção de Marcelo Camelo, já denunciam que algo diferente estava por vir. As letras existenciais e melancólicas, marca inerente ao trabalho da banda, ainda estavam ali, mas o tom lúgubre e arrastado da canção causaram espanto nos já convertidos admiradores e avaliadores, que não esperavam uma imersão em melodias frias, conduzidas em sua maioria pelo piano de Bruno Medina e por arranjos orquestrados. Características como estas dominam grande parte do disco como percebe-se em "Fez-se mar", "Sapato novo" e "É de lágrima". 

Se Camelo opta por seguir novos caminhos, muito próximos a MPB clássica, Amarante responde, em menor parte, de maneira distinta apostando no que se poderia chamar de "velho Los Hermanos". O hit "O vento" (faixa esta que foi abertura de Malhação), a pungente "Condicional" e "Paquetá", com toda a sua latinidade, são conduzidas por guitarras que muito lembram o que a banda produziu nos primórdios.  

Passado todo este tempo, hoje é possível visualizar com clareza que 4 é um reflexo direto do que a dupla de compositores principais iria produzir de maneira solo anos mais tarde. Camelo seguiu a atmosfera mpbística experimental (como é perceptível nos discos Nós e Toque Dela). Já Amarante apostou em novas parcerias e formou a Little Joy, banda mezzo brasileira mezzo norte-americana, cuja sonoridade jovial alcançou relativo  sucesso. Ironicamente, tempos depois as sonoridades se inverteriam como é visível no disco de estréia da Banda do Mar (projeto de Camelo) e Cavalo (voo solitário de Amarante)  

Querendo ou não, 4 seguirá como o mais contrastante álbum da curta e meteórica carreira. Porém a sua influência e ousadia ainda reverbera na cena musical brasileira. Se algum disco brasileiro pode merecer título de marco zero do que hoje se conhece como "indie-sambinha" este disco tem grande culpa no cartório.

O que o futuro reserva à banda ainda é uma incógnita. Como não há perspectiva de um novo disco, por hora os fãs de longa terão que se contentar com a turnê caça-níquel que em outubro varrerá o solo brasileiro à preços exorbitantes.          

Tracklist:

01. Dois barcos
02. Primeiro andar
03. Fez-se mar
04. Paquetá
05. Os passáros
06. Morena
07. O vento
08. Horizonte distante
09. Condicional
10. Sapato novo
11. Pois é
12. É de lágrima

Ouça: Spotify

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015
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Porco na cena #50 - Lupe de lupe em Belo Horizonte

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Era uma noite de quinta-feira e a cidade de Belo Horizonte foi basicamente varrida por uma chuva torrencial e caótica. Era basicamente impraticável deslocar-se por longas distâncias, principalmente de carro, devido a parca visibilidade e o perigo de acidentes. Alheio a tudo isso, abandonei a escola em que trabalho em direção à Autêntica, nova casa de espetáculos destinada à artistas independentes, que abriu as portas pela primeira vez ao grande público. E para iniciar os trabalhos os conterrâneos da Lupe de lupe, a melhor banda de todos os tempos da última semana, deram o ar da graça. 

De fato, a minha descoberta quanto existência da banda era recente. Desta feita uma série de pensamentos dúbios dominavam as minhas percepções pré - show, pois tudo relacionado a Lupe, inicialmente, era estranho. Como não captei de imediato o conceito promovido pela banda, mas a sujeira, a melancolia das letras  e peso nada regrado resultavam em algo totalmente fora dos padrões. Sabe aquela banda de garagem do seu vizinho que ainda está começando a tocar seus primeiros acordes? Então ao ouvir o grupo a sensação predominante era de que uma banda amadora, que emulava distorções de My blood Valentine e Sonic Youth, que achava que seria legal promover o revival anos 90, em tempos onde o legal é ser moderninho "indie sambinha", persistia existir. Pesquisando um pouco mais, descobri que todo esse caos sonoro era um exercício premeditado, um verdadeiro foda-se a tudo e a todos. Movido por uma curiosidade absurda fui de encontro a apresentação e e confesso que não estava pronto para o que estava por vir.             

