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domingo, 8 de junho de 2014
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The Black Keys - Turn Blue

1 comentários

Gênero: Blues Rock / Progressive rock / Funk / Pop / Soul
País: Estados Unidos
Ano: 2014

Comentário: Em meados dos anos 90 o desenho "Pink e Cérebro", criado por Steven Spielberg e Tom Ruegger,  foi uma febre entre crianças e adolescentes. Para os de boa memória, um dos momentos mais célebres da obra era o seu encerramento no qual Pink questionava ao amigo  "o que faremos amanhã à noite?", e Cérebro em tom sinistro respondia "o que sempre fazemos todas as noites. Tentar conquistar o mundo!". A alusão aqui se faz necessária para entendermos um pouco da carreira do duo americano The Black Keys.

Com carreira iniciada em 2001, a banda formada por Dan Auerbach e Patrick Carney surgiu em meio a um revival da cena blues garage na terra do Tio Sam tendo como concorrente de cena o também duo White Stripes. Desta fase foram produzidos 4 álbuns, The big come up, Thickfreakness, Rubber factory e Magic Portion, todos produzidos em caráter lo-fi e próprio, mas que garantiram a exposição merecida seja pelos elogios da crítica, seja pela abertura de shows de artistas do calibre de Beck, Sleater-Kinney e Dashboard Confessional. Mas uma grande parcela do público ainda não havia se rendido ao duo e para tanto a guinada sonora foi necessária.

Em 2008 a mudança gradual começou a ser pavimentada via Attack & release, primeiro disco com um produtor de fato colaborando no processo criativo: o hoje elogiadíssimo Danger Mouse. Mouse, que na época colhia os louros inicias da fama devido ao estrondoso sucesso de projeto Gnarls Barkley, soube manter dosas a essência suja da sonoridade da dupla casando de forma ímpar com uma produção polida resultando num dos discos daquele ano. A parceria deu tão certo que para álbuns seguintes, o ótimo Brothers e o multiplatinado El camino, o trabalho seguiu em plena forma resultando no então sonhado sucesso mundial. Tanto barulho fez com que o duo virasse uma banda, saísse das pequenas arenas e migrasse para ser headliner de festivais mundo afora. Nós, brasileiros, inclusive vivenciamos parte deste fenômeno quando o The Black Keys foi atração principal na segunda noite do Lollapalooza Brasil 2013.

Pois bem, ao que parece a experiência de estar no centro das atenções não foi algo valoroso para o duo e a prova disso é Turn Blue, o mais recente trabalho destes senhores de Ohio. Se nos dois álbuns anteriores, que mais se assemelhavam a coletâneas com dezenas de hits, a aposta agora é o retrocesso em todos os sentidos. Produzido novamente por Danger Mouse, em sua quarta parceira, aqui é visível a saída da proposta de criar hinos a serem entoados em estádios em prol de algo mais intimista e audível em seus detalhes. A canção de abertura "Weight of love" já entrega de bandeja a nova sonoridade: em seus quase sete minutos, a canção mais longa criada pelo duo, temos um longa introdução instrumental, um solo de guitarra e certo ar progressivo setentista, herança talvez do Pink Floyd. O ar retrô, aliás, é o que conduz o disco. "In time" é carregada se suingue beirando ao funk. A faixa título é uma balada que promove o encontro de blues de outrora com um toque de soul. A pegajosa "Fever", primeira single do rebento, soa melodicamente como sobra de Brothers, graças ao seu potencial radiofônico. "Year in review" a bateria ligeiramente acelerada dá o tom para Dan solte o verbo sobre o seu doloroso processo de divórcio, tema este que circunda todo o trabalho. Destacam se ainda a psicodélica "Bullet in the brain", "It's up to you now" faixa que consegue unir a lado rock do velho Keys com o balanço setentista, a literalmente funky "10 lovers" e "Gotta get away", faixa de encerramento, é uma pérola pop que encerra brilhantemente o trabalho que, merecidamente, debutou em primeiro lugar na Billborad.