Quando cheguei ao recinto a apresentação já havia iniciado e no decorrer da mesma toda a analise negativa caiu por terra. O amadorismo ainda era latente, mas no bom sentido da palavra. De maneira ousada a banda transpirava paixão e energia, características estas ligadas somente a aqueles que apostam na urgência e na vontade desmedida para transmitir a sua visão de mundo. O público se comporta de maneira dispare: ora atônito, boquiaberto, ora em catarse brandando cada um dos versos (desde os mais complexos aos mais ganchudos) ou se entregava as rodas de mosh. 

Inicialmente, a sonoridade do grupo pode ser rotulada como puro 90's, mas tudo é entregue de maneira tão crua e visceral que a sensação é como se o rock estivesse ainda em seus primórdios. A longa apresentação de mais de duas horas (quem faz isso hoje?) perpassou por toda a discografia da banda, dando ênfase ao mais recente trabalho Quarup, elogiado disco duplo (?) que condensa todas as percepções e caraterísticas do grupo.  

Em tempos onde a frieza mecânica musical predomina, a existência de uma banda com a Lupe de Lupe comprova que estamos no caminho certo. Recentemente em texto Marco Barbosa (leia aqui) o autor atribuiu a banda o status de "banda salvadora do rock", análise esta que classifico como das mais errôneas. O rock não precisa ser salvo, pois o fato do mesmo não fazer parte do mainstream e de aparentemente não desencadear novas cenas estes fatores não descredenciam o gênero. Prova disso é que atualmente o Brasil vive um de seus melhores momentos, graças a uma gama de artistas independentes que buscam de maneira heroica a sobrevivência e o estabelecimento de novas identidades.

Como todo e qualquer ritmo musical o que mais precisamos no rock são de bandas que saibam ser fiéis ao próprio estilo, não se rendendo à estereótipos ou modismos e que nos retirem do lugar comum. De maneira desconfortável ou não a Lupe de Lupe segue a risca desta pseudo cartilha, provando que não precisamos de salvações inúmeras e sim de mais autenticidade.
quinta-feira, 29 de janeiro de 2015
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Porco na cena # 49: Foo Fighters (BH/MG)

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Primeiramente um grande fator a ser considerado: Belo Horizonte entrou, finalmente, para o hall dos grandes shows e turnês. Num breve retrospecto dos últimos anos, já passaram por aqui Paul McCartney, Elton John, Black Sabbath, Red Hot Chilli Peppers, Robert Plant (que volta em março), Iron Maiden, Guns and Roses, Bob Dylan, Morrissey, Faith No more, entre tantos outros artistas, que em tempos atrás nem nos mais remotos sonhos idealizava-se por estas bandas. 

O grande mérito desta nova fase que se inicia por aqui se dá por duas razões: o trabalho corajoso realizado por produtores locais e a presença do público que, vez ou outra, comparece aos mega shows. Infelizmente, BH é tida para os organizadores em geral uma cidade "difícil", pois nunca se sabe o evento irá lograr sucesso ou não.  

É sabido que o padrão "dinossauro do rock" é uma quase garantia de vendagem, mas apresentações de artistas mais "novos" (leia-se com menos 20 anos de carreira) sempre gera desconforto e ansiedade, pois nunca se sabe se será viável trazer ou não alguém destes moldes para cá. Mesmo com uma série de interrogações na cabeça, a Nó de Rosa Produções deu a cara a tapa e trouxe para solo mineiro a turnê Sonic Highways do atual "melhor grupo de rock" da atualidade: os Foo Fighters.      

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015
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Porco na cena # 48 - FUROR - Férias Urbanas Repleta de Ótimos Rolês

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Realizado em Belo  Horizonte o festival FUROR (Férias Urbanas Repleta de Ótimos Rolês) promoveu durante os meses de dezembro passado e janeiro uma série de apresentações culturais, mesclando atrações locais com artistas de renome do cenário independente nacional. 

Atentos ao novo mercado musical, os organizadores do evento promoveram de maneira criativa, tal como as hoje habituais campanhas de crowdfunding, a opção de convidar ao público a refletir sobre a sobrevivência artística nos dias atuais. Ao invés do tradicional ingresso, o participante foi convidado à pagar o quanto quiser e a cada contribuição recompensas eram atribuídas ao colaborador.