Por fim, por mais que o plano de dominar o mundo fora deixado de lado há de vangloriar a ousada nova proposta escolhida pelo The Black Keys. Afinal, mesmo que o resultado talvez não agrade os fãs de última hora a qualidade impressa faz com que por muitas e muitas vezes ouçamos o disco para percebermos cada detalhe criado nesta imensidão sonora chamada Turn Blue.      

[Site]

Tracklist:

1. "Weight of Love"  
2. "In Time"  
3. "Turn Blue"
4. "Fever"  
5. "Year in Review"  
6. "Bullet in the Brain"  
7. "It's Up to You Now"  
8. "Waiting on Words"  
9. "10 Lovers"  
10. "In Our Prime"  
11."Gotta Get Away"  

Download: 4shared 

:
domingo, 1 de junho de 2014
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Anathema - Distant Satellites

2 comentários

Gênero
: Progressive/Atmospehric Rock
País: Inglaterra
Ano: 2014

Comentário: Pouparei-me de comentários acerca da biografia do Anathema, uma banda tão importante pra esse blog que se você está aqui muito provavelmente ou você já a conhece e é fã ou em breve tornar-se-á. Distant Satellites é o mais recente de uma vasta discografia de álbuns de estúdio e uma série de outros releases da banda inglesa que ajudou a consolidar o Death/Doom Metal no início dos anos 90 e posteriormente gradativamente migrou para uma sonoridade caracteristicamente melódica e melancólica, tocando as raias do Atmospheric Rock, Prog Rock, Post Rock e similares, porém com um toque completamente original e intenso especialmente criado pelo guitarrista e principal compositor da banda, Daniel Cavanagh. Nos últimos anos a sonoridade do Anathema recebeu uma série de inovações, como a inclusão definitiva de Lee Douglas, fazendo vocais femininos em par com os já característicos vocais apaixonados de Vincent Cavanagh, e um toque mais progressivo à sonoridade - que não é algo exatamente novo, desde de pelo menos A Natural Disaster em 2003 a sonoridade do Anathema é profundamente progressiva, pra não dizer antes.

E não por acaso, A Natural Disaster é, particularmente, meu álbum favorito do Anathema. Especialmente pela mescla harmoniosa de melancolia e abstração atmosférica, inclusive com elementos mais exóticos como leves toques eletrônicos. No entanto, desde 2010, com o lançamento de We're Here Because We're Here, o Anathema recebe a colaboração na produção de Steven Wilson, produtor e músico inglês conhecido pelos seus trabalhos solo, inúmeras colaborações, outras produções de bandas como Katatonia e Opeth e especialmente pelo Porcupine Tree. Mas a presença de Steven Wilson na produção de qualquer disco sempre deixa marcas mais fortes que o normal. Se em We're Here Because We're Here as coisas soaram meio estranhas de começo, em Weather Systems, de 2012, já estávamos bem mais acostumados e tudo soou bem mais "anathema" e menos "steven wilson". Mas em Distant Satellites temos um gosto de estar ouvindo algo que não é o Anathema em alguns momentos. E, muito embora as bandas experimentarem novas sonoridades seja algo que eu fortemente apoio, essa "experimentalidade" influenciada pelo progressivo característico de Steven Wilson já está realmente me frustrando.

Distant Satellites começa com uma dupla de faixas perfeitamente similares ao disco anterior da banda, The Lost Song Part 1 e 2. Com destaque total a parte 2, com lindos vocais de Lee Douglas. Dusk (Dark Is Descending) animava fãs quando da divulgação da tracklist do álbum, pelo nome sugestivo e a capa do disco remetendo aos lançamentos primordiais da banda. Embora não tenha nada de old school na sonoridade, Dusk é uma boa faixa, talvez uma das melhores do disco. Ariel tem um clima nada surpreendente, porém perfeitamente agradável à fanbase da banda, e não decepciona - embora não cative. The Lost Song Part 3 tem uma pegada já bem mais progressiva, mas ainda mantendo a harmonia - especialmente com os vocais de Vincent e Lee aparecendo juntos e uma ótima percussão. Um pedaço da faixa já era conhecido pelos fãs previamente ao lançamento do disco, e em geral com boa recepção, e não frustra.