Durante as férias artistas como Tiê, O Terno, Renato Godá, os mineiros do Dom Pepo e o paulistano Thiago Pethit foram algumas atrações que derem o ar da graça no Mercado Distrital do Cruzeiro, o mais novo reduto musical belo-horizontino. O Ignes esteve lá e conta um  pouco como foi.

Lembrando que a programação se estende por mais uma semana. Caso queriam saber mais sobre o festival acessem o perfil do FUROR.

Tiê
Foto: Flávio Charchar

Promovendo seu mais novo rebento, o ótimo Esmeraldas (já resenhado aqui), Tiê trouxe toda a sua ternura e leveza ao Distrital. O setlist da apresentação, composto por 16 canções, privilegiou o repertório recente, que ao vivo funciona muito bem, graças à exímia banda de apoio. Novas canções como "Urso", "Mínimo maravilhoso" e "A noite" foram cantadas em uníssono e conviveram em harmonia com hits dos primeiros álbuns como "Dois", "Piscar o olho" e uma fora do script "Assinado Eu", que ganhou arranjo inédito. Entre uma canção e outra, a cantora aproveitava para deslanchar todo o seu carisma habitual contando inúmeras histórias pessoais que abrilhantaram ainda mais a memorável noite.

Dom Pepo
Foto: Flávio Charchar


Fruto da cada vez mais efervescente cena mineira, o combo Dom Pepo fez uma senhora apresentação no festival. Partindo de influências dispares, como os próprios afirmam na canção "Cabelo", a sonoridade da banda é uma mescla de elementos distintos como "feijoada, funk, soul, jazz, samba, maracatu, mexido, rock, reggae, rap, blues, baião", resultando em algo dançante e divertido. Com apenas um EP na bagagem, a apresentação contou com várias músicas inéditas que devem figurar num álbum cheio em breve. Olho neles!    

O terno

Foto: Flávio Charchar
Com um senhor disco sob os ombros, o segundo e ótimo O terno disco que figura em várias listas de melhores do ano de 2014, o trio O terno foi uma das mais celebradas apresentações do festival. Com o público na mão, grandes canções como "Bote ao contrário", "Ai, ai, como eu me iludo" e hits do primeiro trabalho ("66", "Eu não preciso de ninguém" e a icônica "Zé, assassino compulsivo") causaram momentos de catarse coletiva, coroando assim o grande momento artístico que este jovem grupo vive.

Thiago Pethit


Habitualmente a apresentação de Thiago Pethit é sinônimo para euforia e lascividade. Esta não foi diferente. Divulgando o elogiado Rock'n'roll Sugar Darling, disco lançado em outubro passado no qual revisita os primórdios do rock, em show Pethit mergulha fundo na atmosfera 50's adotando não só a postura visual bad boy (via jaquetas de couro preta e jeans) como também aposta na sonoridade da época, período em baladas de amor e o rockabilly engatinhavam para o estrelato. No set, canções do disco Estrela decadente ("Moon", "The devil in me", "Dandy darling") e de Berlin, Texas ("Nightwalker") foram de encontro ao novo repertório, destacando o já hit "Romeo". As covers de Elvis ("Be bop a lula"), de Gary Glitter ("Do you wanna touch me") e Iggy Pop and Stooges ("I wanna be your dog" em versão dupla, a original e a releitura em português) completaram o repertório. 
quinta-feira, 4 de dezembro de 2014
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Os melhores discos de 2014 por Bruno Lisboa

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100 discos. Este foi o número exato de álbum que ouvi em 2014. Confesso que realizar esta lista e chegar aos 15 selecionados não foi exercício dos mais fáceis, já que muitos trabalhos de qualidade foram produzidos neste ano.

Nacionalmente, este ano será lembrando como um dos mais frutíferos da safra, pois muitos álbuns de qualidade da cena independente foram lançados, provando a música brasileira vive um dos melhores momentos dos últimos tempos. Na ala internacional medalhões como Damon Albarn (do Blur) e Jack White, dividem espaço com promessas como o Real Estate e Sharon Van Etten.