Porém, da metade pra frente o disco se transforma em algo que mais parece um experimento de Steven Wilson que um disco do Anathema. Anathema, em si, é uma faixa onde o clima como um todo começa a perder o feeling e se tornar mais focado no instrumental que nos vocais. O que só seguraria o feeling do começo do disco se esse instrumental fosse realmente intenso e profundo, o que não é. Daniel Cavanagh ainda tenta manter o clima caraterístico com boas guitarras e solos, mas a avalanche de outros elementos, como os sinfônicos, eletrônicos e atmosféricos, tornam as coisas bem menos orgânicas e mais megalomaníacas do que deveriam ser. E isso, amigos, é a marca registrada do Steven Wilson. Em You're Not Alone essa experimentação extrapola todos os limites. Se no início da faixa a estranheza nos vocais ainda era plausível e até mesmo agradável, do meio pra frente a faixa é estragada com uma dose cavalar de progressividades nonsense que nada, absolutamente nada tem a ver com a sonoridade do Anathema. Fireflight, a próxima faixa, então é apenas um longo instrumental atmosférico baseado num orgão, servindo de meio que introdução para a faixa título, que vem a seguir.

Distant Satellites, a faixa, apesar de começar com batidas eletrônicas cheias de glitch, ainda fica bem interessante quando os vocais de Vincent começam a participar do experimento. Mas infelizmente o feeling não dura muito tempo nos 8 minutos da música, começando a ficar enjoativa logo cedo. Mas não me entendam mal, a batida eletrônica e os elementos em geral que compõem a música não me desagradam, apenas estão completamente mal organizados a ponto de desfigurar completamente a musicalidade do Anathema. Mesmo assim, Distant Satellites ainda é um máximo local no domínio das experimentações progressivas do disco, que fecha com Take Shelter, que como previsto para uma conclusão de um disco que da metade pra frente apostou em "progressividade", é uma viagem atmosférica sem muito a adicionar à experiência do álbum.

A influência de Steven Wilson em bandas como Katatonia, Opeth e agora Anathema é visível e inquestionável nos trabalhos que essas bandas criaram nos últimos anos. E isso, francamente, já está completamente saturado aos meus ouvidos particularmente. Incluir elementos experimentais e progressivos não é nada que me desagrade, porém sempre a mesma fórmula pra fazer isso torna tudo repetitivo e cansativo, algo que definitivamente a música progressiva não deveria ser. Distant Satellites, o disco, é uma experiência bipolar divida exatamente na metade do disco, com 5 músicas do Anathema que nós conhecemos e 5 músicas de um Anathema ainda muito estranho, que pode ser que eu me arrependa de dizer isso daqui alguns anos, mas que eu espero realmente que pare por aí. O disco termina sem nos dar vontade de ouvir novamente, embora eu recomende. Na segunda ouvida tudo pareceu menos trágico e as faixas iniciais mostraram-se não tão ruins quanto eu pensava. Mas nunca, jamais, escute o álbum fora de ordem.




Tracklist:

1. The Lost Song Part 1 (5:53)
2. The Lost Song Part 2 (5:48)
3. Dusk (Dark Is Descending) (6:00)
4. Ariel (6:28)
5. The Lost Song Part 3 (5:22)
6. Anathema (6:40)
7. You’re Not Alone (3:26)
8. Firelight (2:43)
9. Distant Satellites (8:17)
10. Take Shelter (6:07)

Download:

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sábado, 19 de abril de 2014
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Quialtera - Jgmglibtz

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Gênero: Progressive Rock/ Metal/ Experimental
País: São Paulo, Brasil
Ano: 2014

Comentário:
Eu estava com muita vontade em voltar a escrever resenhas, mas devido aos dias corridos, à preguiça crônica e outros fatores, como o receio em relação à ferrugem mental — no que diz respeito à música —, acabei deixando o blog de lado para me dedicar mais às putarias do mundão (ou nada disto). Mas bem, encerrando por aqui a parte "pratos limpos", venho apresentar um trabalho que considero deveras interessante, recém lançado e de origem nacional.

"Quialtera", nome de origem teórico-musical que, de forma simplificada, significa uma alteração rítmica em uma música, sendo um nome realmente válido para a proposta da banda paulista, mas não totalmente representativa. Isso porque a banda de Yuri Deryous (Guitarra/ Teclado/ Vocal), Walter Aires (Guitarra), Emerson Dylan (Baixo) e Jean Custer (Bateria) é — usando uma frase extremante brega — uma "explosão de gêneros" e deixa transparecer uma sobrecarga de influências muito legais e bem encaixadas, o que evita que essa "mistura" toda passe de interessante, para cansativo. Toda essa qualidade é ainda mais valorizada por ter sido apresentada logo em seu primeiro disco "Jgmglibtz", cujo título, segundo o próprio vocalista Yuri: "Já o nome do cd não significa merda nenhuma".

Saca a história:
"Estávamos eu (Yuri), o batera e o baixista em um bar, daí esse baixista tentou mandar um sms pro guitarrista que não tinha ido, mas ele tava tão travado que digitou essa merda aí (...) Até hoje ninguém desvendou o que ele pretendia escrever".

O disco Jgmglibtz, fruto de um trabalho que se iniciou em 2011 e que foi lançado em março deste ano, traz muitas referências, sendo que logo na primeira faixa, The Sounds We're Made Of, já podemos ouvir a maioria delas, todas moldadas como se fossem uma demonstração daquilo que o disco nos reserva. E essa demonstração vai desde uma linha hard rock, uma pegada as vezes mais punk, back vocals remetendo à black music, um triangulo puxando "a nordestina" e até momentos relâmpagos de blast beats, só pra mostrar que a rapaziada é do metal, mas de forma tão sutil que não chega a "endemonizar" a faixa. Já outras faixas se comportam de forma mais leves, com direito a um solene piano, enquanto que outras, revelam aquele heavy metal que estava difuso na primeira faixa.

Recapitulando, é um disco que vai te fazer banguear; remeter-te às sonoridades presentes em discos como "We're Here Because We're Here" (Anathema), à riffs paralelamente executados com vocais a nos lembrar de Opeth (e, particularmente, outros que me soam uma mistura de Exxótica com Black Sabbath) e ouvir baixos e cordas de guitarras viajando pelo espaço que deduram que estes caras andaram ouvindo muito Pink Floyd. E ao final, a viajem é fantástica e veio em boa hora, "pegando carona" com os atuais olhares voltados para o "Cosmos" (volta do seriado; astronomia em alta; novas descobertas; efervescência de áreas como astrobiologia; etc...).



Tracklist:
1.The Sounds We're Made Of 04:20
2.Permanent Perception 08:54
3.Às Memórias Ausentes, Notas de Ansiedade 02:45
4.Fuck The Folk 06:23
5.The Pig Speaks 03:00
6.Ana 09:10
7.Take a Ride 14:06
8.Jgmglibtz 06:30

Download: MediafireBandCamp / SoundCloud(streaming)
segunda-feira, 24 de março de 2014
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Portugal. The man - Evil friends

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Gênero: Psychedelic rock / Progressive rock / Indie pop
País: Estados /unidos
Ano: 2013

Comentário: "Gostava mais da banda nos primórdios. Hoje não gosto mais". Quantas e quantas vezes ouvimos tal afirmação ante inúmeras bandas que, de alguma forma, optaram por guinadas sonoras drásticas. Histórias relacionadas a tal fênomeno são inúmeras e talvez uma das manifestações mais recentes desta alcunha foi o lançamento de Evil friends, mais recente rebento do Portugal. The man, uma das bandas mais queridas da atualidade.