Comecei a escrever aqui a um ano atrás. Os que me acompanham neste espaço sabem ou perceberam que tenho o gosto mais "indie" dentro desta seara metaleira chamada Ignes Elevanium. Desta feita, esta será a mais estranha lista se comparada com as que virão. Sem mais delongas, ei-la:


terça-feira, 18 de novembro de 2014
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Tiê - Esmeraldas

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Esmeraldas - Tiê

Gênero: Folk / Rock / Eletronic
País: Brasil
Ano: 2014

Comentário: Paulistana na gema, Tiê faz parte do seleto grupo músicos da  que da capital conquistaram a devida exposição neste últimos anos. Debutando em 2008, a cantora lançou com o seu primeiro EP em parceria com Dudu Tsuda (Cérebro Eletrônico), trabalho que serviu de trampolim o lançamento de seu primeiro álbum. Lançado no ano seguinte, Sweet Jardim foi um dos mais belos rebentos daquele ano, graças a delicadeza e a crueza imprensas em canções tristonhas como "Assinado eu" e "Te valorizo". Nesta época, a cena local estava em alta graças aos seus pares Tulipa Ruiz, Thiago Phetit e Tatá Aeroplano (Cérebro Eletrônico) que, tempos depois, formariam o combo Novos Paulistas.

Dois anos mais tarde,  A coruja e o coração deu o ar da graça, em disco cuja influência folk, revelada no primeiro disco, novamente deu o tom tal como nas essências "Na varanda da Liz" e "Pra alegrar o meu dia". Passados 3 anos, Tiê optou por abandonar o lugar comum. O resultado desta nova empreitada é o recém lançado Esmeraldas.

O disco, cujo título faz alusão a cidade mineira onde o trabalho fora idealizado, celebra a entrada de novos parceiros, fator este que fez do disco uma amalgama de novas sonoridades. As presenças de Jesse Harris (Norah Jones) e Adriano Cintra (ex- Cansei de ser sexy), dupla que coordena a produção, trouxeram a liberdade essencial para que a cantora buscasse e alcançasse novos ares. Os delicadas arranjos de corda (na regravada "Gold Fish"), o leve aceno à música medieval na faixa título, o balanço eletrônico e dançante de "Urso", o rock na acelerada "Mínimo maravilhoso", os metais circenses de "Vou atrás" e a dueto inédito com David Byrne (Talking Heads), em canção hino anti-exposição midiática, comprovam que frutífera parceria foi acertada.  

Por um outro lado, as letras, geralmente marcadas pela pessoalidade, novamente coordenam as ações. As canções, compostas em sua maioria com André Whoong,  trazem de volta a doçura de outrora como na bela ode à beleza quotidiana ("Maquina de lavar" e em "Meia hora"). As desilusões amorosas dão o tom na dolorida  "La notte (a noite)", primeiro single e regravação da cantora Arisa, e em  "Isqueiro azul", promovendo assim o diálogo com temas passados.  

Por fim, parafraseando um trecho da já citada "Mínimo maravilhoso", Tiê está de "afim se reeducar, buscando coisas boas para aprender". Que bom! De fato, qualidades como estas deveriam ser essenciais para todo o qualquer ser humano existente, pois em tempos nos quais o pessimismo impera, se faz necessário traçar um novo olhar ao mundo ao nosso redor. A busca pelo novo pode resultar em novas alegrias e dar novos sentidos aos nossos dias.
    

Tracklist:

01. Gold Fish
02. Par de ases
03. Máquina de lavar
04. Urso
05. Mínimo Maravilhoso
06. Esmeraldas
07. Isqueiro Azul
08. Depois de um sonho
09. Vou atrás
10. A noite (la notte)
11. Meia hora
12. All around you - ft. David Byrne

Ouça emSpotify

segunda-feira, 3 de novembro de 2014
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Porco na cena 45: Festival Transborda (BH)

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Após hiato de dois anos, o Transborda, festival realizado em Belo Horizonte, voltou aos holofotes mineiros. Promovido durante a semana final de outubro e início de novembro, a terceira edição do evento trouxe à tona uma série de palestras e oficinas, cujo mote central foi discutir o mercado artístico atual, suas inovações e as perspectivas de futuro, privilegiando, neste caso, a ótica independente. 

Como culminância, os organizadores (o Coletivo Pegada) trouxeram para o Spasso Escola Circo, reduto underground local, uma série de artistas iniciantes (das mais variadas localidades brasileiras) que, em sua maioria, nunca tocaram na cidade.  Durante dois dias, um curto, mas selecionado, line up deu o ar da graça expondo toda a diversidade sonora da cena musical brasileira atual, com bandas do Rio Grande do Norte ao Rio Grande do Sul.  

Line up do 1º dia. Fonte: Divulgação     
A largada do festival fora dada na noite de sábado (1-11) com os potiguares do Red Boots. Apostando no formato mínimo, o duo executou de forma ensurdecedora a mistura de elementos do grunge com stoner rock. O repertório privilegiou o recém lançado Touch the Void (disco lançado pela inciativa do projeto Dosol), mas resgatou faixas de Aracnophilia. O público, desavisado da potência sonora, ficou boquiaberto tamanha a pungência da apresentação. 

Na sequência, os belo horizontinos da Câmera fizeram do palco um espaço para dicotomias. Indo de momentos silenciosos ao esporro sonoro, a banda debutou o repertório de Mountian Tops, 1º disco cheio, e excelente, lançado pelo selo Balaclava Records semana atrás. Faixas dos EPs Not tourist e Invsible Houses também deram o ar da graça, em performance inspirada e elétrica.

Já os goianos da Boogarins, que debutavam em BH, colheram os louros da recente premiação como artista revelação do Prêmio Multishow, já que uma parcela considerável dos presentes estavam ali para vê-los. O repertório, que girou em torno do elogiado As plantas que curam e algumas canções inéditas, fora executado de maneira explosiva, com números instrumentais gigantescos, embebidos em doses cavalares de dissonâncias, num autêntico revival do psicodelismo. Grande apresentação do promissor quarteto.

Fechando a primeira noite, os baianos da Maglore pareciam estar em casa. E realmente estavam. Amparado pelo receptivo público local, a apresentação teve como grande trunfo um público devoto que cantava, à plenos pulmões, todo set calcado nos discos Verox e Vamos pra rua. Aproveitando o ensejo, o trio debutou duas inéditas ("Mantra" e "Ai ai") que deveram figurar no novo rebento a ser lançado ano que vem.                                      
Line up do 2º dia. Fonte: Divulgação
Já no domingo (2-11) a carioca Mahmundi trouxe ao transborda a mescla de sons eletrônicos contemporâneos linkados a estética oitentista. Liderados por Marcela Vale (ex-Velho Irlandês), o trio esbanjou carisma em apresentação dançante. Ao final, o premiado hit "Calor do Amor" (presente em seu 1º disco Efeito das cores) contou a presença de dezenas de fãs no palco, coroando efervescente noite.

Para o fim, coube as gaúchos do Apanhador Só encerrarem os trabalhos do festival. Vivendo grande momento na carreira, a banda realizou apresentação histórica. Amparado pela ótima receptividade de Antes que tu conte outra, a apresentação teve como fio condutor o elogiado álbum, cujo repertório, quando executado, cresceu em timbres e energia em estado bruto. Em tom de resposta, o público foi ao delírio durante todo o show, em especial canções como "Despirocar" e "Mordido". O repertório ainda resgatou canções do debute que ganharam novos arranjos como em  "Maria Augusta", agora um autêntico hino carnavalesco. "Prédio" finalizou a memorável noite que reverberará por bastante tempo.   

Por fim, há de parabenizar o evento como um todo, pois tudo transcorreu de forma plena e admirável. A escolha por realizar uma edição enxuta, em local intimista e a preços simbólicos resultaram numa melhor visibilidade aos artistas e na presença  maciça do público. Para o ano que vem esperasse que o festival siga a sua louvável sina que é promover diálogos, reflexões e dar visibilidade ao vasto cenário musical brasileiro que segue em crescente constante.         
terça-feira, 7 de outubro de 2014
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#Porco na cena 44: Circuito Cultural Brasil Diverso - 1º final de semana

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Começou no fim de semana passado em BH, e se estende até o final de novembro, o Circuito Cultural Brasil Diverso, evento cuja finalidade é promover a música nacional em seus mais variados formatos. 

Na programação, que ainda será divulgada em detalhes, constarão oficinas e shows de artistas independentes e consagrados na cenário atual.

Com curadoria de Bart Ramos (tradicional produtor local), as apresentações tiveram como local escolhido a Funarte, espaço intimista da capital mineira que comporta apenas 140 pessoas (fator este que tornam-as ainda mais especiais) e entradas a preços simbólicos (R$ 10,00 inteira).