Lançado em 2013, o disco aponta novos caminhos sonoros que já figuravam no álbum anterior, o também ótimo In the mountain in the cloud. Se inicialmente a banda, que está na ativa desde 2006, era crua e experimental, tal sonoridade foi lapidada até o derradeiro trabalho. Para tanto, a presença de Danger Mouse foi essencial. Famoso pelas elogiosas produções junto ao Black Keys, Norah Jones, Broken Bells e Gnarls Barkley, Mouse imprime aqui a sua identidade retrô, fator este que contribui e muito para o resultado alcançado.

Apostando numa sonoridade que mescla doses equilibradas de indie, rocks psicodélico e progressivo, a nova roupagem permitiu a produção de singles de sucesso como a ótima "Modern Jesus" e "Purple yellor red and blue", faixa esta que faz parte do jogo FIFA 2014. "Creep in a t-shirt", cuja letra aborda de forma madura o sentimento de perda e vontade desenfreada de seguir em frente, a pulsante "Hip hop kids" e a delicada "Sea of air" se destacam na seara ensolarada. Em contrapartida, o tom lúgrebe domina "Waves" a única faixa que destoa da atmosfera alegre do álbum em termos de melodia.

Por fim, acredita-se que da mesma forma que é possível dar credibilidade à bandas que seguem a mesma fórmula que a consagraram seja aceitável novas roupagens de quando em vez. Logicamente desde que a mesma seja de alta qualidade. E aqui temos um belo registro da segunda vertente.
  

Tracklist:

01. Plastic soldiers
02. Creep in a t-shirt
03. Evil friends
04. Modern Jesus
05. Hip hop kids
06. Atomic man
07. Sea of air
08. Waves
09. Holly roller (hallejuah)
10. Someday believers
11. Purple yellow red and blue
12. Smile

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quarta-feira, 20 de novembro de 2013
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Dark Suns - Orange

1 comentários

Gênero: Progressive/ Art rock
País: Alemanha
Ano: 2011


Comentário: Indo direto ao ponto, com a fome de quem não resenha há décadas, vos trago essa obra prima alaranjada dos sóis negros, de cujo trabalho já falei aqui. Sem brincadeira, durante todo o tempo em que fiquei reclusa deste espaço pigniano, era este álbum que eu estava compulsivamente ouvindo. Amando, vangloriando. Re-ouvindo. Cada música entrava em processo de digestão prazerosa por em média, um mês. Não porque eu sou louca (é bom frisar), mas porque ele é bom de verdade. Porém, é uma jornada cheia de turbulências e mudanças de temperatura. Dá pra explorar várias vibes inusitadas no caminho. Mas é aquela coisa, culpa do Pink Floyd talvez, você tem que ouvir do começo ao fim pra entender a paisagem. Tem fases histéricas, fases contemplativas, fases quebradeira pura e o que dificilmente falta, fases românticas. Ele é completamente diferente do Existence. Sai em disparada pra longe da melancolia profunda e delicada, embora dê umas ensaiadas na queda em busca dela. Mas nunca fica lá no fundo do poço, prefere beirar à loucura do que se cobrir daquele manto gótico e viscoso. Eu diria ainda, que o elemento que controla a sanidade ou a falta dela, é a montanha russa percorrida pelos teclados e o vocal. E tudo isso com um pé nos anos 70. É por isso que eu sou apaixonada por prog, e especialmente pelo Dark Suns, cada álbum é uma aventura.