Lafayette e os Tremendões (sexta), Canastra (sábado) e Acabou La Tequila (domingo) dividiram as atenções na primeira leva de apresentações. O Pignes, representado pela minha pessoa, esteve lá na sexta e no domingo e conta como foram os shows.

Lafayette e os Tremendões

Lafayette e os Tremendões. Foto: Diego Rodriguez
A exímia banda, cuja formação consta Gabriel Thomaz (Autoramas), Renato Martins (Canastra), Melvin (Carbona), Marcelo Callado (Do amor) e Érika Martins, trouxe para CCBD o celebrado repertório com clássicos da Jovem Guarda, tendo como fator principal a presença de Lafayette, tecladista da época e responsável pela sonoridade peculiar do gênero.

A enérgica apresentação, cujo mote principal são as canções de Roberto e Erasmo Carlos, perpassou por vários hinos compostos pela dupla nos anos 60. "Quero que tudo vá pro inferno", "O portão", "As curva da estrada de Santos" e "É proibido fumar" foram algumas das pérolas resgatas, que agradaram em cheio ao pequeno, mas festivo público presente.

Enquanto os rapazes da banda se divertiam tocando, alternado vocais e improvisando covers inusitadas de "Whisky a go go", "Twist and shout" e "La Bamba", coube a Érika Martins esbanjar todo seu carisma. A aniversariante do dia era só sorrisos e animação. Durante a sua performance além de atirar balões público, a mesma foi de encontro a ele, fazendo da apresentação um autêntico karaokê coletivo.

Érika Martins. Foto: Diego Rodriguez
Paralelo ao repertório do Rei, o setlist também contemplou quatro canções inéditas: "Te vejo nos meus sonhos", "Deixa que eu deixo", "Para viver ao seu lado todo dia" e "Eu tenho mil garotas", cuja sonoridade dialoga abertamente com o repertório composto de covers e que deverá sair em breve em formato físico, num segundo álbum ainda a ser lançado.

"Festa de arromba" encerrou os trabalhos em alta, deixando um largo sorriso na platéia presente. Grande noite.                    

Acabou La Tequila


Acabou La Tequila. Foto: Diego Rodriguez
Oriundos da cena underground carioca dos anos 90, o Acabou La Tequila é o que podemos chamar de um autêntico dream team tupiniquim.

Com apenas dois discos gravados (os elogiados Acabou la tequila e O som da moda), a  banda não conquistou grande sucesso durante o curto período de existência inicial, mas foram das raízes deste grupo que músicos como  Kassin, Nervoso, Renato Martins e Rodrigo Barba conquistaram, cada um na sua seara, considerável prestígio no rock nacional durante os anos 2000. Com esta vasta bagagem que a banda carioca debutou em palco mineiro.

Melvin. Foto: Diego Rodriguez
Contando com a colaboração e maestria de Melvin, baixista do Caborna e também do Lafayette em substituição a Donida, o grupo carioca começou a apresentação de forma suave via o reggae "Tranquilo", canção de Renato Martins. A noite seguira efórica numa autêntica mistura de gêneros no qual rock, ska, punk conviveram em harmonia. Os semi hits "Biscoito", "Mais ou Menos" e "Eu era pop" (as duas últimas regravadas pelo Autoramas) vieram e foram intercalados por autênticos hinos independentes tais como  "Flaming Moe" e "Kung Fu", faixa executada durante o bis.

Os problemas técnicos enfrentados por Kassin, que arrebentou 4 cordas (?!) de sua guitarra durante a performance, em nada impediram este histórico momento, que fora presenciado, infelizmente, por um pequeno público na fatídica noite de domingo.            

Por fim, entre idas e vindas, o combo La Tequila promove apresentações esporádicas, de acordo com a agenda de cada um, e, ao que parece, 2014 será o ano em que a banda está no hall das prioridades já que é prometido o lançamento do terceiro álbum, com faixas inéditas e gravações antigas que não viram a luz do dia. Aguardaremos ansiosamente.

Assim termina a cobertura do 1º final de semana do CCBD. Para o próximo final de semana são aguardadas as apresentações de Érika Martins e Autoramas junto a Renato Barros (Renato & seus Blue Caps). E o Pignes, novamente, estará presente. Aguardem. 

Quem escreve e faz os uploads:

 
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