“Toy”, a música de abertura, está aí bem colocada. Ela em si mesma já traz diferentes fases, já dando o recado do que você vai encontrar. Por ela você também já pode registrar o potencial versátil do vocalista, que vai do suave ao estridente como quem aciona sem querer o alarme do carro do vizinho. Aí você passa por “Eight quiet minutes”, “Elephant” e “Diamond” degustando os picos e quedas da montanha russa, e cai em “Not enough fingers”, pra dar uma anestesiada. Inteira instrumental, ela aparece do nada com calmaria, e injeta um pouco de estabilidade e meditação no meio do caminho. Mas pra não exagerar no descanso, vem “Ghost” e entra direto dando aquela chacoalhada rápida, pra aí mesclar uma deprezinha, e voltar pro stress aventureiro que a essas alturas, você já está se acostumando. Mas a entrada de “That is why they all hate you in hell” é sacanagem. Se você apertar o play desavisado, fica um pouco traumatizado com a gritaria que vai estuprar sua disposição. Mas como eu disse, uma vez acostumado, relaxa e g... você entendeu. A estridência faz parte da emoção, estamos tratando de um álbum anti-tédio, então não reclame. Mas tranqüilo, se você sobreviver a essa, será recompensado devidamente em “Vespertine”, que é a segunda música mais longa do álbum. Então força, conto contigo. Vai rolar um sax nervoso, coisa fina. O finalzinho dela conclui com uma levadinha madura, de quem já passou por muita coisa e sabe manter a serenidade. Depois dela vem “Scaleman”, que não dá moleza, não é só porque você atingiu amostras da iluminação que tem que ficar nessa onda de serenidade. Buda já fez isso pra gente. Tem que dar uma sacudida pra lembrar que é jovem, mas evidenciar um piano, um vocal macio, que é coisa de gente que sabe o que tá fazendo, pra onde vai, de onde vem. É tipo uma lição de moral de quem não perde tempo com lamentações, mostra os erros e o que deve ser aprendido, mas deixa o discurso bonito, jovial e enérgico. Prepara o campo para a próxima geração. “Antipole”, por sua vez, vem com uns coros, meio que dizendo - “Ok, vc chegou no céu. Nós anjos vamos te mostrar o filme da sua vida”. Você se diverte né. Mas também se emociona porque vê muita coisa que dá saudade. Não à toa, essa tem 14 minutos meu caro! É preciso, você chegou até aqui, vai levar tempo pra juntar o quebra-cabeças, se recompor. E em tese, esse seria o fim...

Mas o céu não é o limite. Você ganhou um bônus de 21 minutos e 50 segundos de vida (ou 4 músicas). Tô upando no pacote o “Re-Orange”, EP acústico que te dá uma segunda chance pra pagar os pecados. Mas como você foi uma pessoa muito boa, não é nada difícil, é leve como um... acústico. Como pagar um pecadinho de ter roubado laranjas de um pomar. Inclusive, vem com releituras. Mamão com açúcar (quem sabe você tenha roubado mamões). Essa parte não precisa de nem meio mês pra digerir, é só curtir as 4 seguidas mesmo. Na moralzinha. Rever algumas emoções, já com o gostinho de quem conhece o caminho. “The devil finger´s peace” relê a letra de “Toy”, acrescentando novos insights, numa cor jazz. “Megalomaniacs” fala de “Scaleman”, e é uma das minhas preferidas; traz uma Juliet pra dividir um pouco as emoções de um Romeo que tanto sangra e tanto procura. “The sad song of the elephant man”, que relê “Elephants”, não te tira desse lugar mais sensível, pelo contrário, dá uma reforçada gostosa. Lembra “Stairway to Heaven”. Mas pra não rolar choro ou coisa do tipo, vem “Four quieter minutes”, relendo “Eight quiet minutes”, com um vocal mais malandrinho, porque afinal você sabe que não foi tão bonzinho assim, né? Foram muitas laranjas e muitos mamões... Uns cigarros talvez.

E a capella, só você e o coro das suas próprias outras vozes se despedem dessa jornada que vai dando seu adeus. Seus últimos minutos, seu último mamão, seu último cigarro.

My last cigarette
Here in the sunlit corner
I found that peace
Being just like
Mine.

Tracklist:

1. Toy (3:53)
2. Eight Quiet Minutes (3:53)
3. Elephant (4:55)
4. Diamond (3:14)
5. Not Enough Fingers (4:59)
6. Ghost (6:26)
7. That Is Why They All Hate You In Hell (4:31)
8. Vespertine (8:26)
9. Scaleman (5:21)
10. Antipole (14:13)


Re-Orange Acoustic EP 

1. The Devil Fingers' Peace (6:21)
2. Megalomaniacs (5:12)
3. The Sad Song of the Elephant Man (5:54)
4. Four Quieter Minutes (4:19)

Download:
MEGA

Quem escreve e faz os uploads:

 
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